Um levantamento recente revelou que ao menos 19 produtos e serviços essenciais são atualmente controlados por facções criminosas e milícias no estado do Rio de Janeiro. Esse monopólio, exercido em áreas dominadas, afeta diretamente a economia formal, com um impacto estimado de R$ 21,4 bilhões por ano, segundo estudo da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). O controle abrange itens como alimentos, materiais de construção e até serviços fundamentais, gerando um ambiente hostil para comerciantes e consumidores.

O avanço do crime organizado no mercado formal
Historicamente, a atuação do crime organizado no Brasil esteve associada ao tráfico de drogas e à exploração de serviços clandestinos, como TV por assinatura e transporte alternativo. Entretanto, especialistas apontam que estamos vivenciando uma "terceira onda" dessa atuação. Além de extorquir comerciantes, facções e milícias agora controlam diretamente a produção e distribuição de produtos essenciais. Isso inclui a criação de empresas próprias ou a imposição de fornecedores específicos, com preços determinados.
Um exemplo emblemático ocorreu em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde criminosos passaram a monopolizar a distribuição de trigo e ovos. Comerciantes locais relataram aumento significativo nos preços e ameaças constantes para aderirem ao esquema. Produtos como a cartela de ovos, que antes custava em torno de R$ 10,50, passaram a ser vendidos por R$ 14, inviabilizando a comercialização para muitos estabelecimentos.

Os produtos e serviços monopolizados
O levantamento revelou que o crime organizado controla uma ampla gama de produtos e serviços em diferentes regiões do estado. Abaixo, os principais itens identificados:
- Alimentos: trigo, arroz, ovos, cesta básica.
- Materiais de construção: tijolos, areia.
- Serviços: fornecimento de energia solar, gás e água mineral.
- Produtos de limpeza e bebidas.
- Cigarros e outros itens de consumo cotidiano.
Impacto econômico e social
O estudo da Firjan revela que as empresas que operam no estado do Rio de Janeiro têm um custo adicional estimado em R$ 9,7 bilhões por ano devido à necessidade de investir em segurança, seguros e gestão de risco. Esses gastos representam cerca de 0,7% do PIB do estado e comprometem a competitividade das empresas.
Segundo Daniel Cerqueira, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), essa dinâmica afeta diretamente a produtividade da economia. "Quando o crime se apropria da distribuição de produtos e do controle de empresas, elas deixam de operar pela lógica normal do mercado, que busca eficiência e competitividade. Isso gera uma redução significativa na capacidade de crescimento sustentável", explica.
Caso emblemático: a "taxa da farinha"
Em março do ano passado, o comerciante Rafael da Silva Braga foi assassinado em Paciência, na Zona Oeste do Rio, após se recusar a aderir à chamada "taxa da farinha". Essa prática não apenas impõe fornecedores específicos, mas também estabelece preços fixos para produtos, como o pão, que teve o valor de venda dobrado. O caso expõe o nível de violência e coerção aplicado pelas organizações criminosas para manter o controle do mercado.
O papel das autoridades e as investigações em curso
Diversas operações foram realizadas para desarticular essas redes criminosas. A Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco) identificou empresas ligadas ao crime organizado que monopolizam a distribuição de produtos como trigo e gás. Contudo, os desafios permanecem, já que o controle territorial dificulta o acesso das autoridades a algumas áreas dominadas.
Além disso, denúncias apontam que comerciantes em regiões como Queimados, Nova Iguaçu e Itaguaí são obrigados a adquirir materiais de construção de fornecedores vinculados a milícias. A Promotoria de Investigação Penal de Itaguaí também investiga casos de extorsão envolvendo usinas de energia solar.
Consequências para o consumidor e a sociedade
O controle do crime organizado impacta diretamente a população. Além do aumento nos preços de produtos essenciais, como alimentos e gás, moradores relatam viver sob constante coação. Um morador da Zona Oeste descreveu a situação como "um local onde não temos o direito de ir e vir, nem de nos expressar ou questionar as ordens impostas por eles".
Esse ambiente hostil também afeta a geração de empregos e investimentos na região. Empresas legais enfrentam dificuldades para operar e, frequentemente, optam por encerrar suas atividades ou migrar para locais mais seguros, agravando o desemprego e a informalidade.
A Visão do Especialista
O avanço do crime organizado no mercado formal representa um desafio complexo e multifacetado. Combater esse fenômeno exige uma abordagem integrada entre segurança pública, políticas de desenvolvimento econômico e fortalecimento institucional. Samuel Rivero, da Firjan, destaca que é essencial criar mecanismos para reduzir a vulnerabilidade econômica das regiões afetadas e garantir a presença do Estado em áreas dominadas pelo crime.
Por outro lado, Daniel Cerqueira reforça a importância de medidas estruturais para limitar a capacidade de operação das organizações criminosas. "É preciso atacar as fontes de financiamento desses grupos e fortalecer a fiscalização para que empresas ilegais não prosperem. Sem isso, continuaremos assistindo à expansão desse controle, com impactos devastadores para a economia e a sociedade como um todo."

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