No dia 18 de julho de 2026, a escritora e roteirista Manuela Dias lançou o livro Heroínas da Independência, uma obra que resgata a participação feminina nas lutas que culminaram na Independência do Brasil, com destaque para personagens históricas como Maria Quitéria, Joana Angélica e Maria Felipa. Publicado pela editora Voante, o livro foi apresentado ao público em Salvador, na livraria Terra Libris, e conta com um evento subsequente programado para São Paulo no dia 25 de julho.
A Participação Feminina na Independência
A narrativa do livro de Manuela Dias se concentra em um período muitas vezes negligenciado pela historiografia tradicional: as batalhas que ocorreram na Bahia até o 2 de julho de 1823. Enquanto o Grito do Ipiranga em 7 de setembro de 1822 é frequentemente exaltado como marco da Independência, o esforço popular, especialmente o protagonismo de mulheres, raramente recebe atenção proporcional.
Manuela destaca que as mulheres desempenharam papéis fundamentais, ora empunhando armas, ora agindo como líderes estratégicas. Segundo a autora, o apagamento histórico dessas figuras reflete uma tentativa de suprimir a narrativa popular e feminina da construção do Brasil independente.
Quem Foram as Heroínas?
O livro utiliza a linguagem do cordel, profundamente enraizada na tradição oral nordestina, para ilustrar as trajetórias de personagens como:
- Maria Quitéria: Alistou-se disfarçada de homem, desafiando as normas sociais da época, e foi reconhecida por suas habilidades militares. Recebeu honrarias de Dom Pedro I após a guerra.
- Joana Angélica: Madre superiora que enfrentou soldados portugueses em 1822 ao proteger rebeldes baianos em um convento, sendo morta em combate.
- Maria Felipa: Liderança negra da Ilha de Itaparica, que, segundo a tradição oral, organizou mulheres para lutar contra tropas portuguesas com facas e folhas de cansanção.
A Escolha do Cordel
Manuela Dias decidiu utilizar o cordel como uma maneira de aproximar o público das histórias dessas mulheres, aproveitando a musicalidade e a oralidade característica do gênero. A autora afirmou que o cordel foi a linguagem ideal para reunir o protagonismo feminino e a rica tradição cultural do Nordeste.
O Contexto Histórico do 2 de Julho
O 2 de julho é celebrado na Bahia como a data que consolidou a independência brasileira. Durante meses, forças locais enfrentaram batalhas intensas contra tropas portuguesas que resistiam à separação do Brasil de Portugal. Esse episódio, essencial para a história nacional, ganhou pouco espaço em livros didáticos, em contraste com o Grito do Ipiranga.
O historiador Ubiratan Castro de Araújo costumava destacar a importância dessa data para os baianos, citando a frase: "Maior que o Dois de Julho? Só Deus!". A obra de Manuela Dias representa um esforço para reverter esse apagamento histórico, dando voz a personagens frequentemente relegados às margens da história oficial.
Repercussão e Desdobramentos
O lançamento de Heroínas da Independência gerou ampla repercussão, especialmente entre historiadores e estudiosos da participação popular nas lutas de independência. A escolha de resgatar figuras femininas também atraiu atenção de movimentos feministas e organizações culturais, que veem na obra uma oportunidade de rever narrativas tradicionais.
Além do livro, Manuela Dias desenvolve um roteiro para um longa-metragem sobre o mesmo tema, em parceria com o ator e diretor Antônio Pitanga. Embora ainda sem previsão de filmagem, o projeto promete ampliar o alcance dessas histórias para o público audiovisual.
A Redescoberta de Maria Felipa
Um dos desafios enfrentados pela autora foi a reconstrução da história de Maria Felipa, cuja atuação foi registrada principalmente pela tradição oral. Manuela encontrou na obra Maria Felipa de Oliveira, da historiadora Eny Kleyde Vasconcelos, uma base essencial para a pesquisa. A colaboração entre as duas resultou na reedição do livro de Vasconcelos, também lançada pela editora Voante.
Manuela descreveu a reedição como um gesto de preservação da memória: "É uma mulher contando a história de uma mulher que conta a história de uma mulher."
Impacto Cultural e Educacional
Ao trazer essas histórias à tona, Heroínas da Independência contribui para a inclusão de novos personagens no imaginário coletivo sobre a história do Brasil. A obra também serve como ferramenta educacional para desconstruir narrativas centralizadas e destacar o papel de minorias e grupos marginalizados no processo de independência.
O uso do cordel, além disso, promove o reconhecimento da cultura nordestina, que desempenha um papel central na identidade cultural brasileira, mas muitas vezes é subvalorizada em contextos nacionais.
A Visão do Especialista
Especialistas em história e literatura concordam que o trabalho de Manuela Dias é um marco no estudo da Independência do Brasil. Ao trazer à tona a participação feminina e negra nesse processo, sua obra reforça a necessidade de reavaliar as narrativas oficiais e abrir espaço para vozes historicamente silenciadas.
O resgate das heroínas da Independência não é apenas um projeto literário ou cinematográfico, mas um movimento de reescrita da história nacional. Ao destacar o papel de mulheres como Maria Quitéria, Joana Angélica e Maria Felipa, Manuela Dias aponta para um futuro no qual as contribuições de todos os grupos sociais são devidamente reconhecidas e celebradas.
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