Egana Djabbárova, escritora e poeta de origem azerbaijana, tem se destacado como uma das vozes mais importantes da literatura feminista contemporânea. Em entrevista recente ao "Pensar", ela abordou temas profundos como o ódio ancestral contra as mulheres, a violência doméstica e o papel do corpo feminino como espaço de luta e resistência.

Mulher persa discursa sobre a luta contra a sociedade patriarcal.
Fonte: www.em.com.br | Reprodução

O corpo feminino como espaço de opressão e resistência

Egana Djabbárova afirmou que o corpo das mulheres não é apenas individual, mas carrega uma herança coletiva, representando uma história de opressão e violência. Segundo ela, "ser mulher significa enfrentar agressões ao corpo, através do corpo e dirigidas ao corpo". Essa perspectiva molda sua literatura, que busca dar voz às experiências silenciadas de mulheres de diferentes gerações.

Uma tradição feminista centrada no corpo

A escritora insere sua obra na tradição feminista que utiliza o corpo como ponto de partida para explorar subjetividades. Nomes como Audre Lorde, Toni Morrison e Maya Angelou influenciam esse movimento. Djabbárova destaca que, ao escrever sobre o corpo, ela também relata as vivências de suas avós e de sua mãe, evidenciando como a violência contra as mulheres atravessa gerações.

A violência doméstica como tragédia do patriarcado

Djabbárova argumenta que muitas sociedades ainda legitimam a violência doméstica como parte de sua cultura, especialmente em países marcados por tradições patriarcais. O que deve ser questionado, segundo ela, é a forma como o patriarcado perpetua essas práticas, transformando a violência em um mecanismo de controle.

O papel da medicina no sexismo contra as mulheres

A escritora também critica o viés masculino na medicina, destacando como o corpo feminino foi historicamente tratado como uma aberração em relação ao masculino. Por exemplo, os sintomas de infarto nas mulheres são frequentemente subestimados ou mal compreendidos, devido à falta de estudos específicos.

Distonia e diáspora: as fronteiras do corpo

Egana Djabbárova convive com a distonia, uma doença neurológica progressiva. Ela descreve sua experiência como habitante de fronteiras, entre um corpo saudável e um corpo limitado. Para ela, essa condição reflete também as múltiplas diásporas que as mulheres enfrentam, sejam territoriais, familiares ou corporais.

O papel do corpo na emancipação feminina

A autora acredita que reivindicar o corpo é essencial para a libertação feminina. Em sua visão, o patriarcado historicamente buscou controlar o corpo da mulher, seja por meio de restrições ao aborto ou da imposição de papéis sociais. Ao recuperar o direito sobre seus corpos, as mulheres podem desafiar essas estruturas opressivas.

O impacto do regime de Vladimir Putin na literatura feminina

Egana Djabbárova critica a repressão estatal na Rússia, onde autoras que não se alinham ao regime são frequentemente rotuladas como "agentes estrangeiros". Isso dificulta a publicação e distribuição de suas obras, silenciando vozes importantes no debate sobre direitos das mulheres.

Representatividade das mulheres na literatura russa

Embora existam iniciativas independentes que promovem escritoras contemporâneas, como a publicação "Polka", Djabbárova ressalta que as mulheres ainda enfrentam barreiras significativas nos grandes prêmios literários, sendo frequentemente excluídas ou subrepresentadas.

Repercussão internacional e perspectivas no Brasil

Os livros de Egana Djabbárova têm sido traduzidos para diversos idiomas, recebendo interpretações variadas em diferentes países. No Brasil, a autora expressou seu apreço pela cultura local e destacou a importância de Clarice Lispector, cuja obra já foi traduzida para o russo.

O futuro da igualdade de gênero

Embora reconheça os desafios persistentes, Djabbárova acredita que a luta pelo pertencimento do corpo é um caminho para a emancipação feminina. Em regimes como o de Putin, onde o controle do corpo feminino é intensificado, essa reivindicação se torna ainda mais urgente.

Fatos Relacionados Detalhes
Data da Entrevista 24/05/2026
Países onde a obra foi traduzida Estados Unidos, Alemanha, Brasil
Doença mencionada Distonia

A visão do especialista

Egana Djabbárova traz uma análise sensível e profunda sobre as dificuldades enfrentadas pelas mulheres, destacando a importância de se recuperar o direito sobre seus corpos como forma de resistência ao patriarcado. A literatura feminista, ao dar voz a essas experiências, desempenha um papel crucial no avanço da igualdade de gênero. No entanto, desafios como a repressão estatal e o preconceito institucional ainda precisam ser enfrentados em diversas sociedades.

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