Dois anos após as cheias de 2024, o Trecho 1 da Orla do Guaíba ainda está em obras, com atrasos que afetam moradores, trabalhadores e turistas. O segmento de 1,3 km entre a Usina do Gasômetro e a Rótula das Cuias permanece incompleto, evidenciando falhas na gestão de riscos e na execução de projetos de infraestrutura pública.

Contexto da enchente de 2024 e suas consequências

As inundações de 2024 devastaram a orla, submergindo bares e quiosques situados abaixo do nível da avenida Edvaldo Pereira Paiva. O volume de água ultrapassou a capacidade dos taludes, provocando danos estruturais que exigiram demolições e a necessidade de um plano de recuperação urbana.

Diagnóstico atual: banheiros, limpeza e acessibilidade

Os usuários relatam escassez de sanitários adequados e falta de manutenção nos poucos banheiros químicos instalados. De oito unidades, apenas duas recebem limpeza diária, enquanto a cabine fixa ao final do trecho está interditada, comprometendo a higiene básica.

A acessibilidade também está comprometida, com rampas limitadas apenas aos extremos da orla. Pessoas em cadeiras de rodas dependem de trajetos longos e íngremes, violando normas de mobilidade universal previstas na legislação municipal.

Planejamento da Smamus: etapas, custos e cronograma

A Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus) estruturou a obra em três fases, totalizando cerca de R$ 12 milhões. Até o momento, R$ 4,83 milhões foram desembolsados nas duas primeiras etapas.

EtapaInvestimento (R$)Objetivo
1 – Demolição e guarda municipal2,38 miRetirada de estruturas danificadas e implantação de posto de segurança
2 – Reconstrução de bares e sanitários2,45 miReerguer comércios e instalar banheiros fixos
3 – Proteção contra cheias– (captação)Reforço de taludes e sistemas de contenção

O cronograma original previa conclusão da etapa 2 no primeiro semestre de 2026, mas adesivos nas placas indicam novo prazo para dezembro de 2026. Essa postergação reflete atrasos administrativos e a complexidade da obra.

Obstáculos jurídicos e financeiros

Um impasse legal entre a prefeitura e a concessionária GAM3 Parks atrasou o início das obras. O contrato de 35 anos firmado em 2021 exigia seguros de recuperação que a empresa alegou indisponíveis no mercado, transferindo o ônus financeiro ao poder público.

  • Ausência de apólice de seguro específica para áreas litorâneas.
  • Necessidade de captação de recursos para a etapa 3.
  • Revisões contratuais que impactaram a liberação de verbas.

Impacto econômico e social na região

O fechamento dos bares e a falta de infraestrutura básica reduziram o fluxo de visitantes em cerca de 40 %. Comerciantes como Fabiane Rocha relatam queda nas vendas e perda de empregos temporários, afetando a economia local.

Além do prejuízo comercial, a qualidade de vida dos moradores deteriorou-se. Usuários como a educadora física Elaine Schorr e o programador Mateus Galeano apontam dificuldades diárias para atender necessidades fisiológicas, sobretudo para gestantes e idosos.

Perspectivas técnicas: proteção contra cheias e reforço de taludes

Especialistas em engenharia hidráulica recomendam a implantação de sistemas de drenagem urbana e muros de contenção reforçados. Estudos de modelagem de cheias indicam que taludes com inclinação reduzida e vegetação nativa podem absorver até 30 % a mais de volume de água.

A Visão do Especialista

Do ponto de vista da resiliência climática, a conclusão tardia da etapa 2 compromete a capacidade de resposta a novos eventos extremos. É urgente acelerar a captação de recursos para a fase 3, garantir a contratação de seguros adequados e implementar um plano de manutenção contínua dos sanitários. Só assim a Orla do Guaíba poderá retomar seu papel como polo de lazer e desenvolvimento econômico sustentável.

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