BRASÍLIA – Indícios de um esquema de 'rachadinha' no gabinete do deputado federal Mário Frias (PL-SP) vieram à tona após denúncias feitas pela ex-assessora Gardênia Morais. Comprovantes de transferências bancárias, pagamentos de boletos e saques em dinheiro revelam que parte do salário de Gardênia teria sido destinada para cobrir despesas pessoais do parlamentar e de seus familiares. As denúncias foram divulgadas inicialmente pelo portal G1 e já geram repercussão em Brasília.
O que é 'rachadinha' e por que é ilegal?
O esquema conhecido como 'rachadinha' consiste no desvio de parte do salário de servidores públicos, que devolvem uma parcela de seus vencimentos aos seus superiores ou terceiros. A prática é considerada ilegal porque configura peculato, ou seja, apropriação indevida de recursos públicos. Nos últimos anos, diversos casos semelhantes envolvendo políticos brasileiros foram amplamente divulgados, incluindo investigações relacionadas ao senador Flávio Bolsonaro.
Denúncias contra Mário Frias: o que dizem os documentos?
Segundo os documentos apresentados, Gardênia Morais, ex-funcionária do gabinete de Mário Frias entre fevereiro de 2023 e maio de 2024, teria repassado parte de seu salário ao chefe de gabinete Raphael Azevedo e a familiares do deputado. De acordo com ela, os valores devolvidos variavam conforme o aumento gradual de sua remuneração na Câmara dos Deputados.
A ex-servidora afirmou que, ao final de sua gestão, recebia aproximadamente R$ 20 mil mensais, mas ficava com apenas R$ 6 mil a R$ 7 mil após repassar o restante aos envolvidos no esquema. Entre as movimentações financeiras divulgadas, consta o pagamento de um boleto no valor de R$ 4.832,32 referente à fatura de cartão de crédito de Juliana Frias, esposa do deputado, em dezembro de 2023.
O papel de Raphael Azevedo e os empréstimos consignados
Gardênia também revelou que realizou transferências no valor total de R$ 35 mil via Pix para Raphael Azevedo, que ocupava o cargo de chefe de gabinete de Mário Frias. Além disso, ela contraiu cinco empréstimos consignados que somaram R$ 174.886, dos quais, segundo Gardênia, apenas R$ 35 mil foram utilizados em benefício próprio. Ela afirma que o restante foi repassado ao gabinete, supostamente para financiar despesas de campanha eleitoral.
Um dos casos mais emblemáticos descritos nos documentos envolve o saque de R$ 49.999, realizado por Gardênia no mesmo dia em que transferiu o valor de uma conta salário no Banco do Brasil para outra conta pessoal no Itaú. O destino final desse montante, no entanto, não foi detalhado pela denunciante.
Conexões financeiras e a família Frias
Além dos repasses a Raphael Azevedo, os documentos mostram transferências de R$ 1.000, via Pix, para Maria Lucia Frias, mãe de Mário Frias, em janeiro de 2024. Gardênia também relatou que outros servidores do gabinete eram obrigados a devolver parte de seus salários, corroborando a prática sistemática de 'rachadinha'.
Essas transações levantam questionamentos sobre a extensão do esquema e sobre o grau de envolvimento do próprio deputado e de sua família. Até o momento, Mário Frias não se pronunciou oficialmente sobre as denúncias.
Repercussão política e conexões com outros casos
As denúncias contra Mário Frias relembram outros escândalos de 'rachadinha' que marcaram a política brasileira nos últimos anos. O caso mais notório envolve o senador Flávio Bolsonaro, investigado por supostos desvios de salários de assessores durante sua atuação como deputado estadual no Rio de Janeiro.
Mário Frias, que ganhou notoriedade como Secretário Especial de Cultura do governo Bolsonaro, também já foi acusado de manter relações próximas com empresários investigados por corrupção. Mensagens reveladas pelo portal Intercept Brasil mostram trocas de elogios entre Frias e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, envolvendo o financiamento do filme "Dark Horse" sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Como funciona a fiscalização na Câmara dos Deputados?
A prática da 'rachadinha' é proibida pela legislação brasileira, mas a fiscalização de gabinetes parlamentares apresenta brechas que dificultam a identificação e punição de esquemas como o denunciado. A controladoria da Câmara realiza auditorias, mas a fiscalização depende, muitas vezes, de denúncias de servidores ou de investigações externas conduzidas por órgãos como o Ministério Público.
Especialistas destacam que o sigilo bancário e a complexidade das transações financeiras dificultam a identificação de movimentações suspeitas. Além disso, a imunidade parlamentar pode ser um obstáculo para responsabilizar políticos envolvidos nesse tipo de prática.
A resposta da sociedade e os desdobramentos esperados
A repercussão do caso já começou a mobilizar a opinião pública nas redes sociais. Organizações da sociedade civil têm pressionado por uma investigação rigorosa, enquanto opositores políticos de Frias pedem que ele se afaste do cargo durante o andamento das apurações.
O Ministério Público Federal (MPF) deve avaliar os documentos apresentados e decidir se há elementos suficientes para abrir uma investigação formal. Caso as denúncias sejam comprovadas, Mário Frias poderá enfrentar processos por improbidade administrativa e peculato.
A Visão do Especialista
O caso de Mário Frias ilustra novamente as fragilidades do sistema de controle sobre os gastos públicos no Brasil. A prática de 'rachadinha' não apenas desvia recursos dos cofres públicos, mas também compromete a credibilidade das instituições democráticas. Para o cientista político João Batista, "a recorrência desses casos aponta para uma necessidade urgente de modernização nos mecanismos de controle e transparência, além de uma reforma na legislação que endureça as penas para crimes contra a administração pública".
Com as eleições de 2026 se aproximando, investigações sobre corrupção podem ter um impacto significativo no cenário político. A depender dos desdobramentos, o caso de Mário Frias poderá influenciar tanto sua carreira quanto a percepção pública sobre práticas ilícitas no Congresso Nacional.
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