O Irã tem sido alvo de intensas críticas de organizações internacionais por supostamente recrutar crianças para atuar em funções militares e paramilitares em meio a tensões crescentes no Oriente Médio. Segundo relatos de entidades como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch (HRW), menores de idade têm sido alocados em postos de controle, patrulhas e outras atividades relacionadas ao contexto de guerra. Essas práticas configuram violações graves das convenções internacionais sobre os direitos da criança e dos direitos humanos.

Crianças recrutadas para lutar em frente de violência durante guerra.
Fonte: redir.folha.com.br | Reprodução

Contexto histórico e o papel da Basij

O uso de menores em conflitos armados não é uma prática nova no Irã. Durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), milhares de crianças foram enviadas para os campos de batalha. Um caso amplamente conhecido é o de Mohammad Hossein Fahmideh, que, aos 13 anos, perdeu a vida ao se sacrificar com uma granada contra um tanque iraquiano. Esse episódio foi transformado em símbolo de martírio pelo regime iraniano.

Atualmente, as denúncias se concentram principalmente na organização Basij, um braço paramilitar da Guarda Revolucionária do Irã. Oficialmente denominada "Organização para a Mobilização dos Oprimidos", a Basij é frequentemente usada para reprimir protestos internos e para funções de segurança. Recentemente, foi anunciado pela liderança da Basij que a idade mínima para alistamento foi reduzida de 15 para 12 anos, o que gerou indignação em escala global.

Relatos de organizações humanitárias e evidências

De acordo com a Anistia Internacional, crianças recrutadas pela Basij têm sido vistas operando armas pesadas em postos de controle e participando de patrulhas. Um caso emblemático é o de Alireza Jafari, uma criança de apenas 11 anos que, segundo relatos, morreu em março de 2026 enquanto atuava em um desses postos. Seu pai teria levado o menino ao local sob o argumento de que não havia soldados suficientes para a função.

Além disso, surgiram evidências visuais, como pôsteres de recrutamento que mostram crianças em uniformes militares ao lado de adultos armados. Tais imagens foram amplamente disseminadas pela imprensa estatal iraniana, corroborando as denúncias de recrutamento infantil.

Legislação internacional e violações de direitos

O recrutamento de crianças para conflitos armados é considerado um crime de guerra pela legislação internacional. O Irã é signatário da Convenção dos Direitos da Criança e de seu Protocolo Facultativo sobre o envolvimento de crianças em conflitos armados, que proíbe o uso de menores de 18 anos em combates diretos.

No entanto, a fiscalização dessas práticas é dificultada pela censura e pelos blecautes de informação no país. Bill Van Esveld, diretor da área de direitos da criança da HRW, afirma que muitos cidadãos têm medo de denunciar essas situações devido ao risco de represálias por parte das autoridades iranianas.

Impacto regional e histórico de recrutamento infantil

O Irã não está sozinho no uso de crianças em conflitos. Práticas semelhantes foram documentadas em países como Mianmar, Sudão do Sul e República Democrática do Congo. Na região do Oriente Médio, aliados do Irã, como o regime sírio de Bashar al-Assad, também foram acusados de usar crianças-soldado, muitas vezes recrutadas de comunidades vulneráveis, como refugiados afegãos.

Por outro lado, a instabilidade regional tem agravado o impacto sobre civis, especialmente crianças. Em Gaza, bombardeios israelenses resultaram na morte de mais de 20 mil crianças e na destruição de 92% das escolas, enquanto no Líbano, ataques forçaram o deslocamento de 1 milhão de pessoas, sendo 400 mil crianças.

Repercussões internacionais

O uso de menores em conflitos armados pelo Irã tem gerado pressão diplomática e sanções adicionais de países ocidentais, como os Estados Unidos. No entanto, a efetividade dessas sanções em coibir a prática é questionada por especialistas, dado o histórico de resistência do regime iraniano às pressões externas.

Além disso, a situação agrava tensões já existentes com Israel e os EUA, ambos acusados de ataques que também resultaram em mortes de civis, incluindo crianças. Um exemplo foi o bombardeio em 28 de fevereiro de 2026, que atingiu uma escola para garotas no Irã, causando a morte de 175 pessoas. Segundo relatórios, a escola estava próxima a uma base militar, mas imagens de satélite indicaram que não era um alvo militar legítimo.

A dimensão do problema e desafios de investigação

A censura no Irã torna extremamente difícil quantificar a extensão do recrutamento infantil. Relatos isolados, como o de Alireza Jafari, são apenas a ponta do iceberg. Especialistas acreditam que o número real de crianças envolvidas seja muito maior, mas faltam dados confiáveis devido à falta de acesso ao país e ao medo das famílias em relatar os casos.

Além disso, o impacto psicológico a longo prazo sobre essas crianças, que muitas vezes testemunham ou participam diretamente de atos de violência, é uma questão que ainda precisa ser amplamente estudada.

A Visão do Especialista

Para analistas, o uso de crianças em conflitos armados representa uma escalada perigosa nas práticas do Irã, sinalizando uma possível crise mais profunda na capacidade do regime de mobilizar forças adultas para suas operações militares. O impacto humanitário é imensurável, uma vez que o recrutamento não apenas expõe crianças à violência, mas também compromete seu futuro, privando-as de educação e desenvolvimento.

O cenário no Oriente Médio permanece tenso, e é improvável que a comunidade internacional consiga uma solução diplomática em curto prazo. No entanto, especialistas apontam que a pressão por parte de organismos internacionais e a ampliação da visibilidade do tema são passos cruciais para mitigar as violações de direitos humanos. Como destaca Bill Van Esveld, "essas crianças deveriam estar na escola, não nas linhas de frente de uma guerra".

Compartilhe essa reportagem com seus amigos e ajude a divulgar a importância da proteção dos direitos das crianças em zonas de conflito.