Por que emprego já não garante popularidade? A combinação de baixo desemprego e inflação sob controle, que historicamente sustentou a popularidade de governos, já não possui o mesmo impacto no cenário político contemporâneo. Essa mudança reflete uma transformação estrutural nas dinâmicas sociais, econômicas e tecnológicas que moldam a forma como os cidadãos avaliam seus governantes.

Contexto Histórico: O fim da era dos presidentes blindados
Até 2014, o Brasil vivenciou um cenário político onde indicadores econômicos como emprego e inflação determinavam diretamente os índices de aprovação presidencial. Durante os dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, a taxa de aprovação oscilava entre 46,7% no auge do escândalo do Mensalão e 87% ao final do seu segundo governo. Porém, a partir de 2015, esse cenário começou a mudar drasticamente.
Segundo o cientista político Fábio Vasconcellos, professor da UERJ e pesquisador do INCT, houve uma ruptura no "contrato social" entre governo e sociedade. A aprovação média dos presidentes, que girava em torno de 60%, despencou para níveis historicamente baixos. Dilma Rousseff encerrou 2015 com apenas 19% de aprovação, e Michel Temer chegou ao final de seu mandato com 7%. Essa crise de popularidade, mesmo em períodos de estabilidade econômica relativa, marca o início de uma nova era.

Os desafios da tecnopolítica e o impacto das redes sociais
A ascensão das redes sociais e o domínio dos algoritmos na disseminação de informações transformaram a forma como os cidadãos interagem com a política. Nas palavras de Yanis Varoufakis, economista e ex-ministro das Finanças da Grécia, "os indicadores macroeconômicos tradicionais, como o PIB ou o emprego, tornaram-se métricas fantasmas". O poder de influenciar opiniões e moldar narrativas migrou para as mãos das Big Techs.
Essa nova realidade permite que as redes sociais amplifiquem a insatisfação popular de forma rápida e massiva, tornando os governos vulneráveis a flutuações de opinião pública em ciclos cada vez mais curtos. Pequenos aumentos nos preços ou escândalos políticos rapidamente se transformam em crises de popularidade, independentemente das condições econômicas gerais.
O paradoxo do governo Lula 3
O atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva, em seu terceiro mandato, é um exemplo claro desse fenômeno. Apesar de apresentar a menor taxa de desemprego da história recente e um aumento no rendimento médio da população, a aprovação do governo permanece estagnada em torno de 50%.
Essa estagnação reflete uma mudança na percepção pública: o emprego e o controle da inflação são vistos como obrigações mínimas de um governo, e não mais como realizações dignas de reconhecimento. Por outro lado, qualquer variação nos preços ou surgimento de escândalos políticos pode ter um impacto desproporcional na percepção pública, especialmente entre eleitores independentes.
O papel da inflação na nova dinâmica política
De acordo com a análise de Fábio Vasconcellos, a partir de 2015, a inflação se tornou o principal gatilho de insatisfação popular. Dados mostram que a cada 1% de inflação acumulada em um bimestre, a popularidade presidencial diminui em cerca de 3,6 pontos percentuais. Esse dado ilustra como o público passou a monitorar a economia de forma mais imediata e punitiva.
A percepção de que os ganhos econômicos não se traduzem em melhorias reais na qualidade de vida, devido à corrosão do poder de compra, alimenta essa insatisfação. Para muitos, o aumento do emprego é neutralizado pela percepção de que os salários não acompanham o custo de vida.
O impacto global da transição democrática e da tecnopolítica
O Brasil não é o único país a enfrentar essa mudança. Em democracias ao redor do mundo, governos eleitos com margens apertadas encontram dificuldades para consolidar apoio popular. A transição para a tecnopolítica, onde as redes sociais têm um papel central, cria um ambiente de constante vigilância e julgamento instantâneo.
Os governos não apenas precisam lidar com as variáveis da economia clássica, mas também com um ecossistema digital que frequentemente prioriza o sensacionalismo e a polarização em detrimento de análises mais ponderadas. Isso torna a governança democrática um exercício ainda mais desafiador na era moderna.
A visão do especialista
O cenário atual exige que os governos repensem suas estratégias de comunicação e engajamento com a população. Como apontado por Fábio Vasconcellos, a era dos presidentes blindados chegou ao fim. Para conquistar e manter a popularidade, não basta mais apresentar bons resultados econômicos; é necessário compreender e se adaptar às novas dinâmicas impostas pelas redes sociais e pela percepção pública imediata.
No Brasil, o governo Lula 3 está diante de um desafio significativo: traduzir os ganhos econômicos em uma narrativa que ressoe com a população e enfrentar o poder disruptivo das redes sociais. Enquanto isso, os cidadãos continuarão a exercer seu papel de vigilantes, exigindo não apenas estabilidade econômica, mas também transparência, eficiência e respostas rápidas às suas demandas.
Em um mundo onde a política é cada vez mais moldada pela tecnopolítica, a popularidade de um governo dependerá menos de indicadores macroeconômicos e mais de sua capacidade de se conectar autenticamente com uma população cada vez mais crítica e empoderada.
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