Um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados promete endurecer as sanções para motoristas que dirigirem sob efeito de álcool e se envolverem em acidentes graves, como aqueles que resultam em morte ou invalidez permanente. A proposta, identificada como Projeto de Lei 3.574/2024, prevê multas que podem alcançar até R$ 29.347 e suspensão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) por até 10 anos. O texto ainda inclui a obrigatoriedade de o infrator arcar com despesas médicas e indenizações às vítimas. De autoria do ex-deputado Gilvan Máximo, o projeto está em análise na Comissão de Viação e Transportes e ainda necessita de aprovação em diversas instâncias para entrar em vigor.
O que diz o Projeto de Lei 3.574/2024?
O Projeto de Lei 3.574/2024 propõe um aumento significativo nas penalidades para motoristas que forem flagrados dirigindo sob o efeito de álcool e causarem acidentes com consequências graves. Entre as principais medidas estão:
- Multa de até R$ 29.347: Em casos de acidentes que resultem em morte, a multa será calculada como 100 vezes o valor de uma infração gravíssima, atualmente fixado em R$ 293,47.
- Suspensão da CNH por até 10 anos: Para acidentes com morte, o motorista terá sua habilitação suspensa por uma década. Em casos de invalidez permanente, a suspensão será de cinco anos.
- Indenizações e despesas médicas: O infrator será obrigado a custear as despesas médicas das vítimas e poderá ser condenado a pagar indenizações de até 10 vezes o valor da infração gravíssima, ou seja, até R$ 14.673,50 em caso de morte.
Contexto: A evolução da Lei Seca no Brasil
Desde sua criação em 2008, a Lei Seca (Lei 11.705/2008) tem sido um marco no combate à embriaguez ao volante no Brasil. Inicialmente, a legislação previa multa de R$ 955 e a suspensão da CNH por 12 meses para motoristas flagrados dirigindo sob efeito de álcool. Ao longo dos anos, o texto foi aprimorado, incluindo a tolerância zero para o consumo de álcool no trânsito e o aumento progressivo das penalidades.
A atual legislação estabelece que motoristas flagrados com qualquer concentração de álcool no organismo podem ser multados em R$ 2.934,70 e ter a CNH suspensa por 12 meses. Em casos de reincidência dentro de 12 meses, a multa é dobrada, chegando a R$ 5.869,40.
Como funciona a tramitação do projeto?
O Projeto de Lei 3.574/2024 segue o rito legislativo padrão. Atualmente, está na Comissão de Viação e Transportes, onde será avaliado pelo relator, o deputado Marcos Tavares. Após a análise, o texto será encaminhado para outras comissões, como a de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC), antes de ser votado no plenário da Câmara dos Deputados.
Se aprovado na Câmara, o projeto seguirá para o Senado Federal. Caso também receba aprovação dos senadores, será enviado para sanção ou veto pelo Presidente da República. Apenas após esses trâmites, a proposta poderá ser transformada em lei e entrar em vigor.
Impactos esperados
Com base nos dados mais recentes do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), o Brasil registrou cerca de 30 mil mortes no trânsito em 2025, sendo que uma parcela significativa desses acidentes foi causada por motoristas alcoolizados. A proposta de endurecimento das penas tem como objetivo principal a redução desses números alarmantes.
Entretanto, especialistas alertam que o aumento das penas precisa ser acompanhado de maior fiscalização e campanhas educativas. Estudos internacionais mostram que a combinação de fiscalização eficiente e conscientização é mais eficaz na redução de acidentes do que o simples aumento de penalidades.
Comparativo: Multas e punições em outras legislações
| País | Limite de álcool no sangue (g/L) | Multa máxima | Suspensão de habilitação |
|---|---|---|---|
| Brasil (proposta) | 0,0 | R$ 29.347 | Até 10 anos |
| Estados Unidos | 0,8 | US$ 10.000 (aprox. R$ 50.000) | Até 10 anos (varia por estado) |
| Reino Unido | 0,8 | £5.000 (aprox. R$ 31.000) | Até 3 anos |
| Austrália | 0,5 | AUD 3.300 (aprox. R$ 10.900) | Até 6 anos |
Reações e repercussões
A proposta tem gerado debates acalorados entre especialistas e a sociedade civil. Enquanto algumas associações de trânsito, como a Frente Parlamentar em Defesa do Trânsito Seguro, endossam as medidas mais rígidas, outros setores questionam a efetividade do projeto, argumentando que o problema central está na falta de fiscalização e aplicação das leis já existentes.
Por outro lado, famílias de vítimas de acidentes de trânsito têm se manifestado favoravelmente, defendendo que penas mais severas podem inibir o comportamento irresponsável de motoristas que insistem em dirigir sob efeito de álcool.
A Visão do Especialista
Especialistas em legislação e trânsito apontam que o endurecimento das penalidades é um passo importante, mas não deve ser encarado como uma solução isolada. Para que as mudanças tenham impacto significativo, será necessário um investimento robusto em fiscalização, melhoria da infraestrutura viária e campanhas educativas sobre os riscos do álcool ao volante.
Além disso, a proposta de responsabilizar financeiramente os infratores pelas despesas médicas e indenizações é vista como uma medida inovadora, mas que pode enfrentar desafios na sua implementação, especialmente no que diz respeito à capacidade de pagamento dos motoristas condenados.
Ainda é cedo para prever quando – ou se – o projeto será aprovado e sancionado. Contudo, a discussão abre espaço para reflexões mais amplas sobre a segurança viária no Brasil e a necessidade de ações integradas para reduzir os índices de acidentes e mortes no trânsito.
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