Nos últimos 10 anos, apenas 1 em cada 10 treinadores da Série A do futebol brasileiro é negro. Em um país onde pretos e pardos representam 56% da população, segundo o IBGE, essa disparidade expõe um problema estrutural que transcende o esporte. O futebol, considerado um reflexo da sociedade, evidencia o impacto do racismo em posições de liderança, mesmo em um cenário onde a maioria dos jogadores é negra.

Jornalista segurando um gráfico estatístico sobre diversidade racial em treinadores da Série A.
Fonte: www.uol.com.br | Reprodução

Uma análise histórica: o racismo estrutural no futebol

Historicamente, o futebol brasileiro sempre foi marcado por questões raciais. Desde o início, jogadores negros enfrentaram preconceito e, por décadas, foram marginalizados. Hoje, embora a representatividade entre os atletas tenha aumentado — cerca de 57,9% dos jogadores da Série A e B são negros, segundo estudo da USP de 2024 — essa evolução não se reflete nos cargos de liderança técnica.

O racismo estrutural, que permeia diversas camadas da sociedade brasileira, é apontado como o principal fator para essa discrepância. Segundo Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, "o futebol tolera negros, mas não os aceita plenamente". Isso se reflete na baixa presença de treinadores negros na elite do esporte.

Jornalista segurando um gráfico estatístico sobre diversidade racial em treinadores da Série A.
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Dados alarmantes sobre a representatividade

Um levantamento realizado entre 2016 e 2026 identificou que, dos 159 técnicos que passaram pela Série A nesse período, apenas 11% eram pretos ou pardos. Para contextualizar, a população branca está super-representada nesses cargos, ocupando quase o dobro de sua proporção na sociedade.

Ano Total de Técnicos Técnicos Negros Percentual
2016-2026 159 17 11%

Essa sub-representação não é apenas estatística, mas reflete uma barreira cultural e estrutural. Como explica Santa de Souza, responsável por uma banca de heteroidentificação racial utilizada no estudo, "O racismo estrutural impede que negros sejam vistos como líderes intelectuais capazes de comandar equipes na elite".

Comparativo entre jogadores e técnicos

Enquanto a maioria dos jogadores na Série A e B são negros, a proporção cai drasticamente quando se trata de treinadores. Esse dado revela um padrão preocupante: a liderança, que exige maior visibilidade e poder decisório, ainda é negada aos profissionais negros.

Segundo o pesquisador Donald Veronico, da USP, "60% dos jogadores são negros, mas apenas 10% dos treinadores pertencem ao mesmo grupo racial". Isso demonstra que, embora o talento esportivo seja reconhecido, a competência para ocupar cargos de liderança é questionada.

Casos emblemáticos: Roger Machado e Jair Ventura

Entre os poucos nomes negros que chegaram à elite do futebol brasileiro, destacam-se Roger Machado e Jair Ventura. Machado, que comandou o São Paulo em 2026, foi demitido após uma oscilação de desempenho, mesmo com um aproveitamento de 57% nos primeiros jogos. Sua saída gerou reflexões sobre a falta de paciência com técnicos negros.

Já Jair Ventura, atualmente à frente do Vitória, é o único técnico negro na Série A em 2026. Sua trajetória, marcada por altos e baixos, reflete os desafios enfrentados por profissionais negros em um ambiente que historicamente questiona sua capacidade de liderança.

O impacto no mercado esportivo

A baixa representatividade de técnicos negros na Série A tem repercussões diretas no mercado esportivo. Além de limitar oportunidades para profissionais qualificados, essa realidade reforça estereótipos e perpetua desigualdades. A ausência de diversidade nas comissões técnicas também afeta a formação de jovens atletas, que carecem de referências negras em posições de liderança.

Marcelo Carvalho enfatiza: "Negros e negras são constantemente silenciados no futebol por medo de represálias, como o que aconteceu com Roger Machado". Esse cenário cria um ciclo vicioso, onde a falta de representatividade se perpetua.

Racismo estrutural: do futebol à sociedade

Os dados sobre treinadores negros no futebol brasileiro são apenas uma faceta do racismo estrutural que permeia a sociedade. Em cargos gerenciais fora do esporte, pretos e pardos também enfrentam barreiras significativas. Segundo pesquisa do IBGE, gerentes negros ganham 34% menos que seus colegas brancos.

Cargo Renda Média (Brancos) Renda Média (Negros) Diferença
Gerentes R$ 9.831 R$ 6.446 34%

Essa realidade está diretamente conectada ao que ocorre no futebol. Como Roger Machado pontuou: "O futebol amplifica e cristaliza o que somos como sociedade."

A Visão do Especialista

O cenário de sub-representação de treinadores negros na Série A aponta para a necessidade urgente de mudanças estruturais. Para avançar, é essencial que clubes, federações e entidades esportivas implementem políticas de inclusão e equidade racial, promovendo oportunidades para profissionais qualificados.

Além disso, é fundamental que o debate sobre racismo no futebol ganhe espaço, permitindo que vozes como a de Roger Machado sejam ouvidas sem medo de represálias. O esporte tem o poder de transformar realidades, mas para isso, precisa enfrentar suas próprias desigualdades.

Jornalista segurando um gráfico estatístico sobre diversidade racial em treinadores da Série A.
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