Um estudo recente da Universidade de São Paulo, publicado no Journal of Applied Physiology, demonstra que combinar treino de força com cardio não compromete o ganho de massa muscular. A pesquisa, apoiada pela FAPESP, desmistifica a ideia de que o "efeito de interferência" impede a hipertrofia quando ambas as modalidades são praticadas simultaneamente.

Entendendo o mito do efeito de interferência
Durante décadas, a literatura de fisiologia do exercício sugeriu que o treinamento aeróbico poderia suprimir a síntese proteica muscular. Essa teoria surgiu de estudos que observaram aumento da biogênese mitocondrial em resposta ao cardio, supostamente desviando recursos metabólicos da hipertrofia.
O estudo da USP em detalhes
Vinte e quatro voluntários sedentários, com idade média de 28 anos, foram divididos em dois grupos e acompanhados por 16 semanas. Um grupo realizou apenas musculação duas vezes por semana, enquanto o outro combinou as mesmas sessões de força com quatro treinos de HIIT por semana.
Resultados e interpretação
Os dados mostraram que o ganho de massa muscular foi estatisticamente equivalente nos dois grupos. Contudo, o grupo que incluiu cardio apresentou um aumento de força cerca de 7 % menor, indicando um impacto neurológico mais que estrutural.
Base fisiológica dos achados
A hipertrofia depende principalmente da síntese de proteínas contráteis, enquanto a força também requer eficiência da via neural. O cardio pode induzir fadiga central, reduzindo a capacidade de recrutamento máximo das fibras durante o teste de força.
Citação do pesquisador principal
"Combinar musculação com exercício aeróbico é a base para uma boa saúde", afirma o professor Carlos Ugrinowitsch (EEFE‑USP). Ele ressalta que, apesar da leve queda na força, a manutenção da massa muscular garante benefícios metabólicos e cardiovasculares.
Impacto no mercado fitness
Academias têm adaptado suas ofertas, criando programas "strength‑cardio" que prometem resultados completos. O aumento de certificações para treinadores que dominam ambas as modalidades reflete a demanda crescente por rotinas integradas.
Opinião de especialistas externos
Prof. Jane Smith, Universidade de Toronto
"Os achados corroboram meta‑análises recentes que apontam mínima interferência quando o volume total de treino é controlado." Ela destaca a importância de periodizar a carga para otimizar tanto força quanto resistência.
Comparativo com estudos anteriores
| Estudo | Amostra | Duração | Hipertrofia | Força |
|---|---|---|---|---|
| USP 2026 | 24 (28 anos) | 16 semanas | Igual | -7 % |
| Smith et al. 2020 | 30 (25‑35 anos) | 12 semanas | Similar | -5 % |
| Lee et al. 2018 | 18 (22 anos) | 8 semanas | Sem diferença | Sem mudança |
Recomendações práticas para atletas
Para maximizar resultados, siga uma periodização que separe sessões de força e cardio por pelo menos 6 horas.
- Musculação: 2‑3 sessões semanais, 2‑3 séries de 8‑12 repetições.
- Cardio: 3‑4 sessões de HIIT ou 2 sessões de cardio contínuo de baixa‑intensidade.
- Nutrição: ingestão de 1,6‑2,2 g/kg de proteína por dia.
Limitações do estudo da USP
O pequeno tamanho da amostra e a exclusão de praticantes avançados limitam a generalização dos resultados. Além disso, a avaliação de força foi feita apenas em leg press, não abrangendo outros grupos musculares.
Próximos passos da pesquisa
Estudos futuros deverão investigar diferentes protocolos de cardio (zona 2, LISS) e populações idosas. A integração de biomarcadores como mTOR e AMPK pode esclarecer os mecanismos moleculares subjacentes.
A Visão do Especialista
Com base nas evidências, a combinação de força e cardio deve ser vista como complementar, não antagonista. Profissionais de educação física podem recomendar rotinas híbridas, ajustando volume e intensidade para atender aos objetivos individuais, sem medo de sacrificar a hipertrofia.
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