A Guarda de Moçambique 13 de Maio de Nossa Senhora do Rosário comemora 82 anos de existência em 2026, reafirmando suas raízes afro-brasileiras e a luta contra a invisibilização da história negra. Criada em 1944 no Bairro Concórdia, em Belo Horizonte, a entidade mantém viva a memória da cultura banto e ressignifica o 13 de maio, data que marca a assinatura da Lei Áurea no Brasil.

Guarda de Moçambique comemora aniversário, mas questiona a abolição da escravatura.
Fonte: www.em.com.br | Reprodução

O contexto histórico do 13 de maio: abolição ou engodo?

O 13 de maio de 1888 é frequentemente celebrado como a data da abolição da escravatura no Brasil, mas a narrativa oficial mascara uma realidade mais complexa. A assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel representou o fim jurídico da escravidão, mas não garantiu reparações ou condições dignas para os negros libertos. Milhões de afrodescendentes foram lançados à marginalização social e econômica, sem acesso a terra, educação ou trabalho digno.

Guarda de Moçambique comemora aniversário, mas questiona a abolição da escravatura.
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Como destacou Isabel Casimira Gasparino, a Rainha Belinha, matriarca da Guarda de Moçambique, "a abolição foi um engodo, uma farsa". Essa visão crítica ecoa entre historiadores e movimentos sociais, que apontam a persistência do racismo estrutural e das desigualdades como heranças diretas do sistema escravista.

Guardas de Moçambique: um símbolo de resistência cultural e religiosa

A história da Guarda de Moçambique está profundamente enraizada na fé e na resistência. Em 1944, Dona Maria Casimira, avó de Rainha Belinha, fundou a guarda como cumprimento de uma promessa feita a Nossa Senhora do Rosário. O gesto, inicialmente motivado por uma questão de saúde, tornou-se um ato de preservação cultural e de memória.

Apesar das barreiras impostas pelo racismo e pelas restrições burocráticas da época, a guarda foi registrada oficialmente graças ao esforço de Efigênio Casimiro, filho de Maria Casimira, que na época tinha apenas 14 anos. Desde então, a organização se consolidou como um pilar da comunidade no Bairro Concórdia.

Estrutura e tradição: como funciona a Guarda de Moçambique

A Guarda de Moçambique opera como um ecossistema colaborativo, no qual cada membro desempenha um papel essencial. A hierarquia é liderada pelo Rei e pela Rainha do Congo, responsáveis por manter a disciplina. Abaixo deles, os capitães coordenam as atividades de cada guarda, enquanto os vassalos executam os ritos e danças. Além disso, há funções diversas, como cozinheiros, artesãos de bandeiras e cuidadores da capela.

Os rituais da guarda incluem o uso de bastões como símbolos de poder e instrumentos de percussão, como caixas e caxambu, para marcar o ritmo das apresentações. Isso reflete a ancestralidade banto, que se manifesta em uma rica tapeçaria de sons, cores e movimentos.

A relação com o Reinado: uma identidade coletiva fortalecida

A Guarda de Moçambique é uma das sete irmandades que compõem o Reinado em Minas Gerais, uma tradição que remonta à história de resistência e organização das comunidades negras. As outras irmandades incluem o Congo, o Caboclo, o Vilão, o Candombe, o Catopé e a Marujada. Embora cada grupo tenha sua identidade própria, todos compartilham a devoção à Nossa Senhora do Rosário.

Conforme explica Rainha Belinha, o Reinado é como a Seleção Brasileira: cada grupo, com sua "camisa", se une sob um objetivo comum, preservando as tradições e a memória de seus ancestrais.

Desafios contemporâneos: racismo e a luta pelo reconhecimento

Mesmo com mais de oito décadas de história, a Guarda de Moçambique enfrenta desafios que vão além da preservação de suas tradições. A matriarca Isabel Casimira destaca que "o mundo é racista" e que é vital preparar as novas gerações para enfrentar ambientes hostis, como as escolas, onde a autoestima das crianças negras frequentemente é colocada à prova.

Outro desafio enfrentado pela Guarda e outras manifestações afro-brasileiras é a luta contra a rotulação de suas práticas como "folclore". Para Isabel, essa classificação foi historicamente usada para minimizar a importância cultural e religiosa dessas tradições.

A programação da celebração dos 82 anos

As comemorações da Guarda de Moçambique no mês de maio seguem uma agenda intensa. Os eventos incluem louvações, apresentações do Boi do Rosário, cortejos pelas ruas do bairro e o hasteamento das bandeiras dos santos padroeiros. A Festa Maior, marcada para o domingo próximo ao 13 de maio, contará com a participação de 12 grupos convidados e mais de 900 visitantes.

A celebração não é apenas uma homenagem ao passado, mas também um ato de resistência e reafirmação cultural. Ao tomar as ruas de Belo Horizonte, a Guarda de Moçambique transforma o espaço público em um palco de memória e celebração.

A decisão histórica da ONU e seu impacto

Em março de 2026, a Assembleia Geral da ONU classificou o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas como o mais grave crime contra a humanidade. Essa decisão resgata a importância de reconhecer o impacto histórico da escravidão, que moldou não apenas o Brasil, mas o mundo.

Para comunidades como a Guarda de Moçambique, esse reconhecimento é um passo importante na luta por justiça histórica e reparação. No entanto, como alerta Rainha Belinha, o caminho para a verdadeira igualdade ainda é longo e exige esforço contínuo.

A Visão do Especialista

A história da Guarda de Moçambique 13 de Maio de Nossa Senhora do Rosário é um exemplo vivo de como as tradições culturais podem resistir ao apagamento histórico e ao racismo estrutural. Mais do que uma celebração religiosa, o Reinado emerge como um ato político, uma reafirmação de identidade e uma luta por reconhecimento.

Especialistas apontam que iniciativas como essa são fundamentais para a preservação da memória afro-brasileira. Elas não apenas celebram o passado, mas também educam as novas gerações sobre a importância de sua história e cultura.

Compartilhar histórias como a da Guarda de Moçambique é essencial para ampliar o diálogo sobre inclusão, respeito e reparação. Em um país que ainda enfrenta os desafios do racismo estrutural, iniciativas como essa são faróis que iluminam o caminho para um futuro mais justo e igualitário.

Guarda de Moçambique comemora aniversário, mas questiona a abolição da escravatura.
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