Em 23 de julho de 2024, a Sabesp (SBSP3), Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo, foi oficialmente privatizada. Dois anos após a desestatização, especialistas e representantes de trabalhadores avaliam os impactos econômicos, operacionais e sociais dessa mudança. Enquanto antigos gestores destacam avanços em investimentos e eficiência, sindicatos apontam para queda na qualidade dos serviços e impactos negativos sobre os trabalhadores.
Histórico da privatização da Sabesp
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A privatização da Sabesp foi formalizada em 2024, com a participação do Estado de São Paulo reduzida de 50,8% para 18,3%. A operação gerou receitas de R$ 14,8 bilhões para o governo paulista, enquanto o valor de mercado da companhia aumentou significativamente, de R$ 39 bilhões em 2023 para R$ 58,7 bilhões em 2024. Essa valorização, segundo o economista Gesner Oliveira, foi um dos primeiros sinais positivos da mudança de gestão.
Investimentos recordes e metas ambiciosas
Desde a privatização, a Sabesp registrou um crescimento substancial em seus investimentos. Em 2025, o volume investido alcançou R$ 15,2 bilhões, um aumento de 120% em relação a 2024. Para 2026, a projeção é de R$ 20 bilhões, com foco na expansão do sistema de esgotamento sanitário. O plano estratégico da empresa prevê um investimento total de R$ 70 bilhões até 2029 e R$ 200 bilhões até 2060, com o objetivo de universalizar o acesso ao saneamento no estado.
Impactos econômicos e sociais
Segundo Gesner Oliveira, os investimentos em saneamento têm um efeito multiplicador importante na economia. Ele estima que os aportes da Sabesp podem gerar um impacto de R$ 330 bilhões no PIB brasileiro até 2060, além de criar cerca de 4,6 milhões de empregos. Ele também destacou os benefícios indiretos, como redução de doenças, valorização imobiliária e menor pressão sobre o sistema de saúde pública.
Desempenho operacional: avanços e desafios
Os resultados obtidos pela Sabesp nos dois anos pós-privatização já demonstram avanços significativos. Entre 2024 e 2025, a expansão do acesso à água superou 152% da meta prevista, beneficiando 1,8 milhão de pessoas. A coleta de esgoto alcançou 133% da meta, enquanto o tratamento de esgoto atingiu 134%, beneficiando 3,7 milhões de pessoas.
No entanto, o presidente do Sintaema, José Faggian, critica a gestão privada, afirmando que houve piora na qualidade dos serviços e no atendimento à população. Ele também aponta que cerca de 50% dos trabalhadores concursados foram desligados, e que problemas estruturais e operacionais têm se agravado.
O debate sobre eficiência e governança
Um dos argumentos centrais em defesa da privatização é o aumento da eficiência operacional. Segundo Oliveira, a Sabesp conseguiu superar entraves típicos de empresas estatais, como as restrições de licitações públicas e as mudanças constantes na gestão provocadas por ciclos eleitorais. Ele também elogia o Fator-U, um mecanismo que vincula a distribuição de dividendos ao cumprimento de metas de universalização do saneamento, como um exemplo de boa governança.
Por outro lado, os críticos argumentam que a busca por lucros pode desviar o foco da missão principal da empresa: oferecer serviços de saneamento de qualidade e acessíveis à população. Segundo Faggian, a Sabesp estatal seria capaz de atingir as metas do Novo Marco Legal do Saneamento até 2033 sem a necessidade de privatização.
Impactos financeiros no bolso do consumidor
Outro ponto polêmico da privatização é o impacto nas tarifas de água e esgoto. Embora os dados sobre reajustes sejam limitados, consumidores relatam aumentos nas contas, gerando insatisfação. A questão tarifária é sensível, especialmente para as famílias de baixa renda, que dependem de políticas de subsídio para garantir o acesso ao saneamento.
Especialistas defendem que a transparência na formação de preços e a regulação rigorosa são essenciais para equilibrar os interesses de investidores e consumidores, garantindo que os ganhos de eficiência sejam repassados à população.
Críticas à precificação da oferta
A venda das ações da Sabesp por R$ 67, com um desconto de 18,3% em relação ao preço de mercado, também gerou controvérsias. Enquanto os coordenadores da operação justificaram o desconto como necessário para atrair investidores, opositores afirmam que o Estado vendeu um ativo estratégico a um preço abaixo do valor justo.
Projeções para o futuro
A Sabesp trabalha para antecipar a meta de universalização do saneamento de 2033 para 2029. No entanto, esse cronograma ambicioso depende de fatores como a continuidade dos investimentos, a eficiência operacional e a capacidade de gerenciar riscos, como crises hídricas.
Críticos alertam para a necessidade de monitorar de perto a qualidade dos serviços e as condições dos trabalhadores, enquanto defensores da privatização acreditam que os avanços até agora indicam um caminho promissor.
A Visão do Especialista
Analisando os dois anos da Sabesp privatizada, é possível observar tanto progressos quanto desafios. O aumento significativo nos investimentos e a valorização do ativo são sinais positivos, mas o impacto no custo para o consumidor e as críticas à qualidade do serviço precisam ser monitorados de perto.
Para os investidores, o setor de saneamento continua atrativo, com projeções de crescimento robusto e retorno consistente. No entanto, é vital que a regulação garanta o equilíbrio entre rentabilidade e acessibilidade, especialmente em um serviço essencial como o saneamento básico.
Se os planos de universalização forem bem-sucedidos e realizados dentro do prazo, a Sabesp poderá se consolidar como um case de sucesso em privatizações no Brasil. Ainda assim, o modelo privado precisa demonstrar que pode oferecer não apenas eficiência financeira, mas também impacto social positivo e sustentável.
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