A Proposta de Emenda à Constituição nº 8/2025 (PEC 8/2025), que visa reduzir a jornada semanal de trabalho para 36 horas em quatro dias, tem gerado intenso debate no Congresso Nacional e em diversos setores da sociedade. Embora a medida aparente trazer benefícios imediatos para a qualidade de vida dos trabalhadores, especialistas alertam que os impactos econômicos e sociais podem ser mais complexos e, em alguns casos, prejudiciais. Este artigo busca destrinchar os aspectos mais relevantes da proposta, sua origem, possíveis consequências e alternativas viáveis.

O que propõe a PEC 8/2025?
A PEC 8/2025 propõe a redução da jornada máxima de trabalho de 44 horas semanais para 36 horas, distribuídas em quatro dias. A justificativa principal é a de promover maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional, além de melhorar a saúde física e mental dos trabalhadores. Contudo, a proposta não prevê redução proporcional dos salários, o que, na prática, significaria aumento do custo da mão de obra para os empregadores.
Contexto histórico: a evolução da jornada de trabalho no Brasil

Desde a Constituição de 1988, a jornada máxima de trabalho no Brasil foi fixada em 44 horas semanais, com possibilidade de divisões diversas, como 8 horas diárias em cinco dias da semana ou outros formatos previstos por convenções coletivas. A redução da jornada tem sido uma pauta recorrente em movimentos sindicais ao longo das décadas, mas nunca foi implementada de forma substancial devido à resistência de setores econômicos e à preocupação com o impacto na produtividade e no custo do trabalho.
Impactos econômicos em um país de baixa produtividade
Uma das maiores críticas à PEC 8/2025 é o seu potencial de encarecer o trabalho formal, especialmente em um país com produtividade historicamente baixa. De acordo com dados do IBGE, a produtividade média do trabalhador brasileiro é inferior à de países desenvolvidos, o que significa que a mesma quantidade de trabalho gera menos riqueza. Em setores como comércio e serviços, que dependem de alta rotatividade e escalas flexíveis, a redução da jornada pode trazer dificuldades operacionais e financeiras substanciais.
Pequenas empresas: os maiores prejudicados
No Brasil, segundo o SEBRAE, 99% das empresas são micro e pequenas, responsáveis por 55% dos empregos formais no país. Diferentemente de grandes corporações, que podem absorver custos adicionais, pequenos negócios operam com margens muito estreitas. A redução da jornada semanal pode forçá-los a contratar mais trabalhadores, pagar horas extras ou reduzir o quadro de funcionários, opções que muitas vezes são inviáveis e podem levar ao fechamento de empresas.
Riscos de aumento da informalidade
Especialistas apontam que a PEC 8/2025 pode levar a uma ampliação da informalidade e da pejotização. Ao aumentar o custo do trabalho formal, empregadores podem buscar alternativas menos onerosas e, frequentemente, irregulares. Isso compromete as garantias trabalhistas, reduz a arrecadação previdenciária e amplia a insegurança jurídica nas relações de trabalho.
Comparação internacional
Em países como a Alemanha e os Países Baixos, a redução da jornada foi implementada de forma mais gradual, associada a aumentos na produtividade e a negociações coletivas robustas. Esses países possuem economias mais estruturadas e maior capacidade de absorver mudanças estruturais no mercado de trabalho. No Brasil, no entanto, a ausência de políticas paralelas para estímulo à produtividade e à competitividade pode tornar a transição mais traumática.
O impacto no comércio exterior
Setores exportadores como o agronegócio e a mineração, que competem em mercados globais, podem ser severamente afetados. Qualquer aumento no custo do trabalho reduz a competitividade internacional, dificultando a manutenção de preços competitivos e afetando negativamente as exportações brasileiras. Isso pode levar a uma retração econômica mais ampla, com reflexos no emprego e na arrecadação fiscal.
Alternativas à PEC 8/2025
Especialistas sugerem que, em vez de uma redução abrupta da jornada, o foco do legislador deveria estar em medidas mais graduais e equilibradas, como:
- Revisão da jornada 6x1, comum em setores como comércio e serviços, para garantir mais folgas aos trabalhadores.
- Fortalecimento da negociação coletiva, permitindo que sindicatos e empregadores ajustem jornadas conforme as especificidades de cada setor.
- Investimentos em educação e qualificação profissional para elevar a produtividade.
- Incentivos fiscais para empresas que adotarem práticas inovadoras de organização do trabalho.
Impactos sociais e qualidade de vida
Embora a redução da jornada semanal tenha o potencial de melhorar a qualidade de vida, é importante reconhecer que medidas sociais não podem ser desvinculadas da sustentabilidade econômica. O risco de desemprego e informalidade pode anular qualquer ganho social, deixando os trabalhadores em situação mais vulnerável.
A Visão do Especialista
Em um contexto de incerteza econômica global e desafios internos como baixa produtividade e alta desigualdade, a PEC 8/2025 representa um passo arriscado. Apesar de suas boas intenções, a proposta subestima os impactos sistêmicos no mercado de trabalho e na economia como um todo. A proteção ao trabalhador deve ser perseguida, mas com soluções que considerem a realidade econômica do país, a viabilidade das empresas e as especificidades setoriais.
Modernizar as relações de trabalho no Brasil é uma necessidade inegável, mas isso deve ser feito com diálogo, gradualismo e embasamento técnico. A PEC 8/2025, em sua forma atual, corre o risco de gerar mais problemas do que soluções, prejudicando tanto trabalhadores quanto empregadores. Para um avanço responsável, será essencial que o Congresso ouça todas as partes interessadas e busque um equilíbrio entre os princípios constitucionais da valorização do trabalho e da livre iniciativa.

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