A trajetória política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre foi marcada por uma conexão emocional com as massas, um fenômeno que especialistas denominam como "economia do afeto". Contudo, ao entrar na corrida para a reeleição em 2026, Lula enfrenta um cenário econômico e social que desafia a eficácia desse modelo. Apesar de indicadores macroeconômicos positivos, como baixa taxa de desemprego e programas sociais robustos, a percepção de bem-estar entre os brasileiros segue negativa. Este artigo aprofunda a análise sobre os fatores que estão minando o impacto da "economia do afeto" e aponta as implicações financeiras para os eleitores e para o governo.

Lula rodeado por apoiadores, faixas e bandeiras, mas clima de ceticismo
Fonte: www.em.com.br | Reprodução

Indicadores econômicos: um paradoxo

O Brasil vive um aparente paradoxo econômico. A taxa de desemprego está em 5,8%, uma das menores da série histórica, e a renda média dos brasileiros supera os R$ 3.600. Além disso, a estabilização nos preços dos combustíveis, com o barril de petróleo Brent recuando para US$ 94, trouxe alívio ao custo do transporte e dos alimentos. No entanto, esses números não têm resultado em uma percepção de melhora na qualidade de vida. Segundo pesquisa Genial/Quaest, 64% dos brasileiros afirmam ter perdido poder de compra, enquanto mais de 80% das famílias estão endividadas, um recorde histórico.

Por que a "economia do afeto" perdeu força?

A "economia do afeto" sempre foi um pilar do lulismo, com foco em políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família e o Auxílio Gás, que foram cruciais para reduzir a extrema pobreza no Brasil. De acordo com o Ipea, essas iniciativas foram responsáveis por diminuir a extrema pobreza de 25% para menos de 5% nas últimas décadas. Contudo, o impacto dessas políticas no dia a dia das famílias está sendo corroído pelo alto nível de endividamento e pela inflação, especialmente dos alimentos, que subiu de 0,09% para 1,10% apenas em março de 2026.

Endividamento e juros: o peso no bolso do brasileiro

Um dos principais entraves à percepção de bem-estar é o endividamento das famílias. De acordo com a Confederação Nacional do Comércio (CNC), quase 50% da renda familiar está comprometida com dívidas. Além disso, os juros do cartão de crédito rotativo ultrapassam 435% ao ano, dificultando a recuperação financeira de milhões de brasileiros. Embora o governo tenha lançado iniciativas como o programa Desenrola Brasil e uma nova proposta de renegociação de dívidas, economistas alertam que essas medidas oferecem apenas alívio temporário, sem resolver os problemas estruturais do sistema de crédito.

Mercado de trabalho: informalidade ainda é desafio

Apesar da baixa taxa de desemprego, a qualidade dos empregos disponíveis ainda deixa a desejar. Muitos brasileiros estão na informalidade, sem acesso a benefícios trabalhistas ou estabilidade financeira. Além disso, o crescimento da renda média não tem acompanhado o aumento do custo de vida, particularmente nos setores de alimentação e habitação.

A percepção importa mais que os números

Para o eleitor médio, os números isolados pouco importam. O que pesa são as dificuldades do dia a dia: o preço do gás de cozinha, a alta dos alimentos e a sensação de que o dinheiro não rende como antes. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) capitaliza esse descontentamento ao afirmar que "o brasileiro não vive de índice". Essa narrativa encontra eco em uma população que, apesar dos dados macroeconômicos positivos, sente os efeitos do endividamento e do aumento do custo de vida.

Impacto no mercado e no consumo

O endividamento em níveis recordes e os juros altos têm um impacto direto no consumo, que é o principal motor da economia brasileira. Segundo dados do Banco Central, a inadimplência continua alta, o que limita o acesso ao crédito e reduz a capacidade de compra das famílias. Isso cria um ciclo vicioso: menor consumo reduz a demanda, que por sua vez afeta o crescimento econômico e a geração de empregos formais.

O papel das reformas estruturantes

Para que o governo consiga recuperar a confiança do eleitorado, será necessário ir além das medidas paliativas. Economistas defendem reformas estruturantes que possam reduzir o custo do crédito, aumentar a competitividade da economia e criar condições para o crescimento sustentável. No entanto, essas reformas exigem um capital político que o governo ainda precisa construir, especialmente em um Congresso fragmentado e polarizado.

A força das alianças políticas

Além dos desafios econômicos, Lula enfrenta um cenário político complexo. A pulverização dos recursos do Orçamento da União em emendas parlamentares de cunho clientelista limita a capacidade do governo de realizar grandes obras estruturantes, como as vistas em mandatos anteriores. Para viabilizar reformas e apresentar um projeto de nação convincente, será crucial ampliar alianças políticas, especialmente no Congresso Nacional e nos governos estaduais.

A Visão do Especialista

Do ponto de vista econômico, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um dilema: como transformar os bons indicadores macroeconômicos em percepção de bem-estar para a população? A resposta passa por um esforço conjunto de curto e longo prazo. Enquanto medidas emergenciais, como programas de renegociação de dívidas, podem aliviar a pressão no curto prazo, é fundamental que o governo se concentre em reformas estruturais para atacar os problemas de custo de crédito, informalidade e baixa renda disponível.

No entanto, o sucesso dessas iniciativas não depende apenas de estratégias econômicas, mas também de um reposicionamento político. Ampliar alianças e buscar um discurso que vá além das conquistas do passado são passos fundamentais para consolidar uma base de apoio e reconquistar a confiança do eleitorado. A "economia do afeto" por si só já não é suficiente; o eleitor demanda soluções tangíveis para os desafios do cotidiano. Em um cenário de polarização e descontentamento, a habilidade de transformar narrativas em ações concretas será o diferencial para determinar o futuro político de Lula e o rumo econômico do Brasil.

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