Keiko Fujimori assumiu nesta terça-feira (28) a Presidência do Peru em uma cerimônia solene realizada no Congresso, em Lima. O evento marca o retorno da direita ao poder no país andino e a volta do sobrenome Fujimori à Casa de Pizarro, sede do Executivo peruano, após 26 anos. A posse acontece em um momento de intensa polarização política e econômica no Peru, com repercussões significativas para a região.

O retorno de um sobrenome controverso ao poder

Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, chega à Presidência após vencer o segundo turno das eleições realizadas em 7 de junho. A vitória sobre Roberto Sánchez foi apertada, com uma diferença de apenas 49.641 votos, e o resultado oficial só foi divulgado em 3 de julho. Esta foi sua quarta candidatura ao cargo, mas a primeira em que ela não terminou em segundo lugar.

Seu retorno ao poder é simbólico, pois revive memórias do governo de seu pai, que governou o Peru entre 1990 e 2000, período marcado por avanços econômicos, mas também por graves denúncias de corrupção e violações de direitos humanos. Muitos veem sua eleição como uma tentativa de resgate do legado Fujimorista, enquanto outros temem a repetição dos erros do passado.

Um cenário político fragmentado

Keiko assumirá um Peru mergulhado em uma crise política crônica, com sucessivas destituições presidenciais nos últimos anos. O Congresso, altamente fragmentado, será um dos principais desafios de seu governo. Mesmo com a Força Popular, seu partido, tendo a maior bancada, com 41 deputados e 22 senadores, a maioria parlamentar está longe de ser alcançada, exigindo negociações constantes com outros grupos políticos, incluindo forças de direita e centro.

Além disso, a nova presidente terá que lidar com a rejeição de parte significativa da população. Roberto Sánchez, seu adversário no segundo turno, afirmou que não reconheceria os resultados das eleições e indicou que pretende recorrer a instâncias internacionais, o que pode prolongar a instabilidade política.

Repercussão internacional: Javier Milei e a "onda azul"

A posse de Keiko Fujimori atraiu líderes de toda a América Latina e de outros continentes. Entre os presentes, destaca-se o presidente da Argentina, Javier Milei, que recentemente tem liderado a chamada "onda azul", referindo-se à ascensão da direita na região. Além de Milei, marcaram presença líderes como José Antonio Kast (Chile), Santiago Peña (Paraguai) e Yamandú Orsi (Uruguai), além do rei Felipe VI da Espanha e delegações dos Estados Unidos, Japão, China e Marrocos.

O apoio internacional à sua posse reflete a expectativa de um fortalecimento da agenda liberal e conservadora na região. Javier Milei, por exemplo, destacou a importância de governos alinhados ideologicamente para combater o que chama de "avanço do socialismo" na América do Sul.

Desafios econômicos e sociais

O Peru enfrenta uma das crises econômicas mais graves das últimas décadas, agravada pela pandemia de COVID-19 e pela instabilidade política. O país, que já foi uma das economias mais dinâmicas da América Latina, sofre com inflação, crescimento desacelerado e altos índices de pobreza.

Keiko terá que equilibrar políticas de austeridade com demandas sociais urgentes. Além disso, a mineração, principal motor da economia peruana, enfrenta crescentes conflitos com comunidades locais, que demandam mais benefícios diretos e proteção ambiental.

Os escândalos que marcaram sua trajetória

A carreira política de Keiko Fujimori também foi marcada por polêmicas. Entre 2018 e 2020, ela passou cerca de um ano e meio presa sob acusações de financiamento irregular de campanha, em um caso relacionado à Odebrecht. Embora o processo tenha sido arquivado, as acusações ainda dividem opiniões no Peru.

Esses episódios levantam dúvidas sobre sua capacidade de liderar um governo transparente e eficaz. Seus críticos apontam que o retorno dos Fujimori ao poder pode reacender práticas autoritárias e controversas.

O impacto regional da posse

A eleição de Keiko Fujimori é vista como um marco no tabuleiro geopolítico sul-americano. A ascensão da direita em países como Colômbia, Paraguai e agora Peru forma um bloco ideológico que contrasta com governos mais progressistas da região, como o do Brasil e do México.

Especialistas apontam que essa configuração pode influenciar negociações comerciais e políticas ambientais, além de alinhar o Peru a uma postura mais pró-mercado e menos intervencionista.

A Visão do Especialista

Keiko Fujimori assume o governo com um cenário complexo pela frente. Por um lado, sua vitória representa um desejo de mudança em relação aos últimos anos de instabilidade. Por outro, as divisões internas e a herança de escândalos tornam sua missão ainda mais desafiadora.

Seu sucesso dependerá de sua capacidade de articular apoio no Congresso e de implementar políticas que conciliem crescimento econômico com inclusão social. O Peru está em um limiar crítico, e o governo Fujimori pode determinar o rumo do país nas próximas décadas.

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