Uma falha lenta na adaptação da rede elétrica da Bahia coloca em risco a única população selvagem da arara‑azul‑de‑Lear. Dados de campo coletados entre 1993 e 2026 mostram que, apesar da recuperação numérica da espécie, a eletroplessão vem se intensificando, ameaçando a viabilidade do projeto de conservação.

Contexto histórico e evolução da população
O projeto de conservação iniciado em 1993 foi decisivo para evitar a extinção da arara‑azul‑de‑Lear. A Fundação Biodiversidade, em parceria com a Unicamp e organizações internacionais, elevou o número de indivíduos de 50 para 2 548 em três décadas, mudando o status da espécie de "criticamente em perigo" para "em perigo".
O sucesso demográfico, porém, trouxe novos desafios de manejo. À medida que a população aumentou, as aves expandiram seu território de busca de alimento, adentrando áreas rurais onde a infraestrutura elétrica é precária e pouco adaptada à presença de grandes aves.
A ameaça da rede elétrica
Linhas de média e baixa tensão são a principal causa de mortalidade recente. A Fundação Biodiversidade registrou 192 óbitos por choque elétrico nos últimos oito anos, principalmente nas proximidades de Canudos e Paulo Afonso.
O avanço do desmatamento intensifica o contato das araras com a fiação. Conforme relatado pela pesquisadora Erica Pacifico (Unicamp), a redução de corredores florestais força as aves a sobrevoar áreas cultivadas, aumentando a probabilidade de colisões com isoladores e postes.
Dados de mortalidade e impactos
| Ano | Óbitos por eletroplessão | População estimada |
|---|---|---|
| 2018 | 12 | 1 800 |
| 2020 | 18 | 2 050 |
| 2022 | 24 | 2 300 |
| 2024 | 31 | 2 450 |
| 2026 | 35 | 2 548 |
O aumento de óbitos acompanha a expansão populacional da espécie. Embora a taxa de crescimento seja positiva, a mortalidade anual por choque representa cerca de 1,3 % da população total, um número alarmante para uma espécie ainda classificada como ameaçada.
Ações institucionais e acordos
O Ministério Público da Bahia já iniciou tratativas para firmar um TAC com a Neoenergia. O acordo prevê a revisão de projetos de linhas elétricas, a instalação de isoladores à prova de aves e o monitoramento contínuo das áreas críticas.
Medidas adotadas pela Neoenergia
- Reposicionamento de mais de 6 100 estruturas elétricas.
- Instalação de postes com espaçamento ampliado entre fases.
- Uso de isoladores de baixa condutividade para evitar descargas.
- Treinamento de equipes de campo para identificação de risco.
Apesar das intervenções, especialistas apontam que a implementação ainda é parcial. A promotora Luciana Khoury destaca que a definição das áreas de ajuste ainda está em negociação, atrasando a eficácia das ações.
Desafios técnicos e soluções propostas
Inverter a posição dos transformadores é uma solução simples e ainda não aplicada. Essa mudança reduziria o risco de descargas ao afastar as fases energizadas das áreas de pouso preferenciais das araras.
Outras propostas incluem a criação de "corredores elétricos seguros" com cabos enterrados. Embora custosa, a técnica tem sido bem-sucedida em projetos de conservação de rapinas no sul do país.
Repercussão econômica e turismo
O ecoturismo em Canudos gera receita significativa para a região. Em 2025, a Estação Biológica recebeu entre 600 e 800 visitantes, com ingressos que chegam a R$ 550 para estrangeiros, impulsionando a economia local.
Mortes frequentes de araras podem comprometer esse fluxo. A percepção de risco reduz o interesse dos turistas, ameaçando empregos e a arrecadação de comunidades que dependem do turismo de conservação.
Outros riscos sanitários
Um surto de circovírus em Curaçá representa um perigo adicional. Embora não tenha sido detectado em araras‑azuis‑de‑Lear, a proximidade geográfica e a capacidade de voo de até 200 km exigem vigilância constante.
Testes realizados em 31 filhotes até abril de 2026 não mostraram contaminação. Contudo, a mobilidade das aves implica que um eventual foco infeccioso pode se espalhar rapidamente para a população de Canudos.
A importância da conservação
Preservar a arara‑azul‑de‑Lear é sinônimo de proteger a caatinga. Como espécie endêmica, seu bem‑estar reflete a saúde dos ecossistemas de arenito calcário, fundamentais para a biodiversidade regional.
O sucesso do projeto serve de modelo para outras iniciativas de recuperação de aves ameaçadas. A integração entre pesquisa acadêmica, ONG, setor energético e justiça ambiental demonstra a complexidade necessária para enfrentar ameaças multifacetadas.
A Visão do Especialista
Erica Pacifico conclui que a eletroplessão é a principal barreira à plena recuperação da arara‑azul‑de‑Lear. Ela recomenda a aceleração da implementação do TAC, o investimento em infraestruturas subterrâneas nas áreas de maior densidade de aves e a criação de um programa de monitoramento em tempo real usando drones. Sem essas medidas, a tendência de aumento de mortalidade pode reverter os ganhos obtidos nas últimas três décadas, comprometendo não só a espécie, mas também o ecoturismo e a integridade da caatinga.
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