Em tempos de guerra, a primeira vítima é a verdade. Essa frase, cunhada pelo jornalista inglês Phillip Knightley em seu livro clássico "A Primeira Vítima" (1978), revela uma verdade incômoda sobre a relação entre conflitos globais e a manipulação da informação. Publicado pela editora Nova Fronteira, o livro é uma análise seminal sobre como a imprensa é envolvida e usada como arma de propaganda em tempos de guerra. Décadas após sua publicação, a obra de Knightley continua mais relevante do que nunca, especialmente em um mundo marcado por guerras híbridas, desinformação em massa e lideranças políticas que moldam narrativas ao seu favor.

O papel da mídia em tempos de guerra
O ponto central de Knightley é que, em situações de guerra, os governos frequentemente manipulam a mídia para moldar a opinião pública. A partir da Guerra Civil Americana até os conflitos mais recentes, a imprensa tem sido usada como ferramenta para justificar ações militares, desumanizar inimigos e criar apoio a decisões controversas.
Um dos exemplos mais contundentes citados no livro é o do magnata da imprensa norte-americana William Randolph Hearst, que, no final do século XIX, enviou um repórter a Cuba para cobrir a guerra de independência contra a Espanha. Quando o correspondente relatou que não havia conflito em curso, Hearst respondeu: "Você fornece as fotos, eu forneço a guerra". Essa frase encapsula o poder da mídia para moldar realidades, mesmo quando essas realidades são forjadas.

Donald Trump e a "guerra contra a verdade"
Em tempos recentes, a tese de Knightley encontrou eco na presidência de Donald Trump. Durante seu governo, Trump foi amplamente criticado por adotar uma postura de confronto constante com a imprensa, rotulando veículos de comunicação tradicionais como "inimigos do povo" e promovendo suas próprias narrativas, muitas vezes baseadas em desinformação. O caso das tensões entre Estados Unidos e Irã durante sua gestão é emblemático.
Após uma série de declarações de Trump sobre a destruição do aparato militar iraniano e a iminente queda do regime, a realidade se mostrou bem diferente. O Estreito de Ormuz permaneceu fechado, o programa nuclear iraniano seguiu em operação, e os preços do petróleo subiram, sinalizando a instabilidade geopolítica global. Essas contradições sublinham como a desinformação pode ser usada como uma arma de guerra, mas também como ela pode ser exposta por uma imprensa vigilante.
Brasil e Estados Unidos: uma relação complexa
A relação entre Brasil e Estados Unidos, especialmente no contexto da administração Trump, fornece outro exemplo da manipulação da verdade em tempos de tensão política. Embora não haja um contencioso explícito entre os dois países, os Estados Unidos têm historicamente buscado influenciar a política e a economia brasileira.
Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os Estados Unidos negociaram com Getúlio Vargas para garantir o apoio brasileiro no conflito. Em troca, construíram aeroportos estratégicos no Norte e Nordeste do Brasil e financiaram a construção da siderúrgica de Volta Redonda. Contudo, essa relação de cooperação nem sempre foi harmoniosa. No governo de Juscelino Kubitschek, a oposição americana ao plano de metas e à construção de Brasília evidenciou as tensões entre os dois países.
A era Trump e os desafios comerciais
Nos anos mais recentes, Donald Trump adotou uma postura de confronto, buscando sobretaxar produtos brasileiros, mas excluindo itens estratégicos para os Estados Unidos, como café e suco de laranja. Embora os Estados Unidos mantenham um superávit confortável na balança comercial com o Brasil, as ações de Trump sugerem um esforço para desestabilizar relações diplomáticas e interferir na política interna brasileira, especialmente em um momento de polarização política no país.
A desinformação como estratégia geopolítica
O uso da desinformação como ferramenta política não é exclusivo de Trump. Na verdade, ele segue uma longa tradição de líderes que manipulam informações para consolidar poder, justificar ações militares ou deslegitimar opositores. O caso da "guerra contra o terror" após os ataques de 11 de setembro de 2001 é um exemplo emblemático. Relatos de armas de destruição em massa no Iraque, mais tarde desmentidos, foram usados para justificar a invasão do país.
No Brasil, a desinformação também tem desempenhado um papel central no cenário político, especialmente em períodos eleitorais. Notícias falsas e campanhas de desinformação têm sido usadas para influenciar eleitores e polarizar o debate público, dificultando o diálogo e comprometendo a democracia.
O impacto global da manipulação midiática
Em um mundo cada vez mais interconectado, as consequências da manipulação midiática em tempos de crise ultrapassam fronteiras. A disseminação de fake news, amplificada por redes sociais e algoritmos, intensifica a polarização e mina a confiança nas instituições democráticas. Países em desenvolvimento, como o Brasil, são particularmente vulneráveis a essas dinâmicas, uma vez que enfrentam desafios estruturais em suas instituições de mídia e governança.
Ao mesmo tempo, a globalização da informação também cria uma oportunidade para que vozes antes marginalizadas ganhem visibilidade. Jornalistas investigativos, como os que inspiraram Knightley, desempenham um papel fundamental ao expor a verdade e responsabilizar os poderosos, mesmo em face de enormes adversidades.
A Visão do Especialista
O legado de Phillip Knightley em "A Primeira Vítima" é um alerta atemporal sobre os perigos da manipulação da verdade, especialmente em tempos de crise. Como jornalistas, acadêmicos e cidadãos, cabe a nós estarmos atentos às narrativas que consumimos e às fontes que escolhemos confiar. A verdade, mais do que nunca, precisa ser defendida.
Nos próximos anos, à medida que novas crises geopolíticas e desafios globais surgirem, o papel do jornalismo independente será ainda mais crucial. A transparência, a ética e o compromisso com os fatos são não apenas uma responsabilidade, mas uma necessidade para a preservação da democracia e da paz mundial.
Em tempos de guerra, seja ela militar, comercial ou informacional, a verdade não pode continuar sendo a primeira vítima. É papel de todos nós garantir que ela prevaleça.

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