O Irã pediu oficialmente ao bloco dos Brics que condene as ações dos Estados Unidos e de Israel em meio à crise geopolítica no Oriente Médio. A solicitação foi feita pelo ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araqchi, durante uma reunião de dois dias realizada em Nova Délhi, Índia. O apelo expôs as divisões internas do bloco, ampliado recentemente para incluir países com interesses divergentes na região.

Contexto histórico: Brics e sua expansão
O Brics, inicialmente formado por Brasil, Rússia, Índia e China, foi criado em 2009 com o objetivo de promover a cooperação econômica e política entre os membros. Em 2011, a África do Sul foi incorporada, e em 2023 o bloco expandiu ainda mais, incluindo Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos. A expansão trouxe maior representatividade geográfica, mas também acentuou desafios internos relacionados às divergências geopolíticas.
O apelo do Irã e suas acusações

Durante o encontro, Araqchi acusou os Estados Unidos e Israel de "expansionismo ilegal e belicismo", citando a guerra iniciada em 28 de fevereiro de 2026. Ele também destacou a ameaça representada por sanções unilaterais e apelou para que os Brics condenassem explicitamente essas ações em uma declaração conjunta.
O Irã tem enfrentado repetidos ataques no Estreito de Hormuz, região estratégica para o comércio global de petróleo. Segundo Araqchi, o bloqueio parcial do estreito causou uma das maiores crises energéticas da história recente, com impacto direto nos preços globais do petróleo e na inflação.
Divisões internas do bloco
A inclusão de novos membros, como o Irã e os Emirados Árabes Unidos, expôs diferenças significativas dentro do Brics. Ambos os países têm um histórico de rivalidade na região do Golfo Pérsico, agravado por ataques iranianos contra os Emirados Árabes Unidos. Esse cenário dificulta a busca por consenso em questões críticas, como o conflito no Oriente Médio.
O Brics opera com base em decisões por consenso, o que torna ainda mais complexa a possibilidade de emitir uma declaração conjunta condenando Estados Unidos e Israel. A posição da Índia, que atualmente ocupa a presidência do bloco, também é cautelosa, visando evitar polarizações extremas.
Impactos econômicos e energéticos
O quase fechamento do Estreito de Hormuz, responsável por cerca de 20% do tráfego global de petróleo, gerou uma crise energética significativa. Os preços do petróleo subiram acentuadamente, impulsionando a inflação em países importadores de energia, como a Índia. A situação também elevou preocupações sobre uma desaceleração econômica global.
Adicionalmente, o ataque a um navio de bandeira indiana na costa de Omã trouxe à tona questões de segurança marítima na região. O governo indiano classificou o incidente como "inaceitável", reforçando a necessidade de estabilidade nas principais rotas comerciais.
Repercussões políticas e diplomáticas
O pedido do Irã para que os Brics condenem EUA e Israel reflete sua estratégia de buscar apoio internacional contra sanções e ações militares. No entanto, a postura do Irã pode alienar aliados do bloco que mantêm relações diplomáticas ou comerciais com os Estados Unidos e Israel.
Enquanto isso, o ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, evitou tomar posições extremas, destacando a importância da estabilidade e da liberdade de navegação em vias marítimas internacionais como o Estreito de Hormuz e o Mar Vermelho.
O papel dos Brics no cenário global
Com sua expansão, o Brics ganhou maior relevância geopolítica, representando cerca de 40% da população mundial e um terço da economia global. No entanto, essas diferenças internas podem limitar a eficácia do bloco em abordar crises sensíveis, como a guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel.
A presidência indiana do Brics, que se estenderá até 2026, será crucial para determinar a capacidade do grupo de superar suas divisões e consolidar uma posição unificada em questões internacionais.
A Visão do Especialista
Especialistas afirmam que o Brics enfrenta um momento decisivo em sua história. A inclusão de países com interesses divergentes pode enfraquecer sua unidade, mas também oferece a oportunidade de se tornar um fórum mais representativo e influente. O sucesso do grupo dependerá de sua capacidade de equilibrar interesses nacionais e promover consenso em temas globais sensíveis.
Quanto ao apelo do Irã, é improvável que o bloco emita uma condenação explícita, dado o sistema de consenso e as relações econômicas e políticas de alguns membros com os Estados Unidos e Israel. No entanto, o Brics pode desempenhar um papel importante ao promover o diálogo e buscar soluções diplomáticas para o conflito.

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