O estoque de perícias médicas represadas no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) chega a aproximadamente 2,8 milhões em todo o Brasil. Com apenas 3.000 peritos médicos federais ativos, a autarquia enfrenta um gargalo histórico no atendimento à população. Para reduzir o volume de pendências, o INSS realizou um mutirão no último final de semana, avaliando 59 mil perícias, o equivalente a apenas 2% do total acumulado. Apesar do esforço, especialistas apontam que a iniciativa tem caráter paliativo e pode gerar novos problemas no futuro.

O problema das perícias represadas no INSS

A fila de perícias médicas no INSS tem sido uma das maiores dificuldades enfrentadas pelo sistema previdenciário brasileiro. Com um déficit significativo de profissionais, o órgão não consegue atender à demanda crescente de segurados que aguardam análises para concessão ou revisão de benefícios por incapacidade.

Além da sobrecarga de trabalho, o cenário é agravado pela periodicidade das revisões obrigatórias, que determinam que benefícios por incapacidade sejam reavaliados a cada dois anos. Sem a estrutura necessária, o INSS acumula processos, gerando atrasos que afetam diretamente milhares de segurados dependentes de auxílio financeiro.

O mutirão como resposta emergencial

Entre os dias 3 e 4 de junho de 2026, o INSS realizou um mutirão que envolveu agências em todo o país. As 59 mil perícias realizadas representam um pequeno avanço frente ao número total de processos parados. Segundo o órgão, a força-tarefa contou com atendimentos presenciais e à distância, na tentativa de acelerar o ritmo de análise.

No entanto, a qualidade das perícias realizadas em regime de mutirão tem sido amplamente questionada por especialistas e associações de peritos médicos. A Associação Nacional dos Peritos Médicos Federais (ANMP) destacou que, ao priorizar o volume de atendimentos, o INSS pode comprometer a precisão das análises médicas, o que pode levar a uma maior judicialização de casos no futuro.

Impactos no sistema previdenciário

Os mutirões representam uma solução temporária, mas são insuficientes para resolver o problema crônico da falta de recursos humanos e infraestrutura no INSS. Segundo Francisco Eduardo Cardoso Alves, vice-presidente da ANMP, os mutirões atendem mais a interesses políticos do que à efetiva resolução do problema.

A preocupação é que a qualidade das perícias realizadas em situações de alta produtividade seja comprometida. Há relatos de segurados que tiveram atendimentos rápidos demais, com avaliações que desconsideraram documentos médicos essenciais. Esse cenário pode levar a um aumento no número de benefícios negados ou indeferidos, pressionando ainda mais o Judiciário com recursos e ações judiciais.

Histórico de desafios no INSS

O problema das perícias represadas não é novo. Ao longo das últimas décadas, o INSS tem enfrentado dificuldades para manter um fluxo regular de atendimento devido à falta de servidores e à crescente judicialização de processos. A automação e o uso de tecnologia têm sido implementados, mas não conseguem compensar a ausência de profissionais qualificados.

Outro fator que contribui para o acúmulo de perícias é a instabilidade no agendamento e a convocação de segurados em prazos curtos, o que dificulta a apresentação de exames atualizados e documentos necessários para análise.

Custos e consequências financeiras

Os mutirões também representam custos adicionais para o INSS. Servidores envolvidos recebem bônus de desempenho e remuneração extra por trabalhar fora do expediente regular. Além disso, falhas no sistema informático e retrabalhos para corrigir avaliações mal realizadas podem gerar mais gastos e estender ainda mais o prazo para resolução dos casos pendentes.

Especialistas apontam que, sem uma reforma estrutural, o INSS continuará a enfrentar dificuldades para atender à população de forma eficiente, mesmo com esforços pontuais como os mutirões.

O que dizem os especialistas?

Para especialistas, a solução passa por um aumento no quadro de servidores e pela melhoria na gestão dos processos internos do INSS. A falta de planejamento adequado e a priorização de números em detrimento da qualidade estão entre os principais pontos críticos do modelo atual.

Além disso, é necessário investir em capacitação dos peritos médicos e na infraestrutura das agências. Isso ajudaria a reduzir a judicialização, que consome recursos e tempo tanto do INSS quanto do sistema judiciário.

Impacto nos segurados

Os segurados são os mais afetados por essa crise. Muitos dependem dos benefícios para sobreviver e enfrentam longos períodos de espera devido ao acúmulo de perícias. Em alguns casos, a espera pode levar anos, deixando famílias em situação de vulnerabilidade.

Os relatos de insatisfação incluem atendimentos rápidos e, por vezes, desrespeitosos, além de dificuldades para obter informações claras sobre o andamento dos processos.

A Visão do Especialista

A realização de mutirões pelo INSS é um esforço que demonstra a tentativa de mitigar os problemas do sistema, mas não resolve o cerne da questão. Sem investimentos estruturais, aumento do quadro de servidores e reformas administrativas, a fila de perícias continuará crescendo, perpetuando a insatisfação dos segurados e o desgaste da autarquia.

Para o futuro, é essencial que o INSS busque soluções de longo prazo, combinando tecnologia, capacitação e ampliação do quadro de profissionais. Só assim será possível oferecer um serviço de qualidade e atender à população com a dignidade que ela merece.

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