Em uma movimentação jurídica que pode ter desdobramentos amplos no cenário político brasileiro, a defesa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma resposta à ação movida pela Federação Brasil da Esperança (PT, PV e PCdoB). A ação questiona o uso de um vídeo gerado por inteligência artificial (IA) na Convenção Nacional do Partido Liberal (PL), que recriou a imagem e a voz do ex-presidente Jair Bolsonaro, alegando que o conteúdo configuraria propaganda eleitoral antecipada e uso de deepfake.

O contexto do vídeo: tecnologia e mensagem

O vídeo em questão foi exibido em 25 de julho de 2026, durante um evento interno do PL. Nele, um avatar digital de Jair Bolsonaro, gerado por IA, pede aos participantes que apoiem "de braços abertos" o nome de Flávio Bolsonaro como seu sucessor político, afirmando que "o futuro é Flávio Bolsonaro". A peça gerou reações imediatas, com a Federação Brasil da Esperança argumentando que o material visava transferir capital político do ex-presidente para seu filho, configurando propaganda eleitoral antecipada.

A defesa de Flávio Bolsonaro nega essa interpretação. Segundo os advogados, o vídeo foi exibido exclusivamente em uma convenção partidária, um evento de caráter intrapartidário e fechado ao público geral. Eles sustentam que tais manifestações são permitidas pela legislação eleitoral, desde que não contenham pedido explícito de voto ou referência direta às eleições.

O conceito de propaganda eleitoral antecipada

De acordo com a legislação eleitoral brasileira, o período oficial de campanha inicia-se em 16 de agosto do ano eleitoral. Antes disso, qualquer manifestação que configure pedido explícito de votos pode ser considerada irregular. Segundo os advogados de Flávio Bolsonaro, o vídeo exibido não apresenta elementos como menção ao cargo em disputa, data ou ano do pleito, tampouco solicita votos diretamente, o que, segundo eles, isentaria a peça de qualquer irregularidade.

Além disso, a defesa argumenta que o vídeo se enquadra na categoria de propaganda intrapartidária, que tem como objetivo exclusivamente a mobilização interna de filiados e convidados de um partido e não é dirigida ao público geral.

Deepfake ou recurso legítimo?

A ação movida pela Federação Brasil da Esperança também questiona o uso de IA para recriar a imagem e a voz de Jair Bolsonaro, classificando o material como deepfake. No entanto, a defesa refuta essa acusação, destacando que o vídeo continha um aviso claro no início, informando que se tratava de uma simulação gerada por inteligência artificial.

Os advogados argumentam que a transparência sobre o uso da tecnologia impede qualquer possibilidade de engano ou indução do público ao erro, o que seria um elemento essencial para caracterização de um deepfake. Para reforçar sua tese, a defesa comparou o uso do avatar a ferramentas tradicionais em campanhas políticas, como máscaras e caricaturas, citando como exemplo o uso de máscaras de Lula na campanha de Fernando Haddad em 2018.

Críticas e precedentes

A controvérsia em torno do vídeo também reacendeu o debate sobre o uso de tecnologias emergentes, como inteligência artificial, em campanhas políticas. Embora o TSE ainda não tenha regulamentação específica sobre a aplicação de IA em material eleitoral, especialistas alertam para os riscos potenciais de desinformação, mesmo em casos onde há transparência sobre o uso da tecnologia.

Não é a primeira vez que materiais de campanha são alvo de questionamentos jurídicos. Em 2018, o Tribunal Eleitoral analisou o uso de estratégias visuais, como as mencionadas máscaras de Lula por apoiadores de Haddad. Contudo, o uso de IA para recriação de imagens e vozes adiciona uma camada de complexidade que ainda está sendo avaliada pelos tribunais.

O papel do TSE e os próximos passos

O caso está agora nas mãos do ministro relator Kassio Nunes Marques, que deve decidir sobre o pedido de liminar da Federação Brasil da Esperança. A defesa de Flávio Bolsonaro já informou que apresentará uma defesa de mérito posteriormente, caso o pedido seja aceito. Enquanto isso, o vídeo segue disponível no canal oficial do PL no YouTube.

Especialistas em direito eleitoral destacam que a decisão do TSE pode estabelecer um precedente importante para o uso de tecnologias como IA em campanhas futuras. Uma possível regulamentação específica sobre o tema pode surgir como desdobramento do caso, à medida que a Justiça Eleitoral se posiciona sobre os limites e possibilidades do uso de inovação tecnológica na política.

A legalidade do uso da imagem de Bolsonaro

Outro ponto levantado pela defesa é a legalidade do uso da imagem de Jair Bolsonaro, cuja filiação ao PL encontra-se suspensa devido à condenação criminal que resultou na suspensão de seus direitos políticos. A defesa sustenta que a suspensão não impede o partido de utilizar sua imagem em eventos partidários internos, especialmente considerando sua relevância histórica dentro da legenda.

A Visão do Especialista

O caso envolvendo o vídeo do avatar de Jair Bolsonaro ilustra os desafios crescentes enfrentados pela Justiça Eleitoral na era digital. A questão não se resume apenas à legislação vigente, mas também à interpretação de novas tecnologias e seu impacto no processo democrático. A decisão do TSE, seja ela favorável ou contrária ao pedido de liminar, poderá abrir precedentes importantes para as eleições de 2026 e além.

O uso de inteligência artificial em campanhas políticas é um fenômeno global que exige atenção redobrada. Se, por um lado, a transparência no uso da tecnologia pode mitigar riscos de desinformação, por outro, a falta de regulamentação específica pode criar lacunas jurídicas que impactam a legitimidade do processo eleitoral.

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