O crime organizado no Rio de Janeiro está ampliando seu domínio sobre a economia local, afetando diretamente a vida da população e desfalcando a economia formal em cerca de R$ 21,4 bilhões por ano, segundo estudo da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). Facções criminosas, como o Comando Vermelho (CV) e milícias, têm imposto um monopólio sobre produtos essenciais, desde alimentos até materiais de construção, criando uma rede de extorsão que desorganiza o mercado e sufoca a concorrência legítima.

Imagem de produtos básicos bloqueados por milícias e tráfico no Rio de Janeiro.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

Como o crime se infiltrou na economia do dia a dia

A atuação do crime organizado na economia fluminense não é nova, mas tem assumido proporções preocupantes. Além do tráfico de drogas e da exploração de serviços clandestinos, como transportes e TV a cabo, os criminosos agora controlam a distribuição de produtos essenciais, como arroz, farinha, botijões de gás e materiais de construção. Esse controle é exercido por meio de ameaças e violência, forçando comerciantes e empresários a adquirirem produtos de fornecedores indicados pelas facções.

Um caso emblemático ocorreu em Duque de Caxias, onde um supermercado foi obrigado a parar de vender ovos após traficantes determinarem que o estabelecimento só poderia comprar o produto de um fornecedor controlado pelo grupo criminoso. O preço da cartela de 20 unidades subiu de R$ 8,99 para R$ 14, inviabilizando a venda.

Imagem de produtos básicos bloqueados por milícias e tráfico no Rio de Janeiro.
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Impactos econômicos e sociais

Essa prática criminosa gera uma espiral de efeitos negativos. De acordo com o especialista em segurança pública Samuel Rivero, "a ilegalidade desorganiza cadeias produtivas, amplia a concorrência desleal e reduz a competitividade". Além disso, os custos adicionais com segurança, logística e gestão de risco para empresas que tentam operar em regiões dominadas pelo crime somam cerca de R$ 9,7 bilhões anuais, o que corresponde a 0,7% do PIB do estado.

No âmbito social, moradores e comerciantes vivem sob constante ameaça. Em áreas controladas por milícias ou facções, a liberdade de escolha é praticamente inexistente, e o medo é uma constante. Em algumas comunidades, produtos como gás de cozinha chegam a custar até 84% a mais do que o preço de mercado, como é o caso da Rocinha, onde o botijão é vendido por R$ 170, comparado aos R$ 92,12 pagos pelo programa Gás do Povo.

Setores mais afetados pelo domínio criminoso

Alimentos e produtos de primeira necessidade

O controle de itens básicos como arroz, farinha, ovos e cigarro tornou-se uma das principais estratégias de financiamento do crime organizado. Em diversas regiões do Rio, comerciantes são obrigados a adquirir esses produtos de fornecedores controlados por facções ou milícias, muitas vezes por preços superiores aos do mercado.

Materiais de construção

Outro setor gravemente afetado é o de materiais de construção. Em cidades como Queimados e Nova Iguaçu, comerciantes relataram que são forçados a comprar tijolos e areia de fornecedores ligados a milicianos. Além disso, há indícios de que usinas de energia solar também estejam sendo extorquidas para contratar serviços de manutenção de empresas controladas por criminosos.

Serviços básicos

O fornecimento de gás e energia elétrica são alvos tradicionais do crime organizado. Na Rocinha e em outras comunidades, os preços de botijões de gás são inflacionados, enquanto o furto de energia elétrica custa à concessionária Light cerca de R$ 1,3 bilhão por ano. Para combater essa prática, a empresa implementou medidores blindados, mas a medida ainda não foi suficiente para conter as perdas.

Repercussão no mercado formal

A presença do crime organizado no mercado afasta investidores e ameaça a sustentabilidade de empresas que operam de forma legal. Segundo o economista Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), "essa dinâmica cria um ambiente hostil que desestimula investimentos e empurra muitos para a informalidade". Com isso, o desenvolvimento econômico de várias regiões do estado é drasticamente comprometido, gerando desemprego e aumentando a desigualdade social.

O papel do poder público e as dificuldades no combate

Apesar de operações policiais e investigações, o avanço territorial das facções e milícias continua. Segundo o promotor de Justiça Fábio Corrêa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp), o poder público enfrenta grandes desafios para conter o problema. "A ausência de políticas públicas efetivas e a falta de integração entre os órgãos de segurança e fiscalização dificultam o enfrentamento desse tipo de crime", afirma.

Além disso, a corrupção em níveis locais e estaduais contribui para a perpetuação do domínio criminoso. Sem uma estratégia ampla que inclua ações sociais, econômicas e policiais, especialistas acreditam que será difícil reverter esse quadro.

A Visão do Especialista

O cenário de domínio econômico pelo crime organizado no Rio de Janeiro é alarmante e exige uma resposta urgente e coordenada do poder público, empresas e sociedade civil. Daniel Cerqueira alerta que, no longo prazo, essa dinâmica pode "reduzir a capacidade de crescimento sustentável do estado, criando um círculo vicioso de pobreza e violência".

Para enfrentar esse problema, é necessário investir em políticas de desenvolvimento econômico, fortalecer as instituições de segurança e combater a corrupção. A recuperação da economia fluminense depende de ações concretas que garantam a segurança de empresários, comerciantes e moradores das áreas mais afetadas.

Imagem de produtos básicos bloqueados por milícias e tráfico no Rio de Janeiro.
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