O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) instaurou um procedimento para apurar a aprovação e implementação de uma lei municipal que permite a emissão automática de alvarás para obras de até 1.500 m² na capital paulista. A medida, que substitui o licenciamento técnico prévio por um sistema autodeclaratório, tem gerado controvérsias e levantado preocupações sobre segurança urbana e fiscalização.

Entenda a nova legislação

A lei, aprovada em dezembro de 2025 pela Câmara Municipal de São Paulo, foi proposta pelo Executivo e estabelece um sistema eletrônico que emite automaticamente alvarás para obras de pequeno porte. O objetivo declarado é agilizar o processo de licenciamento e promover a modernização administrativa.

De acordo com a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, o sistema utiliza validação automática e cruzamento de dados oficiais da Prefeitura para evitar inconsistências e desconformidades. Proprietários e responsáveis técnicos continuam sendo responsabilizados pela veracidade das informações prestadas e pela execução correta das obras.

Tramitação e críticas

O projeto de lei foi apresentado à Câmara em 25 de novembro de 2025 e aprovado em 10 de dezembro do mesmo ano, com 31 votos favoráveis e 13 contrários após passar por duas audiências públicas. Contudo, a Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos Municipais de São Paulo (Seam) questiona a celeridade da tramitação e a ausência de estudos técnicos e audiências públicas mais amplas.

Segundo a Seam, a substituição do licenciamento técnico por um sistema declaratório pode comprometer a segurança das edificações, reduzir o controle urbanístico e infringir normas de uso e ocupação do solo estabelecidas pela Constituição Federal.

Ação do MP-SP

O MP-SP, por meio da promotora de Justiça Marcela Calvente, solicitou explicações ao Executivo e ao Legislativo municipais sobre os mecanismos de fiscalização e auditoria do sistema, além de cópias de eventuais estudos técnicos que embasaram a proposta. O objetivo é verificar a legalidade e regularidade do processo de aprovação da lei.

Argumentos da Prefeitura e da Câmara

Em nota oficial, a Prefeitura de São Paulo afirmou que a modernização dos processos não implica em redução da fiscalização. A administração municipal assegurou que o rito autodeclaratório não dispensa as exigências já estabelecidas pela legislação edilícia vigente.

Já a Câmara Municipal destacou que a tramitação seguiu estritamente os procedimentos legais, incluindo debates em comissões e aprovação em dois turnos de votação no Plenário.

Impactos no mercado de construção

Especialistas apontam que a nova lei pode ter um impacto significativo no mercado imobiliário e na construção civil. A simplificação do processo de emissão de alvarás pode beneficiar pequenos empreendedores, reduzindo a burocracia e os custos operacionais.

No entanto, há preocupação com o aumento de obras irregulares ou em desconformidade com normas de segurança, caso o sistema de fiscalização não seja robusto o suficiente para detectar inconsistências.

Precedentes históricos

Outras cidades brasileiras já adotaram sistemas similares para reduzir prazos de licenciamento de obras. Em geral, essas iniciativas buscam equilibrar agilidade administrativa com garantia de segurança e conformidade técnica. Entretanto, casos de irregularidades e falta de fiscalização eficiente são frequentemente relatados.

Próximos passos

Enquanto o MP-SP realiza a apuração, o Executivo e o Legislativo devem apresentar as informações solicitadas e esclarecer os pontos questionados. A Seam segue acompanhando o caso e pode ingressar com novas ações dependendo dos desdobramentos.

A tabela: Cronologia da aprovação

Data Evento
25 de novembro de 2025 Projeto apresentado à Câmara Municipal
10 de dezembro de 2025 Aprovação em dois turnos no Plenário
06 de janeiro de 2026 MP-SP instaura procedimento para apuração

A Visão do Especialista

De acordo com o advogado Fábio Scolari Vieira, que representa a Seam, "o controle prévio não é uma burocracia dispensável, mas uma garantia mínima de segurança coletiva e organização urbana." Ele alerta que o modelo autodeclaratório pode levar a problemas consolidados de difícil reversão.

Especialistas em urbanismo recomendam que sistemas eletrônicos sejam acompanhados por auditorias frequentes e mecanismos de revisão técnica para evitar falhas e garantir que as obras atendam às normas de segurança e uso urbano.

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