A Associação Nacional dos Prefeitos e Vice-Prefeitos da República Federativa do Brasil (ANPV) protocolou no Supremo Tribunal Federal (STF) uma ação direta de inconstitucionalidade contra a chamada "lei da dosimetria". O pedido, formalizado em 7 de julho de 2026, está sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes. A entidade argumenta que a norma apresenta vícios formais e materiais, além de violar princípios constitucionais, como a separação de poderes e a impessoalidade das leis.

Prefeitos reunidos em frente ao Supremo Tribunal Federal, manifestando apoio à derrubada de lei da dosimetria.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br | Reprodução

O que é a lei da dosimetria?

A "lei da dosimetria" refere-se a alterações no Código Penal que limitam a autonomia dos juízes ao calcular penas para crimes contra a democracia. Entre as mudanças, está a proibição de somar penas para esses crimes e a obrigatoriedade de redução de pena em casos de crimes cometidos em contexto de multidão. Essas disposições foram alvo de críticas por supostamente esvaziarem a análise individualizada de cada caso judicial.

Contexto histórico e trajetória legislativa

A norma tem origem no Projeto de Lei nº 2.162/2023, que inicialmente tratava de condições de progressão de regime para condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. Após a aprovação no Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou integralmente o texto, mas o veto foi em parte derrubado pelo Congresso Nacional, gerando controvérsias procedimentais e jurídicas.

Entre as questões apontadas está uma emenda proposta pelo senador Sergio Moro (PL-PR) no âmbito da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. A emenda, que limitava os benefícios penais aos crimes contra a democracia, foi classificada como de redação, dispensando nova análise pela Câmara dos Deputados. Para a ANPV, isso configurou uma violação ao processo legislativo.

Principais argumentos da ANPV

Inconstitucionalidade formal

A ANPV contesta a classificação da emenda de Sergio Moro como sendo apenas de redação. Segundo a entidade, o Supremo Tribunal Federal já possui precedentes que rejeitam o uso estratégico desse tipo de emenda para evitar o retorno de textos ao trâmite legislativo. A associação também critica a derrubada parcial do veto presidencial, afirmando que isso resultou na promulgação de um texto que não reflete a versão aprovada pelo Legislativo nem a vontade do Executivo.

Inconstitucionalidade material

Do ponto de vista material, a ANPV argumenta que a lei da dosimetria viola a separação de poderes ao impor automatismos legislativos para a dosimetria de penas, retirando do juiz a análise concreta das circunstâncias de cada caso. Além disso, a entidade afirma que a norma é casuística, pois foi criada para beneficiar um grupo específico de condenados, em violação ao princípio da impessoalidade das leis.

Impactos sobre a democracia e o sistema penal

Outro ponto levantado pela ANPV é que a lei da dosimetria dá tratamento mais brando a crimes contra a democracia em relação a outros crimes considerados menos graves. Para a entidade, isso representa uma inversão de prioridades e uma mitigação da proteção constitucional às instituições democráticas.

Outras ações da ANPV

Nos últimos dias, a ANPV protocolou outras quatro ações diretas de inconstitucionalidade sobre temas diversos, além da lei da dosimetria. A associação, fundada em 2005, tem como objetivo representar os interesses de prefeitos e vice-prefeitos, oferecendo apoio político e jurídico, além de promover debates sobre temas legislativos que impactam a administração pública municipal.

Repercussão no meio jurídico e político

A ação da ANPV contra a lei da dosimetria gerou ampla repercussão. Juristas apontam que o caso pode ser um marco para o debate sobre o equilíbrio entre os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. Politicamente, o tema também reflete os atritos recentes entre o governo federal e o Congresso, evidenciados na derrubada parcial do veto presidencial.

Próximos passos no STF

O caso será analisado pelo ministro Alexandre de Moraes, que já é relator de outra ação semelhante movida pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI). O julgamento deve abordar tanto os aspectos formais quanto materiais da norma, podendo gerar um precedente significativo para a interpretação constitucional sobre a elaboração de leis penais.

Análise comparativa: dados e precedentes

Aspecto Lei da Dosimetria Precedentes do STF
Classificação de emendas Emenda de redação dispensou nova análise Precedentes rejeitam uso estratégico de emendas de redação
Separação de poderes Imposição de automatismos legislativos STF defende autonomia do Judiciário na dosimetria
Generalidade das leis Norma considerada casuística Constituição exige impessoalidade e abstração

A visão do especialista

A discussão sobre a lei da dosimetria destaca questões cruciais para o equilíbrio institucional no Brasil. O STF terá a oportunidade de reafirmar princípios constitucionais, como a separação de poderes e a impessoalidade das leis, ao analisar os argumentos apresentados pela ANPV. Independentemente do resultado, o caso reforça a necessidade de atenção aos trâmites legislativos e à construção de normas penais gerais e abstratas, que preservem a segurança jurídica e os valores democráticos.

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