Um novo código de ética publicado pelo Conselho Federal de Nutrição (CFN) tem gerado intensa discussão entre os profissionais da área e nas redes sociais. A principal polêmica envolve a proibição da divulgação de "antes e depois" de pacientes, além da manutenção do veto a críticas públicas sobre a conduta de outros nutricionistas. A resolução, que visa proteger a população e regular a prática profissional, enfrenta resistência por parte da categoria, que a considera excessivamente restritiva.

Nutricionista examinando documentos em uma sala de imprensa com jornalistas em fundo.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

Contexto histórico e objetivo das novas regras

O Código de Ética do CFN é um documento que regula a conduta dos nutricionistas no Brasil. Desde 2018, já havia restrições quanto à exposição de resultados de pacientes, como fotos corporais. O novo texto, no entanto, amplia essas proibições, incluindo imagens geradas por IA, dados laboratoriais, gráficos e até informações sobre o próprio corpo do nutricionista.

Segundo o CFN, a medida foi elaborada para proteger a saúde mental dos pacientes, especialmente crianças e adolescentes, evitando impactos negativos relacionados à exposição de imagens e dados sensíveis. O órgão também destacou que o processo de construção do código envolveu consultas públicas e revisão por Conselhos Regionais.

Repercussão no mercado e nas redes sociais

A reação dos nutricionistas tem sido diversa. Enquanto alguns apoiam as mudanças, outros alegam que as restrições dificultam a prática profissional e a comunicação com o público. O nutricionista Felipe Almeida, com 380 mil seguidores no Instagram, iniciou uma petição online contra as novas regras, que já reúne mais de 23 mil assinaturas.

Almeida argumenta que, ao proibir a divulgação de resultados, mesmo com autorização dos pacientes, o código limita a possibilidade de educar a população sobre os benefícios de uma alimentação adequada. "Não podemos postar nem mesmo a melhora de um hemograma, o que é essencial para mostrar o impacto positivo da nutrição na saúde", afirmou.

Impactos na prática profissional

As restrições também afetam a forma como os nutricionistas interagem com a desinformação nas redes. De acordo com o novo código, é proibido "difamar ou depreciar" a conduta de outros profissionais. Para os críticos, essa norma pode limitar o combate à pseudociência e à disseminação de informações incorretas sobre nutrição.

"Se eu rebater a publicação de alguém que diz, por exemplo, que arroz e feijão diminuem testosterona, corremos o risco de sermos processados por essa pessoa. Isso nos coloca numa posição vulnerável e prejudica a luta contra a desinformação", explica Almeida.

O impacto das redes sociais na nutrição

Com o crescimento das plataformas digitais, a nutrição tornou-se um tema popular, mas também alvo de desinformação. Indivíduos sem formação na área têm propagado mitos e práticas questionáveis sobre alimentação, enquanto os nutricionistas enfrentam restrições para se expressarem.

Para Desire Coelho, doutora em Ciências e especialista em Transtornos Alimentares pela USP, o novo código pode ampliar a influência de conteúdos pseudocientíficos. "Se o nutricionista fica cada vez mais podado, outras pessoas vão falar. E muitas vezes, essas informações apelativas ganham mais espaço", pondera.

O dilema do "antes e depois"

Embora o CFN argumente que a proibição de imagens de "antes e depois" previne transtornos alimentares e comparações prejudiciais, alguns profissionais defendem maior flexibilidade. Para eles, divulgar resultados, como a melhora de exames laboratoriais, pode ser feito de forma ética e educativa.

"Fotos corporais remetem à estética, que não tem relação direta com saúde, mas exames são biomarcadores importantes. Mostrar uma glicemia que diminuiu, por exemplo, tem caráter educativo e não traz riscos", explica Coelho.

Outras mudanças no código

O novo código também traz avanços importantes. Entre eles, está a proibição de que nutricionistas se identifiquem com títulos que não possuem, como "especialista em SOP" ou "especialista em emagrecimento". Além disso, foi permitido o uso de inteligência artificial para tarefas administrativas, desde que não substitua a interação direta entre nutricionista e paciente.

O descumprimento das normas pode resultar em penalidades que vão de advertências e multas até a suspensão definitiva do registro profissional.

Consulta pública e próximos passos

Após críticas, o CFN abriu uma nova consulta pública, ativa até 13 de junho de 2026, para coletar sugestões dos profissionais. A presidente do Conselho, Manuela Dolinsky, destacou que o código não será revogado, mas pode passar por ajustes baseados nas contribuições recebidas.

"Queremos ouvir para agir, mas ainda precisaremos avaliar o que for colocado. Alterações são possíveis, mas revogar o código não está em pauta", afirmou Dolinsky, justificando que a construção do documento levou anos e envolveu amplo processo de discussão.

A visão do especialista

As novas regras do CFN refletem um esforço para regulamentar a prática nutricional em um cenário cada vez mais influenciado pelas redes sociais e pela desinformação. No entanto, o equilíbrio entre proteção ao público e liberdade de atuação dos profissionais ainda parece distante.

Para que o código seja eficaz, é fundamental que o Conselho encontre formas de permitir a divulgação de resultados que informem e eduquem, sem cair em promessas sensacionalistas. Além disso, a clareza na redação dos artigos é essencial para evitar interpretações ambíguas que possam levar a penalizações injustas.

Por fim, é crucial que o CFN intensifique esforços para proteger os nutricionistas no combate à desinformação, promovendo um ambiente onde o conhecimento científico prevaleça sobre a pseudociência. O diálogo entre o Conselho e os profissionais será determinante para garantir que as normas atendam aos interesses da saúde pública e da categoria.

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