A história de África de las Heras, uma agente da KGB que atuou como babá na América Latina, mistura espionagem internacional, intrigas políticas e segredos mortais. Em seu livro "Mi niñera de la KGB", a escritora argentina Laura Ramos revela como essa mulher, que cuidava dela e do irmão na infância, foi uma peça-chave na rede de inteligência soviética durante a Guerra Fria, além de estar envolvida em crimes como o envenenamento do próprio marido.

Quem foi África de las Heras?

África de las Heras Gavilán, nascida em Ceuta, Espanha, em 1909, foi uma militante comunista que se destacou na resistência contra o regime de Francisco Franco. Após a Guerra Civil Espanhola, ela se uniu à KGB, o serviço secreto soviético, onde adotou o codinome "Patria". Ao longo de sua carreira, recebeu treinamento em Moscou e participou de diversas operações clandestinas, incluindo missões na Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial e o planejamento do assassinato de León Trotsky no México.

No pós-guerra, De las Heras foi enviada à América Latina, onde usou Montevidéu, no Uruguai, como base para organizar uma rede de espionagem. Sua fachada: uma mulher comum, trabalhando como costureira, dona de casa e, por um período, até mesmo babá da escritora Laura Ramos e seu irmão.

África de las Heras no Uruguai: a base de operações da KGB

África chegou ao Uruguai em 1947, acompanhada de seu primeiro marido, o escritor uruguaio Felisberto Hernández. Montevidéu, fora do radar das tensões geopolíticas da época, era um local estratégico para a obtenção de documentos falsos e informações sobre o programa nuclear dos Estados Unidos. De las Heras rapidamente se integrou aos círculos intelectuais locais, conquistando a confiança de figuras influentes e criando uma rede de contatos que seria utilizada em suas atividades de espionagem.

Com a cidadania uruguaia em mãos, ela se divorciou de Hernández e, anos mais tarde, casou-se com Valentino Marchetti, um espião italiano enviado pelos soviéticos. A casa do casal, localizada na rua Williman, tornou-se o centro de suas operações. Foi nesse local que Laura Ramos e seu irmão frequentaram durante a infância, sem imaginar que sua "babá" estava simultaneamente coordenando missões de inteligência a serviço da KGB.

O envolvimento em mortes e crimes

Durante a investigação para o livro, Laura Ramos encontrou gravações que associavam África de las Heras a duas mortes misteriosas. A primeira foi a de seu próprio marido, Valentino Marchetti, que teria sido envenenado pela espiã. Segundo relatos, De las Heras teria pedido ajuda a uma cúmplice para mover o corpo de um cômodo a outro.

A segunda morte foi a de Arbelio Ramírez, professor universitário uruguaio e suposto colaborador da KGB. Ele teria sido assassinado durante um evento de Ernesto Che Guevara em Montevidéu, em 1961. No entanto, as circunstâncias exatas dessas mortes permanecem envoltas em mistério, já que De las Heras levou muitos segredos para o túmulo.

O impacto da KGB no contexto da Guerra Fria

A atuação de África de las Heras no Uruguai é um exemplo emblemático da extensão da influência soviética na América Latina durante a Guerra Fria. Naquele período, a KGB buscava infiltrar agentes em regiões estratégicas, como a América do Sul, para coletar informações sobre os Estados Unidos e apoiar movimentos alinhados ao comunismo.

Montevidéu, pela sua localização geográfica e ambiente político, tornou-se um ponto crucial para essas operações. A habilidade de De las Heras em se camuflar como uma cidadã comum — ora como costureira, ora como babá — foi essencial para garantir o sucesso de suas missões. Seu legado como espiã foi tão impactante que, na União Soviética, ela foi celebrada como heroína e imortalizada em um selo postal.

"Mi niñera de la KGB": uma investigação detalhada

No livro "Mi niñera de la KGB", Laura Ramos narra como foi a convivência com África de las Heras e descreve suas descobertas ao longo de cinco anos de pesquisa. A obra é um relato único sobre a vida da espiã, visto que Ramos a conheceu pessoalmente, sem nunca suspeitar de sua verdadeira identidade.

Ramos revela que a "babá" costumava contar histórias sobre feitos heroicos de figuras soviéticas enquanto cuidava dela e do irmão. Apesar de sua fachada tranquila, havia uma frieza em sua personalidade. A descoberta de que a mulher que lhe dava lanche após a escola era uma agente secreta da KGB foi um choque que marcou profundamente a escritora.

Repercussões históricas e culturais

A história de África de las Heras levanta questões sobre o impacto e a influência da espionagem soviética na América Latina. Sua habilidade em criar uma fachada de normalidade, enquanto realizava operações de inteligência de alto nível, exemplifica as táticas empregadas pela KGB durante o século XX.

Além disso, o caso destaca como a Guerra Fria não foi limitada apenas às potências globais. Países como o Uruguai, considerados neutros, também desempenharam papéis significativos como palcos para disputas ideológicas e operações secretas.

A Visão do Especialista

Para especialistas em história e espionagem, o caso de África de las Heras é um lembrete contundente de como a Guerra Fria moldou o mundo em esferas além do militar. As ações da KGB na América Latina, muitas vezes subestimadas, revelam a abrangência do conflito ideológico que marcou o século XX.

O relato de Laura Ramos é valioso não apenas pelo aspecto humano que traz à tona, mas também por iluminar uma parte obscura e pouco conhecida da história global. Os arquivos da KGB, muitos ainda classificados, podem conter mais respostas sobre as operações de África de las Heras e seu papel no contexto latino-americano.

Enquanto isso, histórias como a de Ramos ajudam a preservar a memória desse período, mostrando como indivíduos aparentemente comuns podem esconder segredos que mudaram o curso da história.

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