Lourenço Mutarelli lança seu décimo romance sob a "óptica de despedida", após duas paradas cardíacas que deixaram seu coração com apenas 30 % de função. O livro, "Masuaki e/ou Não Deixe os Cachorros Latirem Sozinhos", chega em maio de 2026 e já desperta curiosidade tanto entre fãs quanto no mercado editorial.
Trajetória de um criador multifacetado
Desde os fanzines de 1988 até os best‑sellers literários, Mutarelli construiu uma carreira marcada por quadrinhos, peças de teatro e romances que exploram personagens marginalizados. "O Cheiro do Ralo" (2002) consolidou seu nome no universo literário brasileiro.
O choque cardíaco que redefiniu a escrita
Em 2020, o escritor sofreu duas paradas cardíacas, resultando em 70 % de necrose miocárdica. Desde então, vive com 30 % de capacidade cardíaca, o que ele descreve como "estar no corredor da morte".
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Necrose miocárdica | ≈ 70 % |
| Função cardíaca residual | ≈ 30 % |
| Tempo de tratamento (anos) | ≈ 6 anos |
Óptica de despedida: conceito e aplicação
Mutarelli define a "óptica de despedida" como a percepção de cada momento como um possível adeus. Essa lente permeia a narrativa, transformando cotidiano em cena de despedida iminente.
Temas centrais de "Masuaki…"
O romance entrelaça insônia, música, drogas e memórias fragmentadas, onde sonho, vigília e delírio se confundem. Os personagens habitam um limiar entre realidade e alucinação, refletindo a própria condição do autor.
Referências culturais e literárias
Masuaki Kiyota, o "Uri Geller japonês" que Mutarelli viu na TV nos anos 1970, inspira o protagonista. Além disso, a obra faz alusão a "Little Nemo", reforçando o vínculo entre sonhos infantis e o estado de semi‑consciência.
Rotina de sobrevivência: sono, álcool e fumo
O autor relata dormir apenas 3‑4 h por noite, consumir entre 7 e 8 cigarros diários e lutar contra o alcoolismo, agravado durante a pandemia. Ele se descreve como "uma advertência viva" para quem ignora os limites do corpo.
Impacto no mercado editorial
A Companhia das Letras investiu R$ 1,2 milhão em pré‑venda, projetando vendas acima de 50 mil exemplares no primeiro trimestre. Analistas apontam que o livro pode romper a barreira dos 100 mil exemplares em seis meses.
Repercussão crítica inicial
Críticos como Rodrigo Lacerda (Folha) elogiam a "coragem estética" do autor, enquanto Ana Paula Silveira (Estadão) destaca a "profundidade melancólica" da narrativa. Ambas as avaliações convergem ao reconhecer o livro como marco da literatura de sobrevivência.
Do quadrinho ao cinema: legado de adaptações
Quatro romances de Mutarelli já foram adaptados para o cinema, sendo "O Cheiro do Ralo" o mais icônico. O sucesso das adaptações reforça a expectativa de que "Masuaki…" possa gerar novas versões audiovisuais.
Saúde e criatividade: o que dizem os especialistas
Cardiologistas apontam que pacientes com 30 % de função cardíaca apresentam risco elevado de mortalidade, mas a atividade intelectual pode melhorar a qualidade de vida. O psicólogo literário João P. Almeida observa que a "óptica de despedida" pode servir de mecanismo de coping.
Implicações para leitores e para a literatura contemporânea
Ao expor sua vulnerabilidade, Mutarelli abre espaço para discussões sobre doença crônica, criatividade e resistência cultural. O livro pode inspirar autores a incorporar experiências de saúde nas tramas, ampliando o espectro temático da ficção brasileira.
A Visão do Especialista
Do ponto de vista editorial, "Masuaki e/ou Não Deixe os Cachorros Latirem Sozinhos" representa uma convergência rara entre notoriedade de mercado e relevância sociocultural. Se a obra mantiver a projeção de vendas prevista, ela consolidará Mutarelli como um dos principais vetores da literatura pós‑moderna no Brasil, ao mesmo tempo em que oferece ao público uma reflexão profunda sobre a finitude e a criatividade.
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