Vinte anos após os ataques de maio de 2006, a Baixada Santista revive um cenário de tensão e violência, marcado por constantes confrontos entre a Polícia Militar e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Apesar de a facção adotar uma postura mais discreta em grande parte do estado de São Paulo, na Baixada, a situação é diferente: os episódios de violência têm características alarmantes, sustentados por fatores históricos e estruturais que fomentam a presença do crime organizado.

Confrontos entre PM e PCC em 2006 na Baixada Santista
Fonte: redir.folha.com.br | Reprodução

Revisitando maio de 2006: o marco inicial

Em maio de 2006, São Paulo enfrentou uma das maiores crises de segurança pública de sua história. O PCC, em retaliação à transferência de líderes para presídios de segurança máxima, orquestrou uma série de ataques coordenados contra policiais, delegacias e órgãos públicos, resultando em um saldo de 564 mortos em uma semana, segundo dados oficiais. Esse evento marcou uma mudança na dinâmica do crime organizado, que passou a adotar uma postura mais empresarial, evitando grandes confrontos que pudessem atrapalhar suas atividades lucrativas, como o tráfico de drogas.

A exceção da Baixada Santista

No entanto, enquanto o PCC se reorganizou para operar de maneira discreta em outras regiões, na Baixada Santista a situação seguiu um rumo distinto. Em cidades como Santos, Cubatão e Guarujá, a facção estabeleceu um domínio territorial que se reflete na ausência de policiamento preventivo em várias comunidades. Nessas áreas, criminosos frequentemente ostentam armas de grosso calibre, montam barricadas e enfrentam a polícia.

Por que a Baixada é diferente?

A Baixada Santista apresenta características únicas que a tornam um terreno fértil para o fortalecimento do PCC. Com uma população de cerca de 1,8 milhão de habitantes, a região combina urbanização desordenada, presença de áreas de mangue de difícil acesso e proximidade com o Porto de Santos, o maior da América Latina, que serve como principal rota de exportação de drogas para o exterior.

Os números da violência na região

Os dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo reforçam o estado de alerta na Baixada Santista. No primeiro trimestre de 2026, 28 pessoas foram mortas em decorrência de intervenções policiais nas nove cidades que compõem a região. Esse número já representa 57% do total de mortes registradas em todo o ano de 2025, que contabilizou 49 casos.

Ano Mortes por intervenção policial Mortes de policiais
2023 84 4
2024 132 4
2025 49 4
1º trimestre de 2026 28 n/d

Desde 2013, 920 pessoas foram mortas em ações policiais na região, sendo 896 pela Polícia Militar. Durante o mesmo período, 44 policiais também perderam suas vidas, evidenciando o perigo constante enfrentado pelos agentes na região.

Operações policiais e suas consequências

Entre 2023 e 2024, a violência na Baixada Santista atingiu níveis alarmantes. A execução do soldado da ROTA Patrick Bastos Reis, em julho de 2023, desencadeou represálias da Polícia Militar com as operações Escudo e Verão. Ambas resultaram em 84 mortes em comunidades da região, sob suspeitas de excessos e execuções extrajudiciais. Em 2024, o número de mortes pela polícia atingiu um recorde, com 132 casos.

Essas ações, embora visem conter a violência, muitas vezes causam efeitos colaterais. A interrupção de serviços públicos, como transporte e educação, e as denúncias de abusos geram descontentamento social e pressão política sobre as autoridades, dificultando soluções de longo prazo.

O papel do Porto de Santos no cenário de violência

O Porto de Santos é um dos principais fatores que tornam a Baixada Santista estratégica para o PCC. Segundo autoridades, a facção utiliza comunidades próximas ao porto como bases para exportação de drogas. Em alguns casos, os criminosos utilizam pequenas embarcações para transportar drogas e fixá-las ao casco de navios que seguem para o exterior.

Ainda que as apreensões de drogas pela Polícia Federal no Porto de Santos tenham caído de 29,3 toneladas em 2020 para 4,8 toneladas em 2025, especialistas apontam que a redução não necessariamente significa um declínio no tráfico, mas sim uma mudança nas táticas da organização criminosa.

A resposta do governo e os desafios persistentes

A gestão do governador Tarcísio de Freitas tem enfrentado críticas pela dificuldade em conter o avanço do PCC na região. Além disso, a falta de integração entre as esferas do poder público é apontada como um dos principais entraves para uma abordagem eficaz. A aquisição de um "caveirão" aquático pela PM da Baixada, ao custo de R$ 1,5 milhão, é uma das tentativas de melhorar a capacidade de enfrentamento nas áreas mais isoladas.

Especialistas apontam soluções

Para Alessandro Visacro, analista de segurança, os confrontos armados entre polícia e PCC refletem a luta pelo controle territorial. Ele destaca que ações policiais isoladas, como a ocupação temporária de comunidades, não são suficientes para resolver o problema. "É necessária uma estratégia que combine segurança com políticas públicas, como educação, saúde e infraestrutura, para resgatar essas áreas do domínio do crime", explica.

A Visão do Especialista

A situação na Baixada Santista é um retrato emblemático dos desafios enfrentados pelo Brasil no combate ao crime organizado. Os dados alarmantes sobre violência policial e territorialidade do PCC revelam a necessidade de repensar as estratégias de segurança pública e ampliar a atuação do Estado em áreas vulneráveis.

O combate ao crime organizado na região exige não apenas repressão, mas também investimentos em políticas públicas que promovam a inclusão social e enfraqueçam a base de recrutamento do PCC. Sem essas medidas complementares, a violência pode continuar a perpetuar um ciclo vicioso que afeta tanto os moradores quanto as forças de segurança.

A Baixada Santista está em uma encruzilhada histórica, e as decisões tomadas agora podem moldar o futuro da região por décadas. É essencial que o poder público atue de maneira integrada e estratégica para reverter o domínio do crime organizado e garantir um futuro mais seguro para seus habitantes.

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