Centenas de milhares de argentinos foram às ruas nesta terça-feira, 12 de maio de 2026, em uma massiva mobilização em defesa da educação pública. A manifestação, denominada Quarta Marcha Universitária Federal, reuniu aproximadamente 1,5 milhão de pessoas em diferentes províncias do país, incluindo estudantes, professores, autoridades universitárias, funcionários não docentes, sindicatos e famílias. O principal pedido dos manifestantes era o cumprimento da Lei 27.795, aprovada em outubro de 2025, que garante o financiamento das universidades públicas.
O contexto da crise educacional na Argentina
Desde a posse do presidente Javier Milei, em 2023, o setor da educação pública tem enfrentado um cenário de cortes orçamentários e desfinanciamento. De acordo com um relatório do Centro Ibero-Americano de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Inovação (CIICTI), o orçamento das universidades caiu para 0,428% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, o menor índice desde 1989. Em comparação, o percentual era de 0,718% em 2023.
A redução no orçamento tem impactado diretamente os salários dos professores e funcionários universitários. Cerca de 70% desses trabalhadores estão atualmente abaixo da linha da pobreza, enfrentando uma perda salarial equivalente a oito salários desde o início do governo Milei.
A Lei 27.795: uma conquista ignorada
A Lei 27.795 foi aprovada pelo Congresso argentino em 2025, garantindo um financiamento mínimo para universidades públicas. No entanto, o Executivo Nacional tem sido acusado de ignorar a legislação, desconsiderando tanto o Congresso quanto decisões judiciais que ordenam o cumprimento da lei. Essa postura gerou uma série de protestos, culminando na mobilização histórica desta terça-feira.
Segundo Guillermo Durán, reitor da Universidade de Buenos Aires (UBA), o governo de Milei busca "sufocar as universidades públicas", privando-as de recursos suficientes para oferecer ensino de alta qualidade. "Esse estrangulamento orçamentário é uma estratégia para deslegitimar o sistema público e justificar a sua desvalorização", afirmou Durán.
Impacto na estrutura universitária
Os cortes orçamentários têm provocado um grave êxodo de professores e pesquisadores. A Faculdade de Ciências Exatas da UBA, por exemplo, perdeu um professor a cada dois dias desde dezembro de 2023. Além disso, várias universidades relataram dificuldades para manter suas instalações e oferecer programas acadêmicos essenciais.
Essa deterioração estrutural também afeta diretamente os estudantes, que enfrentam redução de oportunidades acadêmicas e científicas em um país historicamente reconhecido pela excelência de suas universidades públicas.
A mobilização nacional
O epicentro da mobilização ocorreu na Praça de Maio, em Buenos Aires, onde líderes educacionais, sindicatos e organizações estudantis realizaram discursos em defesa do modelo público de ensino. Sob o lema "Pela educação, universidade pública e ciência nacional", a marcha também teve grande adesão em cidades como Córdoba, Rosário, Mendoza, Neuquén e Salta.
Durante o evento, membros da Confederação das Universidades Argentinas (FUA) denunciaram que a crise enfrentada pelas universidades "não é apenas orçamentária". Segundo eles, trata-se de um claro desrespeito institucional por parte do Executivo, que ignora os pilares do sistema educacional público.
Dados do desfinanciamento
| Ano | % do PIB destinado às universidades | Queda Real (%) |
|---|---|---|
| 2023 | 0,718% | - |
| 2024 | 0,526% | 21,8% |
| 2025 | 0,428% | 3,5% |
| 2026 (projeção) | 0,428% | 16,9% |
História da educação pública na Argentina
O ensino superior público e gratuito é um dos pilares da sociedade argentina desde 1949, quando foi instituído pelo governo de Juan Domingo Perón. Atualmente, o país conta com 57 universidades nacionais, muitas das quais têm reputação internacional por sua qualidade acadêmica.
Essa tradição de gratuidade e excelência está sendo desafiada pelos cortes orçamentários, que ameaçam desestabilizar um modelo que há décadas é considerado um dos mais inclusivos da América Latina.
Repercussão internacional
A crise educacional na Argentina tem chamado atenção de organizações internacionais e especialistas em educação. Segundo o CIICTI, a redução do financiamento compromete não apenas o acesso à educação, mas também o desenvolvimento de pesquisas científicas que são vitais para o crescimento econômico e social do país.
Além disso, o desmonte do sistema público e gratuito de ensino pode afetar a posição da Argentina como referência em determinadas áreas de pesquisa, como medicina e biotecnologia.
A visão do especialista
Especialistas em políticas educacionais alertam que o desfinanciamento das universidades públicas argentinas pode acarretar consequências graves e duradouras. A redução no orçamento ameaça a qualidade do ensino, a continuidade de pesquisas científicas e o acesso universal à educação, com potencial para ampliar desigualdades sociais.
Segundo economistas, o desmonte do sistema educacional público pode também impactar negativamente a economia do país. A formação acadêmica de qualidade é essencial para a inovação e para o desenvolvimento de setores estratégicos, como tecnologia e saúde.
O futuro das universidades públicas na Argentina depende, em grande parte, da pressão popular e da capacidade de diálogo entre o governo e os diversos setores envolvidos. A mobilização de 1,5 milhão de pessoas demonstra que a sociedade está disposta a lutar pela preservação de um dos pilares da identidade nacional.
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