O Brasil alcançou, em 2025, um marco alarmante: 1.571 vítimas de feminicídio, o maior número já registrado no país, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Esse dado representa um aumento de 4% em relação ao ano anterior, consolidando uma tendência preocupante de violência dentro dos lares. Em um cenário onde 62% das vítimas foram assassinadas em suas próprias residências, especialistas apontam para raízes profundas no machismo estrutural e na desigualdade social e racial.
O que é o feminicídio e por que ele continua crescendo?
O feminicídio é definido juridicamente como o assassinato de mulheres em razão de sua condição de gênero, frequentemente relacionado à violência doméstica ou ao menosprezo pelas questões de gênero. No Brasil, essa tipificação penal foi incorporada ao Código Penal em 2015, na tentativa de evidenciar e combater a violência direcionada às mulheres.
No entanto, os números mostram que o problema está longe de ser resolvido. Enquanto outros tipos de mortes violentas, como homicídios dolosos e latrocínios, registraram uma queda de 8% entre 2024 e 2025, os feminicídios seguem em alta, refletindo que a violência dentro de casa se intensifica. Segundo David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, há uma inversão preocupante: "Se a violência pública diminui, a violência doméstica cresce, especialmente contra mulheres e crianças".
Quem são as principais vítimas?
O anuário aponta que 65% das vítimas de feminicídio no Brasil em 2025 eram mulheres negras. Além disso, 56% tinham entre 25 e 44 anos, e 96% dos agressores eram homens, frequentemente parceiros ou ex-parceiros das vítimas. Esses números revelam um padrão de violência que atinge desproporcionalmente grupos já vulneráveis na sociedade brasileira.
O racismo estrutural também desempenha um papel crucial nesse cenário. Como destaca Marques, "pessoas negras enfrentam vulnerabilidades acumuladas ligadas à desigualdade estrutural, que se manifesta na segurança pública, educação, saúde, moradia e trabalho". Essa desigualdade cria um ambiente propício para a perpetuação de ciclos de violência, especialmente dentro das residências.
Contexto histórico e a evolução dos dados
A introdução do termo "feminicídio" no Código Penal foi um marco em 2015, mas a trajetória da violência doméstica no Brasil é longa e complexa. Desde a promulgação da Lei Maria da Penha, em 2006, avanços importantes foram conquistados, como a criação de delegacias especializadas e medidas protetivas de urgência. No entanto, os mecanismos de proteção ainda não são suficientes para conter o aumento dos casos.
Em uma perspectiva histórica, a violência contra a mulher reflete desigualdades de gênero enraizadas na sociedade brasileira. O crescimento dos feminicídios nos últimos anos aponta para a necessidade de medidas mais eficazes e integradas, que vão além do aparato policial e penal.
Impactos sociais e econômicos da violência doméstica
Os efeitos da violência doméstica vão muito além do impacto individual. Estima-se que os custos associados à violência de gênero, incluindo saúde, assistência social e perda de produtividade, representem bilhões de reais anualmente no Brasil. Além disso, as sequelas psicológicas em crianças que vivem em lares violentos perpetuam ciclos intergeracionais de trauma e pobreza.
A violência doméstica também afeta diretamente a economia das famílias brasileiras, afastando mulheres do mercado de trabalho e reduzindo sua autonomia financeira. Essa dependência econômica, por sua vez, pode dificultar ainda mais a saída de relacionamentos abusivos.
O papel do racismo estrutural
A violência contra mulheres negras, em particular, é um reflexo direto do racismo estrutural no Brasil. Segundo o anuário, pessoas negras são 3,5 vezes mais vítimas de letalidade policial do que pessoas brancas, e esse padrão se repete em outros indicadores, como feminicídios. A perpetuação dessas desigualdades está intrinsecamente ligada à exclusão social e econômica enfrentada por essa população.
Como destaca Marques, "o racismo estrutural permeia todas as esferas da formação social brasileira, desde a segurança pública até o acesso a direitos básicos, como saúde e educação". Esse ciclo de desigualdades cria um ambiente em que a violência é muitas vezes normalizada.
Os números e suas implicações
| Ano | Número de Feminicídios | Variação Anual |
|---|---|---|
| 2023 | 1.420 | - |
| 2024 | 1.511 | +6,4% |
| 2025 | 1.571 | +4% |
Os números revelam uma tendência de crescimento constante nos últimos anos, mesmo com esforços legislativos e ações de conscientização. O dado mais alarmante é que a maior parte dos casos ocorre em um espaço que deveria ser de proteção e segurança: o lar.
O que pode ser feito?
A solução para o aumento da violência doméstica e dos feminicídios no Brasil passa por um conjunto de medidas. Especialistas defendem a ampliação de políticas públicas integradas, como o fortalecimento de redes de apoio às vítimas e o investimento em educação para a igualdade de gênero.
Além disso, é urgente a criação de mecanismos que garantam maior acesso a serviços básicos para populações vulneráveis, como mulheres negras e de baixa renda. O combate ao racismo estrutural e à desigualdade de gênero precisa ser incorporado às estratégias de segurança pública.
A Visão do Especialista
O crescimento da violência dentro dos lares brasileiros é um reflexo de problemas estruturais que demandam respostas imediatas e abrangentes. Para David Marques, "não basta apenas registrar os dados; é preciso agir sobre eles".
O especialista aponta que o enfrentamento ao feminicídio requer um pacto nacional que una governos, organizações da sociedade civil e o setor privado em torno de um objetivo comum: a proteção das mulheres. "Precisamos de uma abordagem sistêmica, que vá além das delegacias e alcance as raízes do problema, como o racismo e a desigualdade de gênero", conclui.
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