Infraero contestou oficialmente o pagamento de um bônus de R$ 29 milhões a seis diretores da RioGaleão, alegando que a remuneração foi concedida justamente após a perda da concessão do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. O impasse surge na reta final da "venda assistida" que transferiu o controle da concessionária à espanhola Aena.
Contexto histórico da concessão do Galeão
Desde 2014, a administração do aeroporto é feita por uma parceria público‑privada entre a Infraero (49 %) e os grupos Vinci Compass e Changi Airports (51 %). A concessão, com prazo até 2039, passou por crises operacionais e renegociações de tarifas que culminaram em um novo modelo de governança.
Reestruturação e o teste de mercado
Em 5 de março de 2026, sócios da RioGaleão reuniram‑se para definir a estratégia de saída da estatal. Decidiu‑se, em acordo com o governo e o TCU, evitar nova licitação e realizar um "teste de mercado" para atrair investidores.
- 30 de março – abertura oficial da oferta a interessados.
- RioGaleão entrou na disputa para manter o contrato.
- 26 lances registrados, culminando na vitória da Aena.
Os lances que mudaram o controle
A oferta vencedora foi de R$ 2,9 bilhões da Aena, seguida de perto pela Zurich Airport com R$ 2,8 bilhões. A proposta da própria RioGaleão chegou a apenas R$ 1,88 bilhão, evidenciando a diferença de avaliação entre os concorrentes.
O bônus controverso de R$ 29 milhões
Seis executivos – Monteiro, Salvia, Franca, Dantas, Fehring e Rodrigues – receberam remuneração fixa, variável e discricionária que totalizou R$ 29 milhões. O pagamento foi aprovado em assembleia de acionistas em 5 de março, mas a Infraero afirma que a aprovação violou regras de governança.
| Tipo | Valor (R$ milhões) |
|---|---|
| Remuneração fixa anual | 6,322 |
| Remuneração variável | 11,5 |
| Remuneração discricionária | 17,5 |
| Total | 29,0 |
Infraero levanta a contestação
A estatal argumenta que o bônus foi criado para premiar quem perdeu a disputa, quebrando a lógica de meritocracia e desempenho. Em ofício, a Infraero descreve o pagamento como "irregular" e aponta falha de aprovação pelo Conselho de Administração.
Defesa da RioGaleão
A concessionária sustenta que a remuneração foi deliberada em conformidade com a legislação e as boas práticas de mercado. A ata da assembleia foi registrada na Junta Comercial e disponibilizada ao público, segundo a empresa.
Intervenção da ANAC
A Agência Nacional de Aviação Civil recebeu a demanda da Infraero e iniciou análise sobre a legitimidade do bônus. A decisão da ANAC pode determinar se o valor será descontado do caixa da concessionária antes da transferência à Aena.
Impacto financeiro para a estatal
Como acionista minoritária, a Infraero tem direito a parte do caixa acumulado, mas também responde por despesas que reduzem o montante a ser reembolsado ao Tesouro. O custo de R$ 29 milhões pode diminuir significativamente o retorno esperado da venda assistida.
Repercussão no mercado de concessões
Especialistas apontam que o caso pode gerar maior cautela em futuras operações de "venda assistida" e exigir reforço nos mecanismos de governança. Analistas do setor de infraestrutura alertam para o risco de "premiação por falha", que pode desincentivar a competição saudável.
A Visão do Especialista
Para o consultor de governança corporativa Dr. Marcos Lira, o episódio evidencia a necessidade de cláusulas claras que vinculam bônus a metas de desempenho mensuráveis e não a resultados binários como a perda de controle. Ele recomenda que a Infraero busque a anulação total do pagamento ou, ao menos, a sua compensação pelos acionistas privados, a fim de preservar a integridade dos recursos públicos e restaurar a confiança dos investidores no modelo de concessões brasileiras.
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