A cirurgiã Angelita Habr-Gama, uma das figuras mais proeminentes da medicina brasileira e mundial, faleceu no último sábado, 30 de maio de 2026, em São Paulo, aos 92 anos. Reconhecida como pioneira na coloproctologia e referência na cirurgia oncológica, Angelita acumulou avanços científicos e quebrou barreiras de gênero em uma área historicamente dominada por homens.
Quem foi Angelita Habr-Gama?
Nascida em 1933 na Ilha de Marajó, no Pará, Angelita era filha de imigrantes libaneses. Desde muito jovem, demonstrou determinação e coragem ao trilhar um caminho ainda pouco acessível às mulheres. Ingressou na Faculdade de Medicina da USP em 1952, aos 19 anos, em uma época em que as mulheres eram minoria absoluta no ensino médico e, particularmente, no campo da cirurgia.
Angelita tornou-se uma das figuras mais respeitadas da medicina ao longo de sua carreira. Foi a primeira mulher a ocupar a posição de professora titular de uma especialidade cirúrgica na USP e a primeira brasileira a ser aceita como membro honorário da renomada American Surgical Association. Em 2022, foi incluída na lista da Universidade de Stanford que destaca os 2% de cientistas mais influentes do mundo, um reconhecimento excepcional para um profissional brasileiro.
Os Pioneirismos Científicos
Um dos maiores legados de Angelita Habr-Gama foi o desenvolvimento do protocolo "Watch and Wait", que revolucionou o tratamento do câncer de reto. Essa abordagem inovadora demonstrou que, em pacientes selecionados com resposta completa à quimiorradioterapia, era possível evitar cirurgias mutiladoras, preservando o órgão e melhorando a qualidade de vida dos pacientes.
O impacto desta metodologia foi global, alterando diretrizes internacionais no tratamento da doença e beneficiando milhares de pessoas em todo o mundo. Ao longo de sua carreira, Angelita publicou mais de 200 artigos científicos indexados e recebeu mais de 50 prêmios nacionais e internacionais.
Superando Barreiras
Desde o início, Angelita enfrentou e superou inúmeros desafios. Quando optou por seguir a carreira de cirurgiã, ouviu de um chefe que aquele "não era um espaço para mulheres". Mais tarde, ao buscar uma especialização em cirurgia colorretal em Londres, foi inicialmente recusada por um hospital que só aceitava homens. Sua persistência e talento, no entanto, abriram portas que até então estavam fechadas.
Ela se tornou um símbolo de resistência e inspiração para mulheres na medicina, afirmando repetidamente que "a primeira coisa que a mulher precisa ter é autoconfiança e não aceitar o 'não' como resposta."
Reconhecimento Nacional e Internacional
Angelita foi uma figura de destaque no cenário médico nacional e internacional. Além de sua atuação no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, onde permaneceu por mais de seis décadas, ela fundou a disciplina de coloproctologia do Hospital das Clínicas da USP e presidiu importantes sociedades médicas no Brasil e na América Latina.
Entre seus inúmeros reconhecimentos, destacam-se o prêmio concedido pela Sociedade Europeia de Cirurgia e sua inclusão na já mencionada lista da Universidade de Stanford. Essas honrarias são testemunhos de sua dedicação inabalável à ciência e à medicina.
Uma Vida de Resiliência
Em 2020, Angelita enfrentou um dos maiores desafios de sua vida ao contrair Covid-19. Passou quase 50 dias sedada na UTI do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, mas sobreviveu e, com sua determinação de sempre, voltou ao trabalho apenas dez dias após receber alta. "Eu não quero morrer", foi o pensamento que a motivou durante sua recuperação.
Após essa experiência, Angelita passou a valorizar ainda mais os prazeres simples da vida e a compartilhar ensinamentos com seus alunos e colegas, inspirando gerações futuras de médicos e pesquisadores.
O Impacto de Angelita Habr-Gama na Medicina
A contribuição de Angelita para a medicina brasileira é inegável. Além de seus avanços científicos, ela desempenhou um papel fundamental na formação de novos especialistas, ajudando a consolidar a coloproctologia no Brasil e tornando o país referência na área.
Seu trabalho também trouxe à tona questões importantes sobre o papel da mulher na ciência. Angelita sempre defendeu que as mulheres precisavam ocupar mais espaços de destaque e que a ciência brasileira necessitava de maior valorização e investimentos para continuar avançando.
Notas de Pesar
Após sua morte, diversas instituições e colegas expressaram seu pesar e destacaram o impacto de Angelita na medicina. O Hospital Alemão Oswaldo Cruz, onde trabalhou por décadas, afirmou que sua perda é "irreparável para a medicina brasileira". A Sociedade Brasileira de Coloproctologia a classificou como "uma líder inconteste, professora por excelência, pesquisadora incansável e cientista brilhante."
A Visão do Especialista
A morte de Angelita Habr-Gama representa uma perda significativa para a medicina, mas também reforça a importância de seu legado. Seu trabalho pioneiro, principalmente no tratamento do câncer de reto, continuará salvando vidas e guiando novas gerações de médicos e cientistas.
Angelita deixa uma lição essencial: a ciência e a medicina são campos que exigem não apenas conhecimento técnico, mas também coragem, resiliência e dedicação. Sua trajetória é um exemplo claro de como a determinação pode transformar não apenas uma vida, mas o futuro de uma profissão inteira.
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