Nada é impossível para um romance. Essa é a mensagem central que a escritora brasiliense Paulliny Tort transmite em sua mais recente obra, "Os Imortais". Publicado em 2026, o livro já desponta como uma das grandes novidades do ano literário, impressionando pela ousadia de sua narrativa e pela escolha de um tema que remonta aos primórdios da humanidade: o embate entre sapiens e neandertais em um mundo marcado pela escassez, pela luta pela sobrevivência e pelo despertar de noções fundamentais como subjetividade e consciência coletiva.

Uma aposta ousada: recriando o passado remoto

Ambientar um romance na pré-história, onde a linguagem era rudimentar e conceitos como individualidade ainda estavam em sua gênese, é uma tarefa desafiadora. Paulliny Tort, no entanto, abraça o risco com maestria, evidenciando sua habilidade em criar um universo narrativo que mescla realismo, fábula e uma pitada de especulação filosófica. Em "Os Imortais", a autora transporta o leitor para um passado há 40 mil anos, onde sapiens e neandertais coexistem em um cenário de invernos vulcânicos e lutas pela sobrevivência.

Estrutura e narrativa: o poder da simplicidade

A obra é estruturada em quatro capítulos, cada um nomeado de maneira impessoal: "O Homem", "A Mulher", "A Menina" e "A Chegada". Essa escolha reforça a ideia de um mundo onde a subjetividade ainda engatinhava, mas também permite que o leitor projete seus próprios significados e sentimentos nos personagens. O narrador onisciente conduz a história com uma mistura de realismo e autoironia, criando uma sensação de fábula que, por vezes, desafia a verossimilhança da narrativa.

Fábula ou realismo? A dualidade narrativa

Ao longo do livro, Paulliny Tort desafia o leitor a navegar por uma narrativa que alterna entre a fábula e o realismo. Em um momento, somos apresentados a descrições vívidas de fome e desespero, como em: "A fome é um transe. Depois das tonturas e dos calafrios, vêm a náusea, a raiva estremecedora, a violência das cólicas...". Em outros trechos, encontramos reflexões que remetem a pensadores como Descartes ou Montaigne, criando um curto-circuito que, longe de alienar, enriquece a experiência de leitura.

Contexto histórico: o fascínio pela pré-história

O período em que sapiens e neandertais coexistiram — há cerca de 40 mil anos — é um dos mais fascinantes capítulos da história humana. Essas duas espécies, apesar de diferentes, compartilhavam características biológicas e culturais, e sua interação é fonte de intensos debates acadêmicos. Estudos recentes indicam que, ao longo de milhares de anos, houve cruzamentos entre sapiens e neandertais, o que resultou na incorporação de traços genéticos destes últimos em populações humanas modernas.

Rituais, gênero e sobrevivência

Um dos grandes trunfos de "Os Imortais" é a atenção aos detalhes históricos e antropológicos. A autora mergulha nos papéis de gênero, nos rituais tribais e nos desafios da sobrevivência. De viagens alucinógenas a caçadas, passando pela descrição de práticas culturais como a arte rupestre e a construção de ferramentas, Tort constrói um mosaico fascinante da vida pré-histórica. Cada detalhe parece meticulosamente pesquisado e cuidadosamente integrado à narrativa, o que confere um senso de autenticidade ao livro.

Recepção crítica e impacto literário

A obra tem sido recebida com entusiasmo por críticos e leitores. A escritora Ieda Magri destacou a riqueza vocabular e a personificação da natureza como personagem central, enquanto Marcelo Labes elogiou a profundidade e a capacidade do romance de provocar reflexões sobre o presente e o futuro a partir do passado. Essa ressonância com questões atemporais, como a sobrevivência, a violência e a coexistência, torna "Os Imortais" uma obra universal.

Comparações literárias e legado

"Os Imortais" já está sendo comparado a clássicos da literatura que ousaram explorar cenários e temáticas pouco convencionais. Obras como "O Senhor das Moscas" de William Golding e "Sapiens: Uma Breve História da Humanidade" de Yuval Noah Harari vêm à mente, dada a abordagem filosófica e antropológica de Tort. Assim como essas obras, o livro de Paulliny Tort questiona o que significa ser humano, explorando nossa relação com a natureza e com o outro.

Por que "Os Imortais" é relevante hoje?

Em um mundo que enfrenta desafios como mudanças climáticas, crises migratórias e desigualdades sociais, "Os Imortais" se destaca como um espelho para os nossos dilemas contemporâneos. A narrativa de Tort nos lembra da fragilidade da existência humana, ao mesmo tempo que celebra nossa capacidade de adaptação, criatividade e resiliência. É uma obra que, apesar de ambientada no passado remoto, dialoga diretamente com o presente.

A complexidade do humano: sapiens versus neandertais

O embate entre sapiens e neandertais não é apenas uma luta pela sobrevivência. É também uma metáfora para as tensões que moldam a humanidade. Tort explora temas como feminicídio, escravidão e guerra, mostrando como esses fenômenos têm raízes profundas na história humana. Ao mesmo tempo, a autora encontra espaço para abordar o amor, a compaixão e a solidariedade, sugerindo que a humanidade é definida tanto por sua capacidade de destruição quanto por sua habilidade de construir laços.

A linguagem como espelho da evolução

Um dos aspectos mais fascinantes de "Os Imortais" é a forma como a linguagem é tratada. Em um mundo onde a comunicação verbal era limitada, o narrador frequentemente recorre à autoironia para preencher as lacunas deixadas pela expressividade reduzida dos personagens. A escolha estilística de Tort não só enriquece a narrativa, como também convida o leitor a refletir sobre a importância da linguagem na formação da identidade humana.

A Visão do Especialista

"Os Imortais" não é apenas uma obra de ficção ambiciosa; é um marco na literatura brasileira contemporânea. Ao abordar um período muitas vezes ignorado pela ficção, Paulliny Tort demonstra que a literatura pode ser um meio poderoso para explorar as questões mais complexas da condição humana. Seja pelo seu rigor histórico, pela ousadia de sua narrativa ou pela profundidade de suas reflexões, "Os Imortais" é um convite irrecusável a um mergulho no passado para compreender o presente — e, quem sabe, vislumbrar o futuro.

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