O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, decidiu nesta segunda-feira, 4 de maio de 2026, rejeitar o pedido de redução da pena da cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, conhecida como "Débora do Batom". A defesa baseou seu pedido na recente derrubada de um veto presidencial ao Projeto de Lei da Dosimetria, que poderia beneficiar réus condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro. No entanto, Moraes argumentou que a norma ainda não foi promulgada nem publicada, tornando sua aplicação inviável no caso.

Quem é Débora do Batom e por que foi condenada?
Débora Rodrigues dos Santos ganhou notoriedade nacional após os atos de vandalismo que ocorreram em 8 de janeiro de 2023. Durante a invasão às sedes dos Três Poderes, em Brasília, ela foi flagrada pichando com batom a frase "Perdeu, mané" na estátua da Justiça, localizada em frente ao STF. A frase se tornou um símbolo da tentativa de deslegitimação do resultado das eleições presidenciais de 2022, vencidas por Luiz Inácio Lula da Silva.
Débora foi condenada a 14 anos de prisão pelos crimes de golpe de Estado, abolição violenta do Estado democrático de Direito e dano qualificado ao patrimônio público. Atualmente, ela cumpre pena em regime de prisão domiciliar.
Entenda o que é o PL da Dosimetria
O Projeto de Lei da Dosimetria foi aprovado pelo Congresso Nacional com o objetivo de estabelecer critérios de proporcionalidade na fixação de penas para crimes como associação criminosa, abolição violenta do Estado democrático de Direito e golpe de Estado. A proposta permite que juízes considerem o grau de participação do réu na definição das penas, abrindo margem para punições mais brandas para aqueles que tiveram uma atuação secundária.
No entanto, o presidente Lula vetou o projeto, argumentando que ele poderia enfraquecer o rigor das sanções aplicadas contra os envolvidos nos ataques de 8 de janeiro. Em 30 de abril de 2026, o Congresso derrubou o veto presidencial, com 318 votos contrários e 144 favoráveis na Câmara dos Deputados, e 49 votos a 24 no Senado.
O papel de Alexandre de Moraes na decisão
Como relator dos processos relacionados aos atos de 8 de janeiro, Alexandre de Moraes tem desempenhado um papel central na aplicação das penas aos participantes. Em sua decisão sobre o pedido da defesa de Débora, o ministro destacou que, apesar da derrubada do veto pelo Congresso, o PL da Dosimetria ainda não foi promulgado nem publicado, condição indispensável para que a norma tenha validade jurídica.
"Não tendo ocorrido, até o momento, nem a promulgação, tampouco a publicação do diploma normativo, que, portanto, não está em vigor. Diante do exposto, julgo prejudicado o requerimento da Defesa", afirmou Moraes em seu despacho.
A controvérsia em torno da promulgação
Com a derrubada do veto, a responsabilidade pela promulgação do projeto recai inicialmente sobre o presidente da República. Caso ele não o faça, cabe ao presidente do Senado, atualmente Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), concluir o processo. Até o momento, não houve movimentação para a promulgação, o que mantém a norma em um limbo jurídico.
Essa situação gera debates entre especialistas. Alguns apontam que a demora pode ser interpretada como uma manobra política, enquanto outros ressaltam a complexidade do tema e a necessidade de cautela antes de validar uma norma com potencial impacto em centenas de processos judiciais em curso.
Repercussão e impacto político
A decisão de Moraes repercutiu intensamente no meio político e jurídico. Enquanto aliados do governo e defensores de penas rigorosas para os atos de 8 de janeiro elogiaram a decisão, parlamentares da oposição e aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro criticaram a postura do STF. O caso de Débora do Batom se tornou um exemplo simbólico das tensões que ainda cercam os desdobramentos daquele dia.
Para os críticos, a recusa em aplicar o PL da Dosimetria reflete um endurecimento da Justiça em relação aos réus dos atos de 8 de janeiro, o que, segundo eles, contraria princípios de proporcionalidade e justiça. Por outro lado, apoiadores da decisão argumentam que qualquer alteração na dosimetria das penas só deve ocorrer dentro do estrito cumprimento da lei, que, no caso, ainda não está em vigor.
O que está em jogo com o PL da Dosimetria?
Se promulgado, o PL da Dosimetria pode alterar significativamente o cenário jurídico para os réus dos atos de 8 de janeiro. Dos 849 condenados, muitos poderiam requerer revisões de penas, alegando participações menores nos crimes. Isso incluiria casos como o de Débora do Batom, cuja defesa tenta reclassificar sua conduta como menos grave.
No entanto, especialistas alertam que a aplicação retroativa de uma lei penal mais benéfica precisa ser analisada com cautela. Embora o princípio da retroatividade em favor do réu seja garantido pela Constituição, há dúvidas sobre como os tribunais irão interpretar e aplicar as novas normas.
A Visão do Especialista
A decisão de Alexandre de Moraes em relação a Débora do Batom reforça a posição do STF de que os atos de 8 de janeiro devem ser tratados com o máximo rigor dentro do arcabouço legal vigente. No entanto, a indefinição sobre a promulgação do PL da Dosimetria cria um cenário de incerteza jurídica que pode comprometer a previsibilidade e a estabilidade das decisões judiciais.
Especialistas alertam que o caso pode abrir precedentes importantes sobre a aplicação de normas penais mais benéficas, especialmente em contextos de grande polarização política. O desfecho deste episódio será crucial para definir os limites entre a justiça e a política no Brasil contemporâneo.
O que está claro é que o Brasil vive um momento de intenso debate jurídico e político, cujo desfecho terá implicações profundas para a democracia e o Estado de Direito. Resta observar como os atores políticos e judiciais irão conduzir esse processo nos próximos meses.
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