O Brasil perdeu, na última quinta-feira (4), Alfredo Bertini, um dos nomes mais influentes do cinema nacional e da gestão cultural. Aos 65 anos, o economista e produtor cultural faleceu devido a complicações decorrentes de um transplante de fígado realizado na quarta-feira (3). A notícia foi confirmada pelo Cine PE, festival que Bertini fundou e liderou por três décadas ao lado de sua esposa, Sandra Bertini. Ele deixa um legado marcante na história do audiovisual brasileiro.

Uma vida dedicada ao cinema e à cultura
Alfredo Bertini nasceu em Pernambuco e formou-se em Economia, tendo obtido o doutorado pela Universidade de São Paulo (USP). Apesar de sua formação em ciências exatas, foi no campo da cultura e do cinema que ele encontrou sua verdadeira paixão. Em 1997, fundou o Cine PE, um dos festivais de cinema mais importantes do Brasil, que se tornou referência para o setor audiovisual, especialmente no Nordeste.
O Cine PE não apenas revelou novos talentos, mas também se consolidou como um espaço de diálogo e fortalecimento da cultura audiovisual nacional. Sob a gestão de Bertini, o festival tornou-se um marco na promoção do cinema independente, atraindo cineastas, produtores e artistas de todo o país.
Carreira pública e contribuições ao audiovisual
Além de sua atuação no Cine PE, Bertini desempenhou papéis importantes na administração pública. Ele foi secretário-adjunto do governo de Pernambuco entre 1994 e 1995, e assumiu a Secretaria de Turismo e Esportes da Prefeitura do Recife entre 2004 e 2005. Em 2016, durante o governo de Michel Temer, foi nomeado secretário nacional do Audiovisual no Ministério da Cultura, posição em que trabalhou para fortalecer políticas públicas voltadas ao setor.
Bertini também era autor de obras relevantes, como "O Estado Inflexível" (1994), "Quando o caso é de cinema, a paixão é um festival" (2006) e "A economia da cultura" (2008), reforçando sua visão sobre a intersecção entre economia e cultura.
Repercussão no meio artístico e cultural
A morte de Alfredo Bertini gerou uma onda de comoção no meio cultural. Diversos artistas e cineastas manifestaram publicamente suas condolências e destacaram a importância de seu trabalho. O consagrado cineasta Kleber Mendonça Filho afirmou: "Que o Cine PE continue fazendo parte do panorama diverso do audiovisual pernambucano e brasileiro. Meus sentimentos à família."
O cineasta cearense Rosemberg Cariry também lamentou a perda, destacando que Bertini foi um homem que "sempre uniu pessoas e apontou futuros, de forma muito positiva". Entre outros nomes que expressaram pesar nas redes sociais estão os atores Caio Blat, Julio Andrade e Vinícius de Oliveira, que ressaltaram o impacto do trabalho de Bertini no setor cinematográfico.
O impacto do Cine PE no cinema brasileiro
Desde sua fundação, o Cine PE desempenhou um papel essencial na formação e na consolidação de carreiras no cinema nacional. O festival foi responsável por abrir espaço para obras de cineastas emergentes e por fomentar o diálogo entre profissionais do setor. Por três décadas, o evento celebrou a diversidade cultural do Brasil e ajudou a projetar o cinema pernambucano no cenário nacional e internacional.
Apesar do falecimento de seu criador, a atual edição do Cine PE, que celebra 30 anos de história, seguirá com sua programação. Segundo a organização, essa decisão reflete o desejo de Bertini de manter a cultura viva e pulsante, mesmo em momentos de adversidade.
Desafios enfrentados e a luta pela vida
Bertini enfrentava problemas de saúde relacionados ao fígado há algum tempo. Ele foi internado no Hospital Nossa Senhora das Neves, em João Pessoa, onde realizou dois transplantes em um curto intervalo de tempo. No entanto, complicações decorrentes do segundo procedimento culminaram em seu falecimento. O velório foi realizado na sede social do Sport Club do Recife, clube do coração de Bertini, que também expressou luto e prestou homenagens em nota oficial.
Homenagens póstumas e continuidade do legado
Durante a programação do Cine PE, uma homenagem especial a Bertini foi integrada ao evento, destacando a importância de seu trabalho para a cultura brasileira. A solenidade de entrega do prêmio à atriz Claudia Abreu foi adiada em respeito ao momento de luto, sendo remarcada para o sábado (6).
A perda de Bertini deixa um vácuo profundo no cinema brasileiro, mas também uma inspiração para que novas gerações continuem seu trabalho de fortalecimento do audiovisual nacional. Sua dedicação ao setor cultural e sua visão de futuro são legados que permanecerão vivos.
A Visão do Especialista
A morte de Alfredo Bertini acontece em um momento em que o cinema nacional enfrenta desafios significativos, desde o impacto da pandemia até os cortes orçamentários em políticas públicas de incentivo cultural. No entanto, o legado de Bertini é um lembrete poderoso da importância de iniciativas regionais como o Cine PE para a descentralização e democratização do acesso ao cinema no Brasil.
Especialistas apontam que a continuidade do festival será crucial para manter vivos os ideais de Bertini e para suportar o setor audiovisual em um país que ainda luta para consolidar sua indústria cinematográfica. Além disso, sua trajetória no serviço público e suas contribuições teóricas evidenciam a necessidade de um olhar estratégico sobre a economia da cultura, em um momento em que o Brasil busca redefinir seu papel no cenário global.
Bertini deixa um legado que vai muito além do Cine PE. Ele nos ensina que a cultura e a arte são forças transformadoras, capazes de conectar pessoas e projetar novos futuros. Como disse Rosemberg Cariry, "ele sempre uniu pessoas e apontou futuros". Que esse seja o caminho para o cinema brasileiro daqui em diante.
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