Um levantamento conduzido pela ONG Mighty Earth revelou que cerca de 40% da carne comercializada pelo Grupo Mateus, a terceira maior rede varejista de alimentos do Brasil, é proveniente de frigoríficos avaliados como "muito ruins" ou "ruins" em critérios de sustentabilidade. Segundo a organização, isso significa que parte significativa dos produtos cárneos vendidos pela rede pode estar associada ao desmatamento ilegal e ao uso de trabalho análogo à escravidão em sua cadeia de suprimentos. A denúncia levanta questões importantes sobre as práticas do setor de carnes no Brasil e seus impactos sociais e ambientais.

O que diz o levantamento da Mighty Earth?

A análise, realizada entre 2021 e 2025, utilizou o aplicativo Do Pasto ao Prato, que cruza dados do Sistema de Inspeção Federal (SIF) com informações sobre passivos ambientais e históricos de trabalho escravo. Foram coletados dados de 430 produtos de carne em 38 lojas do Grupo Mateus localizadas em oito estados das regiões Norte e Nordeste. Os resultados apontaram para 107 frigoríficos fornecedores, sendo que 23% foram classificados como "muito ruins" e 17% como "ruins".

Os critérios de avaliação incluem fatores como a origem do gado em áreas de desmatamento e a presença de fornecedores envolvidos em trabalho análogo à escravidão. Além disso, frigoríficos sem fiscalização adequada ou sem compromissos claros de desmatamento zero também foram classificados negativamente.

O impacto ambiental e social por trás da produção de carne

O setor de carne bovina no Brasil é frequentemente associado a práticas que impactam gravemente o meio ambiente e a sociedade. O desmatamento da Amazônia, por exemplo, é impulsionado pela expansão da pecuária. Estima-se que 80% do desmatamento na Amazônia esteja relacionado à criação de pastagens para gado. Além disso, a prática do trabalho análogo à escravidão ainda persiste em algumas cadeias de produção, como evidenciado pelo levantamento.

Dados do Ministério do Trabalho indicam que, entre 1995 e 2023, mais de 55 mil trabalhadores foram resgatados de situações análogas à escravidão no Brasil. Muitos desses casos estão vinculados ao setor agropecuário, incluindo a cadeia produtiva da carne. Esses números sublinham a necessidade de maior fiscalização e transparência por parte das empresas.

O papel do Grupo Mateus no mercado de alimentos

Com faturamento de R$ 31 bilhões em 2025, o Grupo Mateus ocupa a terceira posição no ranking da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), atrás apenas de gigantes como Carrefour e Assaí. Apesar de sua relevância no mercado varejista, o levantamento da Mighty Earth destacou que o Grupo Mateus é o único entre os maiores do país que ainda não assumiu compromissos públicos de sustentabilidade, como a meta de desmatamento zero.

Além disso, a empresa não publica relatórios de sustentabilidade ou divulga critérios claros para a seleção de seus fornecedores de carne. Essa falta de transparência dificulta a rastreabilidade da cadeia produtiva e aumenta os riscos de conexão com práticas ilegais.

Frigoríficos e a conexão com o desmatamento e trabalho escravo

Entre os frigoríficos identificados pela ONG, vários são de grandes empresas como a JBS, incluindo sua planta em Araguaína (TO), classificada como "ruim" devido à compra indireta de gado proveniente de fazendas que constam na "lista suja" do trabalho escravo. A JBS, em resposta, afirmou que todas as compras mencionadas no relatório seguiram os critérios do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne e que adotou medidas corretivas assim que irregularidades foram identificadas.

Classificação dos frigoríficos no levantamento

Classificação Porcentagem
Muito ruim 23%
Ruim 17%
Poderia ser melhor 14%
Bom 25%
Muito bom 12%

Repercussões do caso e posicionamento do Grupo Mateus

O Grupo Mateus afirmou, em nota, que "não compactua com práticas ilegais em sua cadeia de fornecimento" e que tem fortalecido suas políticas de compliance, integridade e sustentabilidade. No entanto, a ausência de compromissos públicos para garantir o desmatamento zero e a falta de relatórios públicos de sustentabilidade levantam questionamentos sobre a real eficácia dessas ações.

A denúncia também gerou repercussão entre ambientalistas e consumidores, que cobram maior transparência da rede. A cadeia produtiva da carne no Brasil está sob crescente escrutínio internacional, e as grandes empresas do setor enfrentam pressão para adotar práticas mais sustentáveis.

O que pode ser feito para mudar esse cenário?

Especialistas apontam que uma das principais medidas para evitar práticas como o desmatamento e o trabalho análogo à escravidão é a implementação de sistemas robustos de rastreabilidade. Isso permitiria que empresas e consumidores soubessem exatamente de onde vem a carne consumida, reduzindo os riscos de irregularidades na cadeia de suprimentos.

Além disso, políticas públicas mais rígidas e maior fiscalização também são essenciais. O fortalecimento de iniciativas como o TAC da Carne e a ampliação da "lista suja" do trabalho escravo podem ajudar a combater práticas ilegais e a proteger o meio ambiente.

A Visão do Especialista

O levantamento da Mighty Earth serve como um alerta crucial sobre os desafios éticos e ambientais enfrentados pela cadeia produtiva da carne no Brasil. A relação entre desmatamento, trabalho escravo e produção de alimentos precisa ser enfrentada com seriedade, tanto por parte das empresas quanto das autoridades e consumidores.

Para o consumidor, a melhor forma de contribuir é exigir transparência e responsabilidade das empresas e optar por marcas que demonstrem compromissos claros com a sustentabilidade. Já para o setor, o caminho para a mudança passa pela adoção de políticas de rastreabilidade e auditorias independentes.

O futuro do mercado de alimentos depende de ações concretas e transparentes. Nesse contexto, o Grupo Mateus e outras grandes cadeias têm a oportunidade de liderar pelo exemplo e demonstrar que é possível conciliar sucesso comercial com responsabilidade ambiental e social.

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