Você sabia que é possível transformar a dor da morte em uma celebração lúdica e cheia de poesia? O espetáculo "Saudade", do grupo teatral Os Geraldos, faz exatamente isso, ao explorar as nuances da perda de forma que resgata memórias afetuosas e provoca reflexões profundas. Em cartaz no Sesc Santana, em São Paulo, a peça já passou por Minas Gerais, Distrito Federal e Rio de Janeiro, encantando plateias com sua abordagem única e sensível.

Inspirado por Viriato Correia e Rubem Alves

A origem de "Saudade" está no conto "Pinguinho", do escritor maranhense Viriato Correia, onde a morte é vivida pelas crianças como um momento de alegria e liberdade. O grupo também se inspirou na obra "Variações sobre o Prazer", de Rubem Alves, que orientou o tom reflexivo e filosófico da peça. Segundo Douglas Novais, diretor do espetáculo, a pulsão da vida e da morte, tão presentes nos escritos de Alves, foram fundamentais para a construção da narrativa.

O impacto da pandemia na criação

Durante um retiro artístico em plena pandemia, Os Geraldos começaram a conceber a peça. O isolamento e as incertezas do período foram catalisadores para que os artistas mergulhassem em reflexões sobre a mortalidade e a resiliência humana. Foi nesse contexto que a leitura de Viriato Correia e Rubem Alves convergiu para dar forma ao espetáculo.

Uma jornada pela Europa

Em 2024, o grupo realizou uma residência artística na Catalunha, que se expandiu para Itália, França e Inglaterra. Essa experiência internacional foi essencial para enriquecer a montagem. Em Londres, improvisaram um número musical em um piano do Victoria and Albert Museum. Na Itália, tiveram a curiosa experiência de uma espectadora arrecadar dinheiro espontaneamente para eles após uma apresentação improvisada.

Objetos e memórias coletados pelo caminho

Durante suas viagens, Os Geraldos reuniram diversos objetos que hoje fazem parte do espetáculo. Entre eles estão uma cobra de pelúcia comprada em um posto de gasolina no interior paulista e um guarda-chuva adquirido no Museu do Prado, em Madri. Esses itens ajudam a criar uma atmosfera única e repleta de simbolismo.

A magia das brincadeiras de infância

O espetáculo resgata elementos do universo infantil para criar uma conexão emocional com o público. Brinquedos nostálgicos como pogobol, vai-e-vem e cabra-cega ganham destaque na encenação, evocando memórias da infância. Além disso, o figurino é inspirado em fotos da infância dos próprios atores, reforçando o tom intimista da produção.

Um cenário que reflete a dualidade

O cenário, assinado por Douglas Novais, utiliza um chão de vidro na parte final da peça, simbolizando a fragilidade e a transparência das despedidas. Essa escolha estética reforça a ideia de que a morte, apesar dolorosa, também pode ser vista como parte natural da vida.

Música como elemento central

Com canções em português, espanhol, italiano, francês e latim, "Saudade" usa a música para criar uma experiência sensorial e multicultural. O maestro Everton Gennari, com sua atuação performática, é um dos destaques do espetáculo, trazendo referências visuais que remetem a Ney Matogrosso na fase dos Secos & Molhados.

Próximos passos: Itália e além

Em agosto de 2026, "Saudade" será exibido no festival PerformAzioni, na Itália, com apresentações em locais históricos como igrejas, pátios de castelos medievais e praças públicas. Essa expansão internacional demonstra o alcance e o impacto cultural do trabalho de Os Geraldos.

Os Geraldos: tradição e inovação

Fundado há 18 anos, o grupo Os Geraldos se destaca por suas pesquisas em arte popular e pela relação direta com o público. Sediados no Teatro de Arte e Ofício, em Campinas, eles definem sua essência como "amigos que fazem teatro". Essa união se reflete na qualidade e na autenticidade de suas produções.

A Visão do Especialista

"Saudade" é mais do que um espetáculo teatral; é uma experiência sensorial que mistura memória, emoção e reflexão. A abordagem lúdica da morte desafia as convenções sociais e nos convida a reavaliar nossa relação com o tema. Ao transformar o pesar em celebração, Os Geraldos mostram que a arte tem o poder de transmutar dor em beleza e humanidade. Com sua expansão internacional, o grupo se firma como um dos grandes expoentes do teatro brasileiro contemporâneo.

Compartilhe essa reportagem com seus amigos e ajude a espalhar este olhar inovador sobre o lúdico e a saudade!