O pão, um dos alimentos mais consumidos no mundo, é frequentemente visto como um item básico na dieta. No entanto, quando falamos de pães industrializados, surge a dúvida: eles podem ser considerados alimentos ultraprocessados? Segundo o sistema NOVA, desenvolvido pela Universidade de São Paulo (USP), a resposta depende do grau de processamento e dos ingredientes utilizados. Essa classificação tem sido amplamente utilizada para alertar sobre os riscos associados ao consumo excessivo de produtos ultraprocessados, como doenças cardiovasculares, diabetes e até morte precoce.

Imagem de um pão com ingredientes químicos visíveis em uma mesa de laboratório.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

O que é o Sistema NOVA?

O sistema NOVA foi criado por pesquisadores da USP para categorizar alimentos com base no seu nível de processamento. Ele divide os alimentos em quatro grupos principais:

  • Grupo 1: Alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, verduras, carnes frescas, leite e ovos.
  • Imagem de um pão com ingredientes químicos visíveis em uma mesa de laboratório.
    Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução
  • Grupo 2: Ingredientes culinários processados, como óleos, sal e açúcar.
  • Grupo 3: Alimentos processados, que combinam itens dos dois primeiros grupos, como pães caseiros, queijos e conservas.
  • Grupo 4: Alimentos ultraprocessados, que contêm ingredientes industriais como emulsificantes, corantes, aromatizantes e conservantes.

Essa categorização ajuda a diferenciar alimentos que passaram por pouca ou nenhuma modificação daqueles que são altamente industrializados e possuem aditivos artificiais.

O pão é ultraprocessado?

Nem todo pão é ultraprocessado. Pães caseiros, feitos com farinha, água, sal e fermento, são classificados como alimentos processados (Grupo 3). Já pães industrializados muitas vezes entram na categoria de ultraprocessados (Grupo 4), pois contêm conservantes, melhoradores de textura, emulsificantes, corantes e aromatizantes. Esses aditivos são introduzidos para aumentar a vida útil do produto e melhorar a experiência sensorial, mas podem ter impacto negativo na saúde quando consumidos em excesso.

Por que os ultraprocessados são um problema?

Estudos apontam que alimentos ultraprocessados estão associados a diversos problemas de saúde. De acordo com uma pesquisa publicada em 2023 no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, mulheres que consumiam grandes quantidades de ultraprocessados tinham 39% mais chances de desenvolver hipertensão. Outro estudo com mais de 325 mil participantes mostrou que cada aumento de 10% no consumo diário desses alimentos estava associado a um risco 6% maior de doenças cardíacas.

Os ultraprocessados são frequentemente ricos em calorias, gorduras saturadas, açúcares e sódio, ao mesmo tempo que possuem baixo valor nutricional. Além disso, há evidências sugerindo que aditivos químicos usados nesses alimentos podem interferir negativamente na saúde intestinal, agravando doenças metabólicas e cardiovasculares.

A evolução do consumo de ultraprocessados no Brasil

No Brasil, o consumo de ultraprocessados mais que dobrou nas últimas décadas. Dados da USP indicam que, na década de 1980, esses alimentos representavam cerca de 10% da dieta dos brasileiros. Hoje, esse número é de 23%. Isso reflete o crescimento da indústria alimentícia, o aumento da urbanização e o apelo do marketing em torno da praticidade e sabor desses produtos.

Os pães industrializados: vilões ou aliados?

Embora pães industrializados sejam frequentemente classificados como ultraprocessados, nem todos são igualmente prejudiciais. Alguns contêm ingredientes adicionais, como grãos integrais e sementes, que podem aumentar seu valor nutricional. No entanto, a presença de aditivos químicos, como estabilizantes, conservantes e adoçantes artificiais, é o que os coloca na categoria de ultraprocessados.

A análise cuidadosa dos rótulos é essencial para identificar opções mais saudáveis. Evitar pães com uma longa lista de ingredientes, especialmente aqueles que incluem substâncias químicas desconhecidas, é uma estratégia recomendada por especialistas.

O impacto na saúde pública

A alta ingestão de ultraprocessados é um problema de saúde pública, não apenas no Brasil, mas globalmente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem destacado a necessidade de limitar o consumo desses alimentos como uma das maneiras de combater a obesidade, o diabetes tipo 2 e outras condições crônicas. O sistema NOVA, por sua vez, tem sido uma ferramenta eficaz para embasar políticas públicas e guiar escolhas alimentares mais saudáveis.

Alternativas ao pão ultraprocessado

Para quem deseja reduzir o consumo de pães ultraprocessados, há várias alternativas saudáveis:

  • Preparar o próprio pão em casa, utilizando ingredientes simples e naturais.
  • Optar por pães artesanais de padarias que utilizem poucos ingredientes e evitem aditivos.
  • Substituir o pão por alternativas como tapioca, crepioca ou panquecas caseiras feitas com farinha integral.

Dados comparativos sobre ultraprocessados

Alimentos Grupo (NOVA) Principais características
Pão caseiro Processado (Grupo 3) Feito com poucos ingredientes naturais
Pão industrializado Ultraprocessado (Grupo 4) Inclui aditivos artificiais e conservantes
Frutas frescas In natura (Grupo 1) Não passam por processamento
Biscoitos recheados Ultraprocessado (Grupo 4) Altos níveis de açúcar e gorduras

O que dizem os especialistas?

Embora os pães industrializados possam ser práticos, nutricionistas recomendam cautela. "A solução não é eliminar completamente os ultraprocessados, mas, sim, fazer escolhas mais conscientes e reduzir sua presença na dieta", afirma a nutricionista Victoria Taylor, da British Heart Foundation.

Adotar uma dieta rica em alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, legumes, grãos integrais e proteínas magras, é essencial para a saúde. Além disso, priorizar preparações caseiras e limitar o consumo de alimentos com longas listas de ingredientes pode fazer uma diferença significativa na qualidade de vida.

A Visão do Especialista

O debate sobre pães ultraprocessados reflete uma questão maior: a necessidade de reavaliar nossas escolhas alimentares. O sistema NOVA oferece uma ferramenta valiosa para entender os impactos do processamento na dieta, mas ainda são necessários mais estudos para esclarecer os mecanismos pelos quais esses alimentos afetam nossa saúde.

Imagem de um pão com ingredientes químicos visíveis em uma mesa de laboratório.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

Portanto, o equilíbrio deve ser a palavra-chave. Reduzir o consumo de ultraprocessados, optar por versões mais naturais e investir em uma dieta diversificada e rica em alimentos in natura são passos essenciais para uma vida mais saudável. Compartilhe essa reportagem com seus amigos e ajude a disseminar informações que podem fazer a diferença na saúde de todos.