A alimentação no domicílio registrou uma inflação de 1,65% em maio de 2026, segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na última sexta-feira (12). Esse é o maior aumento para o mês de maio em 18 anos, desde 2008, quando o índice alcançou 2,27%. Os números integram o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), principal medidor de inflação do país.

Por que os preços dos alimentos subiram?
Historicamente, o início do ano já é marcado por um aumento sazonal nos preços dos alimentos, devido à menor oferta de produtos. Porém, em 2026, fatores externos intensificaram essa tendência. O principal deles foi o impacto da guerra no Irã, que começou em 28 de fevereiro.
O conflito elevou as cotações internacionais do petróleo, gerando uma cadeia de efeitos nos custos de transporte, especialmente no preço do óleo diesel, amplamente utilizado no setor de transporte rodoviário brasileiro. Apesar de uma leve queda de 2,34% no preço do diesel em maio, os aumentos acumulados de 13,9% em março e 4,46% em abril ainda repercutem nos custos logísticos.
Produtos mais afetados pela inflação
Entre os alimentos que sofreram maior impacto, destacam-se:
- Batata-inglesa: alta de 44,69%.
- Tomate: aumento de 20,62%.
- Cebola: inflação de 16,8%.
- Carnes: alta de 1,39%.
Segundo Fernando Gonçalves, gerente do IPCA no IBGE, a alta nesses itens ocorreu devido à menor oferta e ao aumento do frete impactado pela alta dos combustíveis.
Quedas pontuais em alguns produtos
Embora a inflação tenha sido generalizada, alguns alimentos registraram reduções nos preços em maio. Entre eles:
- Café moído: queda de 2,38%.
- Frutas: redução de 0,7%.
Essas quedas, no entanto, não foram suficientes para conter a alta geral dos preços na alimentação.
Inflação acumulada em 12 meses
No acumulado de 12 meses até maio de 2026, a inflação da alimentação no domicílio foi de 2,99%. Economistas revisaram suas projeções e estimam que essa taxa pode chegar a 7% ou mais até dezembro, considerando os desafios previstos para o segundo semestre.
Entre os produtos que apresentaram as maiores altas no acumulado estão:
| Produto | Variação (%) |
|---|---|
| Cenoura | 71,88% |
| Batata-inglesa | 36,50% |
| Feijão-carioca | 35,78% |
| Batata-doce | 29,26% |
| Tomate | 28,56% |
Impactos climáticos: o papel do El Niño
O segundo semestre de 2026 pode ser marcado por um evento climático de grande intensidade: o El Niño. Esse fenômeno tem o potencial de alterar significativamente a distribuição de chuvas no Brasil, impactando diretamente a produção agropecuária.
Espera-se um aumento na ocorrência de secas nas regiões Norte e Nordeste, enquanto o Sul do país pode enfrentar chuvas mais intensas. Esses fatores podem contribuir para novos aumentos nos preços dos alimentos, caso a produção seja afetada.
Impactos sociais e econômicos
A inflação dos alimentos tem um efeito particularmente danoso sobre as famílias de baixa renda, que destinam uma parcela maior de seus orçamentos para a compra de itens básicos. Isso acentua desigualdades sociais e reduz o poder de compra dessas famílias.
Adicionalmente, o aumento dos preços dos alimentos também pode influenciar o cenário político. Nas eleições de 2022, por exemplo, a inflação de 13,23% na alimentação no domicílio foi apontada como um dos fatores que contribuíram para a derrota do então presidente Jair Bolsonaro. Em 2026, o governo do presidente Lula enfrenta o desafio de controlar os preços antes das próximas eleições.
A alimentação fora do domicílio
O levantamento do IBGE também incluiu dados sobre a alimentação fora do domicílio, que registrou uma inflação mais moderada de 0,49% em maio. Esse índice é inferior ao registrado no mesmo período do ano passado, quando alcançou 0,58%.
A Visão do Especialista
Para o economista Sérgio Samuel dos Santos, do sistema de cooperativas de crédito Ailos, o cenário atual exige que os consumidores adaptem suas estratégias de consumo. Ele recomenda substituir produtos com altas expressivas por alternativas mais acessíveis, como forma de mitigar os impactos da inflação.
O governo também enfrenta desafios significativos para conter os avanços nos preços, especialmente em um período marcado por instabilidade externa e fenômenos climáticos. Medidas como o incentivo à produção agrícola e à redução de custos logísticos podem ser fundamentais.
Com o avanço da guerra no Irã e a possível intensificação do El Niño, o cenário para os próximos meses é de incerteza. Especialistas alertam para a importância de políticas públicas eficazes e para a conscientização dos consumidores em relação aos seus hábitos de consumo.
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