O projeto de uma fábrica de fertilizantes no município de Linhares, no Espírito Santo, voltou a ser pauta de discussões após o anúncio de um estímulo de R$ 10 bilhões pelo governo federal para o desenvolvimento da produção de fertilizantes no Brasil. Empresários locais e especialistas avaliam que o cenário atual, marcado pela busca pela autossuficiência no setor, pode ser favorável para a reativação da proposta que havia sido idealizada pela Petrobras em 2012. No entanto, há desafios técnicos, econômicos e políticos que precisam ser superados para que o projeto saia do papel.

O histórico do projeto do Complexo Gás-Químico em Linhares

Em 2012, a Petrobras anunciou planos para a construção de um Complexo Gás-Químico em Linhares, no Norte do Espírito Santo. O objetivo era transformar o gás natural extraído no estado em amônia, essencial para a produção de fertilizantes, como ureia. A ureia, por sua vez, desempenha um papel crucial na agricultura, sendo amplamente utilizada para reposição de nutrientes no solo e aumento da produtividade agrícola.

O projeto, no entanto, acabou sendo engavetado. A falta de investimentos e mudanças nas prioridades estratégicas da Petrobras resultaram no abandono do plano. Atualmente, a estatal confirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que a construção de uma fábrica de fertilizantes no Espírito Santo não está prevista no Plano de Negócios 2026-2030.

Por que o Espírito Santo é um candidato forte?

Segundo especialistas, o Espírito Santo apresenta condições favoráveis para a instalação de uma fábrica de fertilizantes. O estado possui uma produção de gás natural que supera o consumo local, o que poderia garantir o fornecimento de matéria-prima para um complexo industrial. Além disso, sua localização estratégica e infraestrutura portuária robusta são aspectos que o tornam uma opção viável para importação e exportação de insumos e produtos acabados.

Outro fator relevante é a presença de incentivos fiscais, como os oferecidos pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e as Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs), que podem atrair investimentos privados e viabilizar economicamente o projeto.

A relevância da autossuficiência em fertilizantes

Atualmente, o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura nacional, tornando-se dependente de mercados externos, especialmente da Rússia, Belarus e Canadá. Essa dependência foi amplamente debatida após os impactos da pandemia de COVID-19 e da guerra na Ucrânia, que causaram rupturas nas cadeias de suprimento globais e aumentaram os custos de produção agrícola no Brasil.

A retomada ou instalação de fábricas de fertilizantes, como o possível projeto em Linhares, poderia contribuir para reduzir essa dependência externa, garantir maior estabilidade no fornecimento e diminuir os custos para os agricultores brasileiros.

As etapas e potencialidades de um Complexo Gás-Químico

O processo industrial de um complexo gás-químico inicia com a transformação do gás natural em amônia, um composto versátil usado não apenas na produção de ureia, mas também em outros produtos químicos. A amônia pode ser utilizada, por exemplo, na fabricação de melamina, que serve como matéria-prima para utensílios domésticos e painéis.

Além disso, o complexo poderia produzir metanol, utilizado na fabricação de ácido fórmico (aplicado na indústria do couro) e ácido acético (essencial para tintas e vernizes). Este modelo de agregação de valor ao gás natural não apenas diversifica a produção industrial, mas também traz maior competitividade ao estado.

O papel do Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert)

Em 2026, a Câmara dos Deputados aprovou o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), que prevê o investimento de até R$ 10 bilhões em subsídios para fortalecer o setor. O projeto agora segue para o Senado. A proposta busca atender a necessidade crescente de fertilizantes no Brasil, incentivando tanto a instalação de novas fábricas quanto a ampliação das já existentes.

Esse estímulo financeiro poderá ser um fator decisivo para atrair investidores para o projeto de Linhares, especialmente em um cenário onde a autossuficiência em insumos agrícolas é uma prioridade nacional.

Quais os desafios para a reativação do projeto?

Apesar das condições favoráveis, há obstáculos que precisam ser superados. Um dos principais desafios é a necessidade de um investidor disposto a assumir os riscos do projeto. A Petrobras, por exemplo, já afirmou que não há previsão para retomar a iniciativa, o que indica a necessidade de buscar outros parceiros privados, nacionais ou internacionais.

Além disso, questões regulatórias e ambientais podem representar entraves. A construção de um complexo gás-químico exige uma análise rigorosa dos impactos ambientais, bem como a obtenção de diversas licenças. O apoio governamental será crucial para superar essas barreiras e atrair capital para o projeto.

A visão do especialista

De acordo com o consultor empresarial Durval Vieira de Freitas, a reativação do projeto em Linhares dependerá de uma convergência entre o interesse público e privado. "É uma oportunidade única de utilizar o gás natural disponível no estado para impulsionar a economia local e reduzir a dependência nacional de fertilizantes importados. No entanto, é essencial que o governo federal e estadual criem um ambiente regulatório atrativo e garantam segurança jurídica para os investidores", destacou.

O investimento em infraestrutura e incentivos fiscais também será determinante para viabilizar o projeto. Com o cenário global de incertezas e a crescente demanda por fertilizantes, o Brasil não pode perder a oportunidade de avançar rumo à autossuficiência nesse setor estratégico.

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