O Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil, e o Zelle, rede privada de transferências dos Estados Unidos, tornaram‑se foco de tensão comercial entre Brasil e EUA. A divergência decorre de diferenças estruturais, regulatórias e de impacto econômico, que Washington considera desleal para empresas de cartões americanas.

Imagem de um jornalista sentado à mesa, com uma expressão de surpresa, ao lado de um computador com a tela mostrando a comparação entre Pix e Zelle.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

Contexto histórico e origem dos sistemas

O Pix foi lançado em novembro de 2020 como parte da agenda de digitalização do BC. Já o Zelle entrou em operação em 2017, resultado da aliança entre Bank of America, JPMorgan Chase, Wells Fargo e outros bancos.

Arquitetura técnica e modelo regulatório

O Pix funciona como uma infraestrutura pública, aberta a todas as instituições financeiras autorizadas. O Zelle, por sua vez, opera como uma camada de mensageria privada, limitada a cerca de 2,400 bancos participantes.

Chaves de identificação

No Pix, o usuário cadastra chaves (e‑mail, CPF, telefone) que facilitam a consulta e a rastreabilidade da transação. O Zelle utiliza apenas números de conta e não divulga informações de identificação ao público.

Modelo de custos e tarifas

Para pessoas físicas, o Pix é gratuito; instituições pagam apenas taxa de manutenção ao BC. O Zelle não cobra tarifa ao usuário final, mas os bancos envolvidos absorvem custos operacionais, repassando parte deles aos cartões de crédito.

Inclusão financeira e alcance de usuários

Em 2025, o Pix registrou mais de 250 milhões de usuários ativos, impulsionando a inclusão de populações sem conta bancária. O Zelle, apesar de rápido, atende principalmente clientes de bancos tradicionais, limitando seu alcance.

Impactos no mercado de cartões

Estudos da B8 Partners indicam que o volume de transações via Pix reduziu em 12 % a participação de Visa e Mastercard no Brasil entre 2021 e 2024. Nos EUA, o Zelle não compete diretamente com cartões, mas sua expansão poderia reduzir receitas de processadores.

Reação das autoridades americanas

Em janeiro de 2026, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) divulgou relatório acusando o Pix de prática desleal. O documento propôs sobretaxa de 25 % sobre produtos financeiros brasileiros exportados para os EUA.

Cronologia da disputa comercial

  • 07/06/2026 – Publicação do relatório USTR e proposta de tarifa adicional.
  • 08/06/2026 – Declarações de Eduardo Bolsonaro comparando Pix e Zelle em entrevista à rádio TMC.
  • 10/06/2026 – Reação do Banco Central, reafirmando a natureza pública do Pix.
  • 12/06/2026 – Comentários de Beny Fard (B8 Partners) sobre diferenças estruturais.
  • 14/06/2026 – Análise de Enrico Romanielo (Veirano Advogados) sobre a base jurídica do Zelle.

Posicionamento de especialistas

Ben Fard afirma que o Pix "corrói a receita de processadores de cartões americanos" ao eliminar a necessidade de intermediários. Enrico Romanielo destaca que o Zelle, por ser privado, está sujeito a leis de concorrência diferentes das aplicáveis ao Pix.

Comparativo técnico e econômico

CaracterísticaPix (Brasil)Zelle (EUA)
Tipo de infraestruturaPública (Banco Central)Privada (consórcio bancário)
Gratuidade para PFSimSim (mas custos internos)
Chaves de identificaçãoCPF, e‑mail, telefoneNúmero de conta bancária
Tempo de compensaçãoInstantâneo (até 10 s)Alguns minutos
RegulaçãoLei nº 14.478/2022Regulamentação bancária individual
Impacto em cartõesRedução de 12 % nas transações Visa/Mastercard (2021‑2024)Sem efeito direto

A Visão do Especialista

O futuro do Pix dependerá da capacidade do Brasil de defender sua infraestrutura pública frente a pressões comerciais externas. Enquanto os EUA buscam proteger seus interesses de processadores de cartões, o modelo brasileiro pode servir de referência global para sistemas de pagamento inclusivos, obrigando legisladores a equilibrar competição e soberania financeira.

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