"Eu não sei matemática", "matemática é muito difícil", "eu não consigo aprender". Essas frases, comuns entre estudantes brasileiros, são o reflexo de um problema estrutural que assola o sistema educacional do país. Segundo o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2023, apenas 5,2% dos estudantes da rede pública alcançam o nível de proficiência adequado em Matemática ao final do 3º ano do Ensino Médio. O problema, no entanto, não é falta de capacidade, como reforçam especialistas.

O papel da ansiedade matemática no desempenho escolar
De acordo com o professor José Carlos da Silva, em entrevista à coluna Enem e Educação, o maior entrave para o aprendizado da Matemática no Brasil é a ansiedade matemática. Esse fenômeno, que afeta aproximadamente 65% dos estudantes brasileiros, cria barreiras emocionais que dificultam a assimilação de conceitos básicos da disciplina.

"O medo de errar ou a pressão em torno da Matemática interfere diretamente no desempenho dos alunos, levando muitos a acreditarem que a disciplina não é para eles", explica José Carlos, que leciona no Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IF Sertão-PE). Essa percepção começa ainda na infância e pode se perpetuar ao longo da vida acadêmica.
Desafios na educação básica: o panorama nacional
Relatórios recentes reforçam a gravidade da situação. O Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS), conduzido pela OCDE, revelou que crianças de 5 anos em três estados brasileiros (Ceará, Pará e São Paulo) apresentam desempenho abaixo da média global em habilidades de numeracia, com uma pontuação de 456 pontos, contra 502 em literacia emergente.
Essa dificuldade se agrava com o avanço escolar. Segundo o Saeb, enquanto 43,5% dos estudantes do 5º ano do Ensino Fundamental atingem o nível esperado em Matemática, esse número cai para 16,5% no 9º ano. No Ensino Médio, apenas 5,2% dos alunos alcançam a proficiência adequada.
Impacto da formação docente na aprendizagem
A formação dos professores também influencia consideravelmente o desempenho dos alunos. Dados do Censo Escolar/Inep de 2023 mostram que 71,4% dos professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental possuem formação adequada, número que cai para 58,3% nos anos finais. No Ensino Médio, o índice é ligeiramente melhor, com 79,8%, mas ainda insuficiente para atender às demandas de uma educação de qualidade.
| Etapa Escolar | Formação Adequada (%) | Proficiência em Matemática (%) |
|---|---|---|
| Anos Iniciais (Fundamental) | 71,4% | 43,5% |
| Anos Finais (Fundamental) | 58,3% | 16,5% |
| Ensino Médio | 79,8% | 5,2% |
Iniciativas para superar os desafios
Para enfrentar esses desafios, o Ministério da Educação lançou, em 2025, o programa Compromisso Nacional Toda Matemática. Este programa busca melhorar a formação docente, disponibilizar materiais didáticos alinhados à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e promover o uso de novas tecnologias em sala de aula.
Além disso, intercâmbios internacionais, como o realizado em Xangai com a participação de professores medalhistas da Olimpíada de Professores de Matemática do Brasil, têm sido uma oportunidade para compartilhar boas práticas e aplicar inovações pedagógicas.
O papel da tecnologia na aprendizagem da Matemática
Escolas como a EREM Professor Trajano de Mendonça, no Recife, têm utilizado tecnologias como inteligência artificial (IA) e aplicativos educacionais para engajar os alunos. Atividades práticas, como feiras de Matemática e projetos sobre criptografia e sistemas binários, ajudam os estudantes a compreenderem a aplicabilidade da disciplina no mundo real.
"A IA pode ser uma ferramenta poderosa para o aprendizado da Matemática", afirma o professor Ícaro Ventura. Ele incentiva o uso de ferramentas como ChatGPT para análise de cálculos e resolução de problemas, desde que os alunos adotem uma postura crítica e verifiquem as fontes de informação.
Perspectivas e desafios regionais
No estado de Pernambuco, o cenário educacional reflete as desigualdades socioeconômicas do país. Apesar de ter cerca de 9,4 mil professores de Matemática nos anos finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio, a formação insuficiente de docentes continua sendo um obstáculo significante.
Para o professor José Carlos, o investimento na formação continuada de professores e na disponibilização de materiais pedagógicos alinhados à realidade das escolas são medidas urgentes. "Sem esses recursos, continuaremos lutando contra um problema estrutural", alerta.
A Visão do Especialista
A aprendizagem de Matemática no Brasil não é apenas um desafio educacional, mas também um reflexo das desigualdades sociais. A baixa proficiência em Matemática compromete o futuro profissional e pessoal de milhões de estudantes, limitando suas oportunidades.
É imprescindível que políticas públicas invistam de maneira consistente em formação docente, infraestrutura e metodologias inovadoras. Além disso, é necessário tratar a ansiedade matemática como um problema real e propor soluções que integrem aspectos pedagógicos e emocionais.
Como sociedade, precisamos urgentemente transformar o ensino da Matemática em uma experiência significativa, conectada ao cotidiano e às demandas do século XXI. Somente com esforços coordenados será possível reverter o cenário atual e garantir que a Matemática deixe de ser um obstáculo e se torne uma ferramenta de emancipação para os estudantes brasileiros.

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