A Justiça colombiana determinou, no início de junho de 2026, que Abelardo de la Espriella, candidato de extrema direita à presidência do país, está proibido de utilizar a camisa da seleção colombiana de futebol como símbolo de sua campanha política. A decisão judicial ocorre em meio a uma crescente polarização política no país, a poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 21 de junho, e da Copa do Mundo, que começa em 11 de junho. A medida, embora respaldada por setores da esquerda, gerou controvérsias e dividiu a população, acendendo o debate sobre a politização de símbolos nacionais.

Candidato de extrema direita é proibido de usar camisa da Colômbia como símbolo político.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

O Caso: O uso da camisa como ferramenta política

Abelardo de la Espriella, advogado excêntrico e conhecido por suas posições ultraconservadoras, fez da camisa tricolor da seleção colombiana um elemento central de sua campanha. Durante comícios e eventos públicos, o candidato e seus apoiadores frequentemente usavam o uniforme oficial, estampado com a icônica cabeça de tigre, associada à sua persona política. De la Espriella chegou a justificar o uso da camisa como uma expressão de "patriotismo e amor à pátria".

Contudo, a oposição, liderada pelo candidato de esquerda Iván Cepeda, acusou De la Espriella de se apropriar de um símbolo nacional em benefício próprio, transformando-o em um emblema de sua campanha. Cepeda, sucessor político do atual presidente Gustavo Petro, levou o caso à Justiça, que decidiu pela "cessação imediata e definitiva" do uso do uniforme em qualquer forma de propaganda política por parte do candidato de direita.

Contexto Histórico: A camisa como símbolo nacional

A camisa da seleção colombiana transcende seu papel no esporte. Desde a década de 1990, quando a Colômbia emergiu como uma potência no futebol sul-americano, o uniforme tricolor se tornou um símbolo de orgulho nacional, especialmente em momentos de turbulência política e social. O futebol, frequentemente visto como um elo unificador em uma sociedade dividida, é um dos principais pilares da identidade nacional colombiana.

No entanto, esse simbolismo coletivo também a torna suscetível a apropriações políticas. Este não é um fenômeno exclusivo da Colômbia. Em diversos países, incluindo o Brasil, a camisa da seleção nacional foi empregada por diferentes espectros políticos, transformando o que deveria ser um símbolo apartidário em uma bandeira de ideologias específicas.

Repercussões políticas e sociais

A decisão judicial foi recebida com reações mistas. Enquanto os aliados de Iván Cepeda comemoraram o que consideram uma "vitória contra o populismo e a manipulação política", os seguidores de De la Espriella criticaram a medida, classificando-a como "uma tentativa de censura e ataque ao patriotismo". Nas redes sociais, hashtags como #CamisaÉDoPovo e #LiberdadeDeExpressão dominaram o debate, refletindo a divisão política do país.

Especialistas em ciência política destacam que a politização de símbolos nacionais pode ser arriscada, especialmente em contextos polarizados. "Quando líderes políticos se apropriam de símbolos culturais ou esportivos, eles correm o risco de transformar o que deveria ser um fator de unidade em um catalisador de divisão", explica a cientista política colombiana María Fernanda Alarcón.

Impacto nas eleições e na Copa do Mundo

A proibição chega em um momento crítico. O segundo turno das eleições colombianas está marcado para poucos dias antes do início da Copa do Mundo de 2026, que será realizada na América do Norte. A seleção colombiana, que estreia no torneio em 17 de junho contra o Uzbequistão, carrega as expectativas de milhões de torcedores.

Embora a decisão judicial tenha como objetivo impedir a exploração do sentimento nacionalista em benefício eleitoral, analistas políticos acreditam que o episódio pode ter o efeito oposto. "A narrativa de perseguição política, já usada por De la Espriella, pode mobilizar ainda mais seus apoiadores", afirma o sociólogo Juan Carlos Ramírez.

Precedentes e implicações jurídicas

A decisão da Justiça colombiana estabelece um precedente importante quanto ao uso de símbolos nacionais em campanhas políticas. De acordo com a juíza responsável pelo caso, o uso da camisa nacional por De la Espriella "comprometia a neutralidade e a universalidade associadas ao uniforme", violando o princípio constitucional que regula a imparcialidade de símbolos do Estado.

Embora a decisão tenha sido amplamente divulgada, a legislação colombiana ainda não possui diretrizes claras sobre o uso de símbolos nacionais em campanhas eleitorais, o que levanta questionamentos sobre a aplicação dessas regras em futuros pleitos.

Reações internacionais

O caso chamou a atenção da comunidade internacional, especialmente em países que também enfrentaram controvérsias semelhantes. No Brasil, por exemplo, a camisa da seleção foi amplamente utilizada por apoiadores de movimentos políticos, gerando debates sobre seu significado e neutralidade.

Organizações esportivas e analistas globais também se manifestaram. A FIFA, entidade máxima do futebol, reiterou que o uso de uniformes nacionais deve ser restrito a contextos esportivos, para preservar sua integridade como símbolo de unidade e competição.

A Visão do Especialista

A decisão da Justiça colombiana reflete a complexidade de equilibrar a liberdade de expressão com a necessidade de proteger símbolos nacionais de apropriações indevidas. Embora o veredito represente um marco importante, ele também expõe lacunas na legislação e na regulamentação do uso de emblemas nacionais em campanhas políticas.

No contexto das eleições de 2026, o caso de Abelardo de la Espriella ilustra como a política contemporânea é cada vez mais marcada pelo uso estratégico de símbolos culturais e esportivos. Para os eleitores, o episódio serve como um lembrete da importância de separar o patriotismo autêntico da manipulação política. À medida que a Colômbia se aproxima de momentos decisivos, tanto no campo político quanto no esportivo, a nação terá de enfrentar não apenas as disputas eleitorais e esportivas, mas também o desafio de preservar sua coesão social e identidade nacional.

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