O Brasil alcançou um marco histórico ao atingir 72% de escolas públicas com conectividade considerada adequada, segundo dados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC). O avanço é significativo, especialmente quando comparado aos 43% registrados em 2023, mas ainda existem desafios a serem superados para garantir que todas as escolas do país tenham acesso pleno à internet.

O panorama da conectividade nas escolas brasileiras

O indicador do MEC, lançado em 2023, classifica as escolas em cinco níveis de conectividade, considerando fatores como velocidade da internet e qualidade do Wi-Fi. Atualmente, 99 mil escolas estão nos níveis 4 e 5, considerados adequados para uso pedagógico, enquanto outras 39 mil ainda enfrentam problemas de conectividade. Dentro deste grupo, cerca de 7.300 unidades (5%) não possuem conexão adequada nem rede Wi-Fi.

Desafios regionais: Norte e Sudeste em foco

Embora o avanço nacional seja expressivo, as disparidades regionais permanecem evidentes. Estados da região Norte, como Amazonas, Acre, Roraima e Amapá, apresentam índices de adequação entre 58% e 30%, muito abaixo da média nacional. Em contraste, estados como Paraná (86%) e Piauí (84%) lideram o ranking de conectividade.

O estado de São Paulo, por exemplo, apresenta apenas 64% das escolas com conectividade adequada, ocupando a sexta pior posição no país. Apesar disso, a secretaria estadual de educação afirma que o Censo Escolar indica que 98,5% das escolas possuem algum tipo de acesso à internet.

Contexto histórico: de promessas a ações concretas

Garantir conectividade universal nas escolas públicas foi uma das promessas de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em 2023, o governo lançou a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec), com o objetivo de mapear e solucionar os gargalos na infraestrutura tecnológica das instituições de ensino.

A iniciativa foi impulsionada por recursos do leilão do 5G, do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST) e do orçamento do MEC. Até o momento, foram executados cerca de R$ 2,6 bilhões para viabilizar a infraestrutura necessária.

Os recursos ainda não utilizados

Uma das principais críticas à execução do projeto é a lentidão na aplicação de recursos provenientes de uma lei federal aprovada em 2021, que destinou R$ 3,5 bilhões para ações de conexão durante a pandemia. Apesar de o montante ter aumentado para R$ 4,1 bilhões com rendimentos, cerca de R$ 1,97 bilhão permanece parado nos cofres estaduais.

Estado Recursos Disponíveis (em milhões de R$)
Rio de Janeiro 271,5
Minas Gerais 262,8
Amazonas 159,5
Maranhão 141,3

Os estados justificam a demora na aplicação dos recursos, mencionando a necessidade de planejamento e de evitar sobreposição com outras iniciativas. Entretanto, especialistas alertam que, se o valor não for utilizado até o final de 2026, poderá retornar ao Tesouro Nacional.

Impacto no uso pedagógico

Apesar dos avanços na conectividade, menos da metade das escolas públicas (46%) possui computadores em quantidade suficiente para atender às necessidades dos alunos. Além disso, cerca de 33% das instituições não possuem dispositivos para os estudantes, limitando o uso pedagógico das ferramentas digitais.

A CEO da MegaEdu, Cristieni Castilhos, destaca que há oportunidades para acelerar o ritmo de execução, principalmente nas regiões mais defasadas, como o Norte. Segundo ela, o avanço na conectividade é notável, mas ainda há muito trabalho pela frente.

O papel da tecnologia na educação

Para Nelson Pretto, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o acesso à internet nas escolas é imprescindível em um contexto marcado pela ascensão da inteligência artificial (IA) e debates sobre o uso de celulares em sala de aula. Ele defende que a conectividade deve ser acompanhada de governança de dados e soluções livres, promovendo o protagonismo de professores e alunos na criação de conteúdo.

"A internet precisa ser construída por todos, e não apenas consumida. A escola deve ser um espaço de produção de conhecimento e de debate amplo sobre o uso das tecnologias", enfatiza Pretto.

A Visão do Especialista

O avanço na conectividade das escolas públicas é um reflexo de esforços governamentais e parcerias estratégicas. No entanto, o caminho para a universalização ainda enfrenta desafios significativos, como a disparidade regional e o uso eficaz dos recursos disponíveis.

Especialistas apontam que a conectividade deve ser acompanhada por investimentos em infraestrutura tecnológica e capacitação de professores para que as ferramentas digitais sejam utilizadas de forma pedagógica e estratégica. Além disso, é fundamental um monitoramento contínuo para garantir que os recursos sejam aplicados com eficiência.

Embora o Brasil tenha dado passos importantes, a universalização da conectividade nas escolas públicas só será alcançada com um esforço conjunto entre estados, municípios e a sociedade civil. Este é um momento crítico para transformar a educação e preparar as próximas gerações para os desafios do futuro.

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