O sistema de transporte público BRT (Bus Rapid Transit) do Rio de Janeiro passou por uma trajetória de extremos na última década. De promessa de modernização para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, o sistema enfrentou abandono, depredação e colapso operacional. No entanto, um massivo plano de recuperação, iniciado em 2021, transformou o BRT em um modelo de sucesso, com recorde de passageiros e uma drástica redução na evasão tarifária.

Imagem de uma linha de ônibus do BRT em movimento, com pessoas a bordo, passando por uma área urbanizada.
Fonte: jc.uol.com.br | Reprodução

A ascensão e queda de um sistema promissor

Inaugurado com grande alarde em 2014, o BRT do Rio de Janeiro foi projetado para ser um marco de mobilidade urbana no Brasil, conectando regiões estratégicas da cidade e reduzindo os tempos de deslocamento. Os três corredores – Transoeste, Transcarioca e Transolímpica – foram projetados para atender à crescente demanda de transporte em uma das cidades mais populosas do país.

No entanto, o sistema começou a apresentar graves falhas estruturais e operacionais poucos anos após sua inauguração. Estações foram depredadas, a frota de ônibus articulados foi reduzida drasticamente devido à falta de manutenção, e a superlotação tornou-se a norma. Em 2021, apenas 120 ônibus estavam em operação, uma queda significativa em relação aos 400 veículos inicialmente previstos.

Imagem de uma linha de ônibus do BRT em movimento, com pessoas a bordo, passando por uma área urbanizada.
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O impacto da má gestão e da pandemia

A degradação do BRT foi acelerada por uma série de fatores, incluindo má gestão, falta de fiscalização e os efeitos devastadores da pandemia de COVID-19, que reduziu drasticamente a arrecadação tarifária. Em 2021, cerca de 46 estações estavam fechadas, e os relatos de vandalismo e insegurança se acumulavam. O sistema, que deveria ser um exemplo de mobilidade eficiente, tornou-se sinônimo de caos e abandono.

A intervenção da prefeitura e o início da recuperação

O ponto de inflexão ocorreu em março de 2021, quando a Prefeitura do Rio de Janeiro decidiu intervir diretamente no sistema. Foi criada a empresa pública Mobi-Rio, que assumiu o controle operacional do BRT. A partir daí, iniciou-se um plano robusto de recuperação, com investimentos inéditos de R$ 6 bilhões, dos quais R$ 1,1 bilhão foi destinado à reforma de 140 estações e construção de novos terminais intermodais.

Modernização da frota e infraestrutura

Um dos pilares da transformação foi a renovação completa da frota. Um investimento de R$ 1,8 bilhão resultou na aquisição de 731 novos veículos, elevando a frota ativa para 853 ônibus em 2025, um avanço significativo em comparação aos 120 veículos disponíveis em 2021. Além disso, os terminais foram modernizados, com foco em acessibilidade, segurança e conforto para os passageiros.

O programa BRT Seguro e a queda na evasão

Para combater os elevados índices de vandalismo e evasão tarifária, que geravam prejuízos diários de R$ 300 mil em 2021, foi implementado o programa BRT Seguro. A iniciativa incluiu a presença constante de agentes da Polícia Militar e da Guarda Municipal nas estações e nos ônibus, além de um sistema de monitoramento por câmeras e alarmes sonoros em tempo real para coibir ações irregulares.

Essas medidas, somadas à substituição de portas de blindex por chapas de aço reforçadas e à instalação de barreiras físicas para evitar invasões, reduziram o índice de calotes de 40% para apenas 9% em 2025. Mais de 2.000 prisões relacionadas ao vandalismo e à evasão foram realizadas em dois anos.

Resultados e impacto na mobilidade

Os resultados do esforço conjunto já são visíveis. O BRT do Rio de Janeiro registrou um recorde histórico de 611 mil passageiros por dia em 2025, superando o pico de 500 mil passageiros durante as Olimpíadas de 2016. Estações reformadas, frota ampliada e um sistema mais seguro reconquistaram a confiança dos usuários.

Além disso, a recuperação do BRT Rio tem servido como referência para outras cidades brasileiras, incluindo a Região Metropolitana do Recife, que enfrenta desafios semelhantes em seu sistema de transporte público.

A participação política e a conscientização pública

Um fator crucial para o sucesso do plano de recuperação foi o envolvimento direto do prefeito Eduardo Paes. Ele não apenas supervisionou o projeto, mas também utilizou suas redes sociais para promover uma campanha de conscientização pública, expondo atos de vandalismo e destacando a importância do transporte público como um bem coletivo.

Essa abordagem resultou em maior engajamento da população, que passou a reconhecer o valor do sistema e a importância de preservá-lo.

A Visão do Especialista

O caso do BRT do Rio de Janeiro demonstra que, com planejamento, investimentos estratégicos e um compromisso político consistente, é possível reverter a degradação de sistemas de transporte público. A experiência carioca serve como um modelo a ser estudado e replicado em outras regiões do Brasil que enfrentam desafios semelhantes.

Para os especialistas, o próximo passo deve ser a ampliação da integração entre os modais de transporte e a adoção de tecnologias que tornem o sistema ainda mais eficiente e sustentável. Além disso, é crucial manter o foco na manutenção e na fiscalização contínua para evitar que o sistema volte ao estado de abandono.

O BRT do Rio de Janeiro é a prova de que o transporte público de qualidade é possível, desde que haja vontade política e engajamento da sociedade.

Imagem de uma linha de ônibus do BRT em movimento, com pessoas a bordo, passando por uma área urbanizada.
Fonte: jc.uol.com.br | Reprodução

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