Um Fusca "dissecado" e suspenso no ar, revelando cada uma de suas partes como se fossem peças de um quebra-cabeça tridimensional. Essa é a imagem que mais tem chamado atenção na nova exposição do Masp, intitulada "Matéria e Energia", dedicada ao trabalho do renomado artista visual mexicano Damián Ortega. A obra, batizada de "Coisa Cósmica" (Cosmic Thing), é um dos 35 trabalhos que compõem a mostra, aberta ao público até 13 de setembro de 2026. Mas o que está por trás dessa exibição impactante e como ela dialoga com o legado artístico de Ortega? Vamos explorar.

Exposição do Masp apresenta Fusca
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

O que é "Coisa Cósmica" e por que ela impressiona?

Criada em 2002, "Coisa Cósmica" é uma das obras mais icônicas de Damián Ortega. O trabalho desconstrói um Fusca 1989 em suas peças individuais, suspensas por cabos de aço, criando uma ilusão de explosão congelada no tempo. A obra não apenas revela a complexidade mecânica do veículo, mas também convida o público a refletir sobre o impacto cultural e industrial do automóvel no século XX.

O Fusca, conhecido mundialmente por sua simplicidade e durabilidade, é um símbolo cultural marcante, especialmente na América Latina. Ortega utiliza essa familiaridade para criar uma conexão imediata com o público, ao mesmo tempo em que desconstrói a ideia de funcionalidade e utilitarismo, transformando o carro em uma obra de arte conceitual.

Exposição do Masp apresenta Fusca
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O contexto histórico e cultural da exposição

A exposição "Matéria e Energia" cobre o trabalho de Ortega desde 1992 até 2026, traçando um panorama de suas experimentações artísticas. O artista, que começou sua carreira como cartunista político no México, traz para suas obras influências de questões sociais, econômicas e culturais, refletindo sobre os materiais do cotidiano.

O México, terra natal de Ortega, possui uma longa tradição de arte pública e engajada, influenciada por muralistas como Diego Rivera e José Clemente Orozco. Ortega, no entanto, moderniza essa tradição ao explorar as narrativas ocultas de objetos comuns, como carros, ferramentas e alimentos, transformando-os em veículos de crítica social e cultural.

Uma perspectiva global: do Guggenheim ao Masp

"Coisa Cósmica" já foi exibida em espaços de prestígio como o Museu Guggenheim, em Nova York, mas sua instalação no Masp oferece uma experiência única. Localizada entre o primeiro e o segundo subsolo do prédio icônico projetado por Lina Bo Bardi, a obra pode ser contemplada de múltiplos ângulos, incluindo uma vista de cima, graças às rampas de acesso do museu. Essa configuração amplia a percepção do público sobre a tridimensionalidade do trabalho.

A exposição no Masp marca a primeira grande mostra panorâmica de Damián Ortega na América Latina, um retorno simbólico ao continente que tanto influenciou sua arte. O próprio artista descreveu sua relação com o Brasil como especial, tendo visitado o país pela primeira vez em 1988 e até morado por um tempo no Rio de Janeiro.

A abordagem única de Ortega: arte do cotidiano

Uma das características marcantes do trabalho de Ortega é a escolha de materiais inusitados. Na exposição, além do Fusca "dissecado", os visitantes podem encontrar esculturas feitas de tortilhas de milho, ferramentas suspensas que simulam explosões e até mesmo 150 garrafas de Coca-Cola moldadas em cerâmica. Essas escolhas refletem uma busca por transformar os objetos do dia a dia em narrativas visuais profundas.

Segundo Yudi Rafael, curador assistente da mostra, o trabalho de Ortega vai além da estética: "Ele faz variações do mesmo tema. E seu trabalho pode ser visto menos de um viés produtivo e mais de investigação, de experimentação. E é possível também investigar quais narrativas fazem parte desses materiais." Essa abordagem interdisciplinar conecta arte, ciência, história e cultura, oferecendo múltiplos pontos de entrada para o espectador.

Impacto no mercado de arte e na cultura contemporânea

Damián Ortega é um dos artistas mais influentes do México e seu trabalho tem ressonância global. A exposição no Masp reafirma a posição do Brasil como um centro cultural na América Latina, atraindo obras de artistas internacionais e promovendo um intercâmbio cultural significativo. O mercado de arte contemporânea, que tem crescido exponencialmente na região, também se beneficia do destaque dado a artistas como Ortega.

Além disso, a escolha de materiais como cimento, cerâmica e objetos cotidianos reflete uma tendência na arte contemporânea de explorar questões de sustentabilidade e consumo. Essas obras não apenas questionam os sistemas econômicos, mas também oferecem uma nova perspectiva sobre a relação entre o homem e os objetos que cria.

Próximos passos da exposição

Após o encerramento no Masp, "Matéria e Energia" seguirá para o Centro Cultural Palacio de La Moneda, em Santiago, Chile. A itinerância da exposição reflete seu apelo universal e a relevância das questões abordadas por Ortega. Além disso, a mostra será acompanhada por um catálogo bilíngue (português e inglês no Brasil, espanhol no Chile), ampliando seu alcance e impacto.

A Visão do Especialista

A exposição "Matéria e Energia" não é apenas uma celebração do trabalho de Damián Ortega; ela é um chamado à reflexão sobre nossa relação com o mundo material. Ao transformar objetos cotidianos em arte, Ortega nos convida a questionar o papel do consumo, da produção em massa e da memória cultural. Sua obra transcende o espaço físico e se estabelece como um comentário sobre a condição humana e o mundo em que vivemos.

Exposição do Masp apresenta Fusca
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Para o público brasileiro, a mostra é uma oportunidade rara de entrar em contato com uma arte que une o local e o global, o simples e o complexo, o histórico e o contemporâneo. Compartilhe essa reportagem com seus amigos e aproveite para explorar essa fascinante exposição no Masp, que promete ser um dos grandes eventos culturais do ano.