Quando o Brasil se prepara para uma Copa do Mundo, o país se veste de verde e amarelo, discute escalações e celebra a magia do futebol. Mas, fora dos holofotes e das grandes arenas, existe outra "Copa" em disputa, uma competição silenciosa que reflete os desafios da infraestrutura esportiva nacional. Essa é "a Copa que o Brasil não vê", protagonizada pelos campos de terra batida, quadras abandonadas e projetos sociais que lutam por financiamento para manter o sonho vivo.
O papel da base no esporte brasileiro
O futebol e outros esportes de alto rendimento no Brasil começam muito antes de os atletas chegarem às seleções nacionais ou aos clubes profissionais. A formação esportiva é um processo que se inicia na infância, com práticas regulares, educadores capacitados, infraestrutura adequada e, acima de tudo, acesso.
A realidade, no entanto, está longe do ideal. Segundo dados do IBGE, apenas 39% das escolas públicas possuem quadras esportivas. Sem espaços apropriados para prática, o desenvolvimento do talento esportivo é severamente comprometido. A ausência de incentivo na base impacta diretamente a capacidade do Brasil de competir não só no futebol, mas também em modalidades olímpicas e paralímpicas.
Lei de Incentivo ao Esporte (LIE): um mecanismo estratégico
A Lei de Incentivo ao Esporte (LIE) desempenha um papel crucial nesse cenário. Criada para permitir que pessoas físicas e jurídicas destinem parte do imposto de renda devido a projetos esportivos aprovados pelo Ministério do Esporte, a LIE é uma ferramenta que conecta empresas, governo e sociedade civil em prol do esporte.
Entre 2007 e 2025, a LIE financiou mais de 5.000 projetos, beneficiando diretamente cerca de 8 milhões de pessoas. Estima-se que 78% dos atletas brasileiros em competições internacionais passaram por iniciativas apoiadas pela lei. No entanto, a falta de conhecimento sobre o mecanismo e a burocracia envolvida ainda limitam seu potencial.
Impacto das mudanças tributárias
Em 2025, a Lei Complementar 222 tornou a LIE permanente, ampliando os limites de dedução fiscal para incentivar mais doações. No entanto, essa conquista foi ofuscada pela Lei Complementar 224, que reduziu os incentivos tributários em 10%. Na prática, o teto de dedução para doações passou de 3% para 2,7%.
Embora a mudança possa parecer pequena, o impacto é significativo para projetos que já enfrentam dificuldades financeiras. Menos recursos significam menos crianças atendidas, menos equipamentos adquiridos e menos chances de desenvolvimento esportivo.
O terceiro setor e a previsibilidade
Organizações que dependem da LIE enfrentam um ambiente de escassez e incerteza. A previsibilidade de recursos é essencial para planejar e executar projetos de longo prazo. Sem ela, muitos jovens talentos podem desistir antes mesmo de terem a chance de brilhar.
Além disso, a falta de transparência e campanhas de conscientização sobre o impacto social e econômico da LIE contribuem para a subutilização do mecanismo. O Brasil precisa enxergar o incentivo ao esporte como uma política estratégica, e não como um benefício acessório.
Futebol e DNA brasileiro: um mito ameaçado?
Embora o futebol esteja profundamente enraizado na cultura brasileira, o talento natural não é suficiente para manter o país no topo. A formação de atletas exige investimentos contínuos em infraestrutura, treinamento e suporte psicológico. Sem isso, o "país do futebol" pode perder sua hegemonia.
Os números não mentem: entre 2010 e 2022, a participação do Brasil em finais de Copa do Mundo caiu drasticamente. O mesmo padrão se repete em outras modalidades, como vôlei e atletismo, onde a falta de apoio à base se reflete na performance em competições internacionais.
Exemplos que inspiram
Mesmo diante de tantas adversidades, alguns projetos se destacam. Iniciativas como o Instituto Reação, fundado pelo judoca Flávio Canto, e o projeto Craque do Amanhã, no Nordeste, mostram como a LIE pode transformar vidas. Essas organizações não apenas descobrem talentos, mas também promovem inclusão social e cidadania.
No entanto, para que esses exemplos deixem de ser exceção e se tornem regra, é fundamental fortalecer o ecossistema esportivo brasileiro. Isso inclui desde a ampliação do acesso à LIE até a valorização do papel dos educadores esportivos.
A falta de um planejamento nacional
A ausência de uma política nacional integrada para o esporte de base é um dos maiores entraves ao desenvolvimento esportivo no Brasil. Países como Alemanha e Japão investiram pesado em programas estruturados após crises no futebol e hoje colhem os frutos no cenário internacional.
No Brasil, iniciativas isoladas não são suficientes para enfrentar os desafios. É preciso criar uma rede de apoio que conecte escolas, clubes, prefeituras e empresas, garantindo que o talento seja identificado e desenvolvido de forma ampla e inclusiva.
A Visão do Especialista
O Brasil precisa olhar além do brilho das grandes competições e investir no que realmente importa: a formação de base. A "Copa que o Brasil não vê" é disputada todos os dias, nos bairros periféricos, nas escolas públicas e nos projetos sociais que lutam para sobreviver.
Como analista esportivo, é claro para mim que o sucesso do Brasil no esporte não depende apenas do talento natural, mas de uma estrutura sólida que sustente o desenvolvimento. Sem infraestrutura, apoio financeiro e políticas públicas efetivas, continuaremos a perder talentos antes mesmo de eles pisarem em um gramado profissional.
O desafio é grande, mas as soluções estão ao nosso alcance. É hora de o Brasil investir na "Copa que não vê" e garantir que o futuro do esporte seja tão brilhante quanto seu passado.
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