O Governo de Goiás iniciou, em maio de 2026, a revisão do plano de manejo da APA Pouso Alto para viabilizar a mineração na Chapada dos Veadeiros. A medida foi anunciada oficialmente pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e tem como objetivo ampliar a oferta de minerais críticos no estado.
Contexto histórico da região e da gestão estadual
A Chapada dos Veadeiros, reconhecida como Patrimônio Natural da Humanidade, está sob proteção federal desde 2001. Durante a gestão de Ronaldo Caiado (PSD), que se encerrou em março de 2026, foram aprovadas políticas voltadas ao desenvolvimento de minerais estratégicos, culminando na criação da Autoridade Estadual de Minerais Críticos.
Revisão do plano de manejo da APA Pouso Alto
A Semad declarou que a revisão visa substituir a restrição atual por um modelo de "compatibilização" entre mineração e conservação. O plano de manejo de 2016, que deve ser revisado a cada cinco anos, será avaliado em três fases de consulta pública, conforme documentos internos.
Volume de projetos minerários registrados
Até a data de 11/05/2026, a ANM contabiliza 496 processos de pesquisa e exploração dentro da APA. Esses processos cobrem 527 mil hectares, equivalente a 5.270 km², ou seja, mais que o triplo da área do município de São Paulo.
| Tipo de mineral | Processos | Hectares envolvidos |
|---|---|---|
| Terras raras | 31 | 85 mil |
| Cassiterita | – | – |
| Manganês | 98 | 99 mil |
| Níquel | – | – |
| Outros críticos | 2 | – |
Distribuição dos minerais críticos
Dos 496 processos, 131 são ligados a minerais críticos, representando 35 % da área total solicitada. Quando incluído o ouro, o número de processos sobe para 185, abrangendo mais de 205 mil hectares.
Municípios e comunidades potencialmente impactados
Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, o distrito de São Jorge e comunidades Kalunga estão entre as áreas que podem sofrer alterações. O parque nacional, que recebe cerca de 70 mil visitantes por ano, fica circundado por essas localidades.
Etapas da consulta pública
- Primeira fase: oficinas com moradores das cidades afetadas.
- Segunda fase: reunião de conselheiros para analisar as contribuições.
- Terceira fase: reunião devolutiva em cada município com apresentação dos resultados.
Posição da atual administração
O governador Daniel Vilela (MDB) afirmou que não há intenção de "flexibilizar" a mineração, mas de "discutir coletivamente" o tema. Em nota oficial, a Semad reforçou que a revisão segue o dever legal de atualizar o plano de manejo.
Reação de Ronaldo Caiado
Ronaldo Caiado foi contatado, mas sua assessoria direcionou os comentários à gestão atual. O ex-governador ainda não se pronunciou publicamente sobre a revisão em curso.
Análise de especialistas ambientais
Suely Araújo, do Observatório do Clima, classificou a proposta como "potencial crime ambiental" caso as alterações sejam efetivadas. Ela ressalta que a lei das Áreas de Proteção Ambiental exige a preservação da biodiversidade e a sustentabilidade dos recursos.
Implicações econômicas e fiscais
O governo estadual projeta arrecadação de royalties que poderia gerar receitas de até R$ 500 milhões nos próximos cinco anos. Parte desses recursos seria destinada a um fundo estadual para desenvolvimento de minerais críticos.
Contexto nacional e acordos internacionais
Em 2025, Goiás aprovou a lei da Autoridade Estadual de Minerais Críticos e, em março de 2026, assinou memorando com os EUA para compartilhamento de dados geológicos. O acordo prevê acesso exclusivo dos americanos ao mapeamento do estado.
Impacto no mercado de minerais estratégicos
A compra da empresa Serra Verde pela americana USA Rare Earth, por US$ 2,8 bilhões, destaca o interesse internacional pelos recursos goianos. Essa operação posiciona Goiás como um fornecedor potencial de terras raras para a cadeia de baterias e energia limpa.
A Visão do Especialista
Do ponto de vista regulatório, a alteração do plano de manejo pode ser juridicamente viável, porém enfrenta fortes barreiras ambientais e sociais. O sucesso da iniciativa dependerá da capacidade do governo de conciliar o diálogo com as comunidades, atender às exigências da legislação de proteção ambiental e demonstrar benefícios econômicos concretos. Caso as etapas de consulta sejam cumpridas de forma transparente, a proposta poderá avançar; caso contrário, o risco de litígios e de intervenção judicial aumenta significativamente.
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