A 61ª edição da Bienal de Veneza, um dos eventos de arte contemporânea mais prestigiados do mundo, tem sido palco de intensas controvérsias em 2026, gerando debates no cenário internacional. Desde a morte inesperada da curadora Koyo Kouoh até questões envolvendo geopolítica e censura, a mostra tem sido marcada por desafios únicos que estão moldando sua narrativa. Abaixo, respondemos a cinco perguntas cruciais para compreender as razões por trás dessas controvérsias.

1. Quem foi Koyo Kouoh e qual era sua visão para a Bienal?

Koyo Kouoh, curadora nascida nos Camarões e primeira mulher africana a liderar a Bienal de Veneza, foi uma figura central no planejamento da 61ª edição. Ela faleceu em maio de 2025, poucos meses após ser nomeada, deixando um projeto ainda em fase inicial. Sua visão curatorial, intitulada In Minor Keys (Em Tons Menores), enfatizava a necessidade de explorar a arte de forma mais introspectiva, afastando-se de "comentários sensacionalistas sobre eventos globais".

Após sua morte, uma equipe de colaboradores foi encarregada de concluir sua proposta, mas o curto tempo disponível gerou críticas sobre a viabilidade de concretizar sua visão. Especialistas como Cecilia Alemani, curadora da edição de 2022, apontaram os desafios estruturais e financeiros enfrentados por uma exposição dessa magnitude.

2. Por que a renúncia do júri gerou tanta polêmica?

Uma das controvérsias mais notáveis surgiu quando os cinco membros do júri da Bienal renunciaram na semana anterior à abertura do evento. Eles justificaram sua decisão citando discordâncias com a Fundação Bienal de Veneza sobre a inclusão de artistas de países cujos líderes estão sendo investigados pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes contra a humanidade.

A decisão impactou diretamente países como Rússia e Israel. O impasse também trouxe à tona debates sobre o papel do soft power e da diplomacia cultural no contexto internacional. Enquanto alguns defendem a separação entre arte e política, outros veem a inclusão desses países como uma forma de legitimação de regimes controversos.

3. Por que a participação da Rússia gerou críticas?

Desde 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, sua presença em eventos culturais internacionais tem sido alvo de debates. Embora não houvesse uma proibição formal, a participação russa na Bienal de 2026 foi considerada surpreendente, especialmente após o fechamento de seu pavilhão em edições anteriores.

Em março de 2026, a União Europeia ameaçou suspender US$ 2,3 milhões em financiamento caso a Rússia fosse mantida no evento. Além disso, o governo italiano iniciou investigações para verificar a legalidade da participação russa em relação às sanções internacionais aplicadas ao país.

Essa decisão provocou reações globais, com curadores e artistas criticando a Bienal por permitir o que muitos consideram uma tentativa de "branqueamento cultural". Protestos contra a participação russa foram anunciados para ocorrer durante o evento.

4. Qual foi o impacto das tensões envolvendo Israel?

A presença de Israel também atraiu críticas significativas. Na edição anterior, o pavilhão israelense permaneceu fechado devido a protestos contra as políticas do país na Palestina. Em 2026, a instalação do artista Belu-Simion Fainaru enfrentou resistência de ativistas e grupos como o Art Not Genocide Alliance, que acusaram Israel de usar a diplomacia cultural para desviar atenção de conflitos na Faixa de Gaza.

A renúncia do júri foi amplamente interpretada como um ato de repúdio à inclusão de Israel e de outros países envolvidos em controvérsias internacionais. Manifestantes planejam novas ações durante o evento, aumentando as tensões políticas em torno da Bienal.

5. Como os Estados Unidos enfrentaram desafios em sua participação?

A seleção do artista que representaria os Estados Unidos também foi cercada de polêmicas. O processo de escolha foi marcado por atrasos e mudanças, com pelo menos dois artistas recusando convites para participar. Eventualmente, Alma Allen, um escultor autodidata que reside no México, foi escolhido.

Embora a escolha tenha sido elogiada por alguns pela sua originalidade, críticos apontaram a falta de transparência no processo e a inexperiência da comissária responsável. Ainda assim, o Departamento de Estado dos EUA expressou confiança na contribuição de Allen como representante da "excelência americana".

A Visão do Especialista

A Bienal de Veneza de 2026 reflete os desafios complexos que emergem quando arte e política se entrelaçam. A morte de Koyo Kouoh lançou uma sombra sobre o evento, enquanto disputas geopolíticas e questões éticas exacerbam as tensões. A presença de países como Rússia e Israel, além da controvérsia sobre o processo de seleção dos Estados Unidos, destacam as dificuldades em equilibrar liberdade artística e responsabilidade política em um cenário global cada vez mais polarizado.

O futuro da Bienal dependerá de sua capacidade de se adaptar a essas pressões, preservando sua relevância como um espaço de pluralidade e expressão artística. Resta saber como essas discussões moldarão não apenas as próximas edições, mas também as políticas culturais internacionais.

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