O Edifício Copan, ícone da arquitetura modernista brasileira e um dos símbolos mais emblemáticos de São Paulo, finalmente ganhou sua história contada em um documentário próprio. Mas, para a decepção de muitos, a produção dirigida pela cineasta estreante Carine Wallauer, intitulada apenas "Copan", entrega menos do que promete. Visualmente deslumbrante, sim, porém com uma narrativa que falha ao explorar o vasto potencial do prédio mais famoso do Brasil.

O Copan como protagonista: uma oportunidade perdida

Projetado pelo lendário arquiteto Oscar Niemeyer nos anos 1950 e inaugurado em 1966, o Edifício Copan é mais do que uma obra arquitetônica; é um microcosmo da vida paulistana. Com seus 32 andares, 1.160 apartamentos e mais de 5 mil moradores, o prédio é um verdadeiro caldeirão cultural. No entanto, o documentário parece tratar o edifício mais como pano de fundo do que como personagem principal.

Apesar de ter convivido no Copan por sete anos, Wallauer opta por uma abordagem observacional e artística, priorizando a estética em detrimento de uma narrativa profunda ou de um mergulho mais significativo na essência do local. O resultado? Uma obra que deslumbra os olhos, mas pouco revela sobre as histórias e a alma do prédio e de seus habitantes.

Histórias que passam como sombras

O filme apresenta figuras e situações que poderiam ser exploradas de forma fascinante: uma stripper que trabalha via webcam, um DJ que encontra na música sua válvula de escape, uma cartomante oferecendo previsões e até mesmo um operário violinista. No entanto, a falta de aprofundamento nas histórias desses personagens é um dos pontos mais criticados pela audiência. Eles surgem e desaparecem rapidamente, sem que o público tenha tempo de se conectar com suas narrativas.

Momentos como a assembleia geral virtual dos moradores, onde o ex-síndico Affonso Celso Prazeres protagoniza uma acalorada discussão, trazem uma fagulha de tensão e autenticidade. Contudo, essas cenas são raras e insuficientes para sustentar a narrativa. Prazeres, que comandou o Copan por mais de 30 anos e faleceu em 2025, é uma figura tão emblemática que merecia, ele próprio, um documentário dedicado.

Faltou contexto histórico

Outro ponto que pesa contra "Copan" é a ausência de um olhar histórico. O prédio é um marco da arquitetura moderna, com uma trajetória que reflete a evolução da cidade de São Paulo, mas o filme ignora quase completamente as origens e o impacto do edifício. O nome de Oscar Niemeyer sequer é mencionado, e o contexto de sua concepção nos anos 50 é deixado de lado.

Para muitos espectadores, isso soa como um erro estratégico, já que a história do Copan é indissociável da história da própria metrópole. Afinal, como entender o edifício sem explorar o momento histórico que o concebeu?

Repercussão na web: críticas e elogios à estética

Nas redes sociais, o filme dividiu opiniões. Enquanto alguns elogiaram o trabalho visual, que inclui tomadas aéreas belíssimas do horizonte paulistano, outros não pouparam críticas à falta de profundidade. "O Copan merecia mais do que um filme bonito, mas vazio", comentou um usuário no Twitter. Já outro destacou: "A fotografia é incrível, mas senti falta de narrativa."

Sites especializados, como o AdoroCinema e o CinePOP, também reforçaram as críticas sobre a superficialidade do enredo, enquanto exaltaram o apuro técnico e a direção de fotografia de Wallauer, que é a sua especialidade.

Premiação e exibição no festival "É Tudo Verdade"

Apesar das ressalvas, "Copan" recebeu destaque em festivais como o "É Tudo Verdade", onde foi premiado por sua proposta visual. Essa conquista chamou atenção para a obra e garantiu sua exibição nos cinemas, mas também elevou as expectativas do público, que esperava um mergulho mais profundo no universo do edifício.

Como o Copan reflete a polarização do Brasil

O documentário tenta, ainda que de forma superficial, abordar a polarização política que marcou o Brasil nas eleições de 2022. Em uma das cenas, uma moradora chora ao assistir à vitória de Lula, enquanto outros comemoram no icônico Copanzinho Bar. Essa tentativa de contextualizar o impacto político dentro do microcosmo do Copan é interessante, mas acaba soando rasa e desconectada do restante da narrativa.

Por que o Copan continua fascinando?

Mesmo com as críticas ao documentário, o Edifício Copan continua a ser uma das maiores joias culturais e arquitetônicas de São Paulo. Sua forma ondulada, inspirada em linhas modernistas, e sua capacidade de abrigar uma comunidade tão diversa o transformam em um símbolo vivo da complexidade e riqueza cultural da cidade.

Além disso, o prédio é palco de histórias de vida, de superação e de convivência que, quando bem contadas, têm o poder de emocionar e inspirar. "Copan" teve a chance de ser essa obra definitiva, mas acabou sendo um retrato pálido do que poderia ter sido um verdadeiro épico do cotidiano paulistano.

A Visão do Especialista

Cineastas que se aventuram por temas tão ricos e densos quanto o Edifício Copan têm o desafio de equilibrar forma e conteúdo. No caso de Carine Wallauer, sua experiência como diretora de fotografia brilhou na estética, mas ficou evidente a carência de uma narrativa que realmente abraçasse o potencial humano e histórico do prédio. Com tantas histórias pulsando dentro de suas paredes onduladas, o Copan merecia mais.

Se há uma lição a ser aprendida aqui, é que não basta contemplar; é preciso mergulhar. O Copan, com sua grandiosidade arquitetônica e social, continua esperando por uma visão que o explore em toda a sua magnitude. E, enquanto isso não acontece, o edifício segue firme, testemunhando o vai e vem da vida paulistana.

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