A escalada de feminicídios em Minas Gerais e Goiás trouxe novamente à tona a urgência do combate à violência de gênero no Brasil. Nos últimos dias, dois casos chocaram o país: a morte da capitã da Polícia Militar de Minas Gerais, Michele Leão Azevedo, e o assassinato da professora Valdirene Vaz Clemente, ambos investigados como feminicídios. Esses episódios refletem um aumento alarmante nos crimes contra mulheres, com o Brasil registrando, em 2025, o maior número de feminicídios da última década.

O que é feminicídio e por que ele persiste?
Feminicídio é o assassinato de uma mulher motivado pelo menosprezo à condição de gênero. Desde a criação da Lei n° 13.104/2015, o Brasil passou a tratar esses casos sob uma tipificação penal específica, buscando dar visibilidade a um crime que, muitas vezes, é resultado de ciclos de violência doméstica. Apesar disso, os números continuam a crescer, evidenciando que a legislação, embora necessária, não é suficiente para conter essa epidemia silenciosa.
Os casos recentes em MG e GO

Em Belo Horizonte, a capitã Michele Leão Azevedo foi encontrada com lesões que levantaram suspeitas de agressões incompatíveis com a versão inicial apresentada pelo companheiro, o sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira. O militar já tinha histórico de violência doméstica e descumprimento de medidas protetivas. O caso está sob investigação.
Já em Bom Jesus de Goiás, a professora Valdirene Vaz Clemente foi morta a tiros pelo ex-marido, que posteriormente tirou a própria vida. A vítima havia denunciado o agressor um mês antes e conseguido uma medida protetiva, que, infelizmente, não foi suficiente para evitar o crime.
Estatísticas alarmantes
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios no Brasil, um aumento de 4,7% em relação a 2024. Esse número é o maior desde a tipificação do crime em 2015. Em Minas Gerais, apenas entre janeiro e maio de 2026, 63 mulheres foram assassinadas por motivos de gênero, enquanto outras 85 sofreram tentativas de feminicídio.
| Ano | Feminicídios no Brasil | Variação (%) |
|---|---|---|
| 2024 | 1.497 | - |
| 2025 | 1.568 | +4,7% |
O ciclo da violência e seus sinais
Especialistas ressaltam que o feminicídio é, geralmente, o estágio final de um ciclo de violência que começa com agressões psicológicas, controle excessivo e ameaças. Identificar os primeiros sinais e agir preventivamente é crucial. Porém, a efetividade das medidas protetivas permanece um desafio. Entre janeiro e maio de 2026, mais de 70 mil mulheres em Minas Gerais buscaram ajuda para denunciar algum tipo de violência.
Por que as medidas protetivas falham?
Embora as medidas protetivas sejam instrumentos importantes, sua aplicação enfrenta limitações práticas. A falta de monitoramento adequado dos agressores e a insuficiência de abrigos para mulheres em situação de risco são fatores críticos. Além disso, a subnotificação e o medo de represálias dificultam que as vítimas denunciem seus agressores.
O papel da sociedade e do Estado
A violência de gênero é um problema estrutural que exige uma abordagem ampla. Educação, campanhas de conscientização e políticas públicas integradas são essenciais para mudar esse cenário. O fortalecimento das redes de proteção, incluindo delegacias especializadas e apoio psicológico às vítimas, também é indispensável.
Experiências internacionais
Países como a Espanha, que implementaram medidas rigorosas contra a violência de gênero, servem de exemplo. Lá, além de leis específicas, há monitoramento eletrônico de agressores e acompanhamento psicológico tanto para vítimas quanto para os autores dos crimes. Esses esforços resultaram em uma redução significativa nos casos de feminicídio.
A escalada em perspectiva histórica
O aumento dos feminicídios no Brasil deve ser analisado no contexto de um histórico de desigualdade de gênero e normalização da violência doméstica. Apesar de avanços legislativos, como a Lei Maria da Penha (2006) e a Lei do Feminicídio (2015), a sociedade brasileira ainda enfrenta desafios culturais e institucionais para combater essa violência de forma eficiente.
A Visão do Especialista
Os casos de Minas Gerais e Goiás são um reflexo de uma crise nacional que requer ação urgente. Para a socióloga Maria Clara Silva, especialista em violência de gênero, "não basta tipificar o feminicídio; é preciso garantir que as políticas públicas sejam eficazes e que os agressores saibam que serão punidos". Segundo ela, a educação de base é a chave para desconstruir a cultura machista que sustenta esses crimes.
Com o crescimento contínuo dos feminicídios, é imperativo que o Brasil invista em prevenção e proteção. A mudança exige esforço conjunto de governos, sociedade civil e indivíduos. É hora de transformar indignação em ação.

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